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Gaza enfrenta catástrofe humanitária e precisa de ajuda urgente
Médicos Sem Fronteiras alerta para risco de colapso da assistência após restrições impostas por Israel…

Depois que as forças israelenses abriram fogo contra pessoas em um dos locais de distribuição da GHF, o centro de saúde d0s Médicos Sem Fronteiras em Al Mawasi recebeu pacientes com ferimentos, incluindo mortos, enquanto tentavam conseguir comida para suas famílias. Faixa de Gaza, 3 de agosto de 2025
Foto: Nour Alsaqqa/MSF
A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçada a suspender suas atividades médicas na Cidade de Gaza devido à intensificação da ofensiva israelense. O avanço de tanques a menos de um quilômetro de suas instalações, somado a bombardeios aéreos constantes, criou um nível inaceitável de risco para as equipes, levando à interrupção de serviços considerados vitais para a população local.

A 13ª vítima do MSF, o enfermeiro Hussein Alnajjar morreu em 16 de setembro, em consequência de ferimentos causados por estilhaços sofridos cinco dias antes, quando a tenda onde ele se abrigava foi atingida por um ataque aéreo israelense
Foto: MSF/Divulgação
Apesar das ordens de evacuação, centenas de milhares de palestinos continuam na Cidade de Gaza, sem meios para deixar o território. Aqueles que conseguem sair enfrentam um dilema: permanecer sob ataques intensos e o colapso da ordem social ou abandonar suas casas em direção a áreas do sul onde as condições humanitárias também se deterioram rapidamente.
Na última semana antes da suspensão, as clínicas da MSF em Gaza realizaram mais de 3.640 consultas e atenderam 1.655 pacientes com desnutrição, além de casos de traumas graves, queimaduras, gestantes e pessoas com doenças crônicas. Esses números, segundo a organização, refletem a dimensão das necessidades médicas na cidade.

Caminhão-pipa do Médicos Sem Fronteiras atacado em setembro, durante as ofensivas
Foto> MSF/Divulgação
Com hospitais locais sobrecarregados e em funcionamento parcial devido à falta de combustível, insumos e profissionais, a MSF afirma que continuará apoiando o sistema de saúde palestino onde for possível. “Nosso objetivo é manter apoio aos serviços essenciais em unidades como os hospitais Al Helou e Al Shifa”, destacou a entidade.
Além do apelo pelo fim imediato da violência, a organização exige garantias de segurança e acesso irrestrito para equipes humanitárias. “Os palestinos em Gaza estão exaustos, privados deliberadamente de água, comida, abrigo e cuidados básicos. É essencial que sejam criadas condições adequadas para que a ajuda humanitária seja prestada com segurança e continuidade”, afirma a MSF.
Conforme nota à imprensa, mesmo após a retirada da Cidade de Gaza, a ONG Médicos Sem Fronteiras ainda segue presente em outras áreas do território. Em Khan Younis, a organização apoia o Hospital Nasser e mantém três centros de saúde primária. Na região Central, oferece suporte ao departamento de emergência e à clínica de traumas do Hospital Al-Aqsa, além de operar dois hospitais de campanha em Deir Al-Balah.
Em 4 de julho de 2025, o MSF confirmou que 13 membros de sua equipe foram mortos na Faixa de Gaza durante ataques israelenses. Conforme a ONG, os ataques às equipes médicas têm sido uma constante no conflito. A organização ressalta que as mortes ocorreram enquanto eles trabalhavam ou se abrigavam com suas famílias.

