Mensagens ligam Bolsonaro a lobby dos EUA a favor de big techs

PF vê subordinação do ex-presidente a interesses financeiros e políticos estrangeiros em ofensiva contra Moraes e defesa das grandes empresas de tecnologia

Mensagens ligam Bolsonaro a lobby dos EUA contra regulação das Big Techs 3

Foto: Reprodução/Instagram

O relatório final da Polícia Federal (PF), divulgado na quarta-feira, 20, aponta que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – que se elegeu em 2018 sob o lema “Brasil acima de tudo” – trocou mensagens com o advogado Martin de Luca, que representa o Rumble e a Trump Media, em meio a uma ofensiva para deslegitimar o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A defesa do ex-presidente tem até as 20h34 da noite desta sexta-feira, 22, para se explicar ao Supremo sobre o descumprimento de medidas cautelares. Na última quarta, 20, Moraes deu 48 horas para que os advogados se manifestassem sobre “condutas ilícitas e a existência de comprovado risco de fuga” identificadas pela PF (Polícia Federal).

Coação e convergência de interesses

Segundo a PF, que indiciou Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por coação, os diálogos revelam uma convergência de interesses:

“Amplificar ataques direcionados ao STF, na pessoa do ministro Alexandre de Moraes, de forma a atingir a jurisdição brasileira, atribuindo descrédito ao Poder Judiciário nacional com propósito único de deslegitimação das decisões judiciais que conflitem com interesses comuns entre o ex-presidente e a plataforma Rumble”, conclui o relatório.

Entre as mensagens, Bolsonaro chegou a pedir orientação a De Luca para redigir uma nota (leia a transcrição do áudio):

“Martin, peço que você me oriente também, me desculpa aqui tá, minha modéstia, como proceder. Eu fiz uma nota, acho que eu te mandei. Tá certo? Com quatro pequenos parágrafos, boa, elogiando o Trump, falando que a questão de liberdade tá muito acima da questão econômica. A perseguição a meu nome também, coisa que me sinto muito… pô, fiquei muito feliz com o Trump, muita gratidão a ele. Me orienta uma nota pequena da tua parte, que eu possa fazer aqui, botar nas minhas mídias, pra chegar a vocês de volta aí. Obrigado aí. Valeu, Martin.”

Para a PF, a atitude demonstra que Bolsonaro “atua de forma subordinada a interesses de agentes estrangeiros”. De Luca, advogado do Rumble e da Trump Media, também move ação contra Moraes nos Estados Unidos, alegando censura ao discurso político de aliados da direita, como o blogueiro foragido Allan dos Santos.

Big techs versus Moraes

Alexandre de Moraes vem sendo alvo das plataformas desde sua gestão no TSE, em 2022, quando determinou a exclusão de centenas de conteúdos. Em 2024, ordenou o bloqueio do X e incluiu Elon Musk no inquérito das milícias digitais.

O embate com o Rumble tem paralelos com o caso do X: ambas as empresas ignoraram decisões do ministro e se recusaram a indicar representantes no Brasil. Em fevereiro deste ano, o Rumble foi bloqueado após restabelecer o perfil de Allan dos Santos, contrariando ordens judiciais.

Assim como Musk, que atacou Moraes pessoalmente, o Rumble entrou com ação judicial nos EUA, em conjunto com a Trump Media, contra o magistrado brasileiro.

O argumento da liberdade de expressão

O argumento de que Moraes fere a liberdade de expressão sustenta tanto os discursos de bolsonaristas quanto os de aliados de Trump. A narrativa é usada para criticar bloqueios de perfis e justificar o chamado “tarifaço” imposto pelo governo americano contra o Brasil.

Políticos de oposição afirmam que as decisões do ministro também restringem os direitos de Bolsonaro, que teve prisão domiciliar decretada após descumprir medidas cautelares.

Após a divulgação das mensagens pela PF, Eduardo Bolsonaro declarou estar “amparado” pela legislação americana para defender sua atuação nos EUA. A Constituição dos Estados Unidos foi citada inclusive pela embaixada americana, em crítica ao indiciamento do ex-presidente e de seu filho.

PF aponta movimentação de R$ 30,5 milhões nas contas de Bolsonaro

Relatório cita 50 operações financeiras atípicas envolvendo ex-presidente, Eduardo e Michele

O relatório da Polícia Federal sobre a investigação que indiciou Jair Bolsonaro (PL) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aponta que o ex-presidente movimentou R$ 30,5 milhões em suas contas entre março de 2023 e fevereiro de 2024.

As informações têm como base relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), utilizados no inquérito que apura o caso do tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil.

Embora não aponte ilegalidades quanto à origem dos valores, o documento registra 50 comunicações de operações consideradas atípicas. Quatro delas foram em contas de Bolsonaro, quatro em contas de Eduardo e outras 42 em contas de terceiros ligados à família.

Segundo a PF, as movimentações “apresentam indícios de possíveis práticas de lavagem de dinheiro ou outros ilícitos”.

Entre as operações, destaca-se o repasse de R$ 2 milhões para bancar a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A transferência ocorreu em 13 de maio e já havia sido confirmada publicamente pelo próprio ex-presidente. O valor integra os R$ 19 milhões arrecadados via Pix junto a apoiadores entre 2023 e 2024.

O Coaf também registrou a transferência de R$ 3 milhões da conta de Jair Bolsonaro para Michele Bolsonaro. A PF aponta que o ex-presidente omitiu a informação em depoimento prestado durante as investigações.

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