Ruas da cidade de Rafah, no sul de Gaza, na Palestina
Foto: Mariam Abu Dagga/MSF
Segundo a entidade, a escalada da violência, a destruição de residências e o risco constante de bombardeios têm forçado profissionais e pacientes a deixarem a área repetidamente. Fora da Cidade de Gaza, o Médicos Sem Fronteiras ainda mantém alguns atendimentos, mas em condições cada vez mais precárias.
Entre os trabalhadores atingidos está a fisioterapeuta Sabreen Almaseri, que atua no MSF há cinco anos. No dia 19 de agosto, ela e a família foram obrigadas a fugir pela 11ª vez desde o início da guerra, quando sua casa, no bairro de Saftawi, foi destruída por forças israelenses.
Sabreen conta que, dias antes, havia decidido retornar à residência parcialmente danificada. “Havia novos danos ao prédio, mas senti alegria novamente por estar dentro da minha casa: a casa que faz parte da minha alma, o lugar que amo profundamente. Minha casa representava uma jornada de 13 anos de luta e perseverança”, relatou. A sensação de reencontro, porém, durou pouco.
“Meu telefone tocou — era meu marido. Ele me disse: ‘Volte rápido. Eles emitiram um alerta para toda a área. Vão bombardeá-la’. Encontrei minhas filhas em uma rua próxima, chorando de medo. Momentos depois, ouvimos a explosão. Nossa casa, com todas as nossas memórias, desapareceu.”
O episódio se soma a uma série de deslocamentos traumáticos vividos pela profissional desde os primeiros dias do conflito. Ela lembra a primeira fuga, uma semana após a eclosão da guerra, quando a família escapou de ataques no norte de Gaza. “Um círculo de fogo nos cercava. Achamos que estávamos dando nossos últimos suspiros. Estilhaços voavam sobre nossas cabeças. Formamos um círculo, abraçados, antes de nos encontrarmos na rua, chorando, desabrigados novamente.”
Desde então, a rotina tem sido de perdas sucessivas. Sabreen narra que, após ser forçada a deixar Safatawi, sobreviveu a um bombardeio que matou mais de 500 pessoas. Mais tarde, fugiu para o Sul e só conseguiu retornar ao norte de Gaza no cessar-fogo de janeiro de 2025. Encontrou a casa em ruínas, mas ainda de pé, e, junto com a família, improvisou reparos para voltar a viver ali.
“Quando finalmente vi minha casa, pude respirar aliviada. Ela ainda estava de pé, parcialmente danificada, mas ainda habitável. Consertamos o que pudemos. Mas nossa alegria durou pouco, pois a trégua terminou e os bombardeios voltaram com ainda mais intensidade. Fugimos novamente, vivendo em uma barraca, suportando o calor sufocante do verão e a dureza da vida cotidiana no deslocamento.”
Duas semanas antes de perder a casa definitivamente, Sabreen acreditava que poderia estar segura. “Mas essa esperança foi novamente destruída junto com nossa casa e nossos pertences. Esta é a 11ª vez que somos forçados a fugir desde o início desta guerra. Mas desta vez é a mais difícil, porque sei que nunca mais voltarei para minha casa.”
Além do trabalho clínico, Sabreen ressalta o papel humano de sua função. “Eu nunca fui apenas uma fisioterapeuta. Apoiei meus pacientes emocionalmente, ouvi suas histórias e lhes dei conforto enquanto compartilhavam suas dores. Por trás de cada paciente havia uma história comovente, uma vida marcada pelo sofrimento. As pessoas aqui estão exaustas, abatidas, mas ainda assim tentam seguir em frente e encontrar motivos para sorrir.”
A interrupção dos serviços médicos em Gaza, afirma o MSF, reflete não apenas a destruição da infraestrutura, mas também o impacto direto sobre os próprios profissionais, que, assim como os pacientes, enfrentam deslocamentos sucessivos, perdas familiares e destruição de suas casas.

Katrin sorri enquanto faz bolhas de sabão com Maria, a paciente de três anos de idade. A brincadeira aprofunda a respiração da menina e acalma seu sistema nervoso
Foto: MSF/Divulgação
A psicóloga norueguesa Katrin Glatz Brubakk trabalha há dez anos com vítimas de guerra e sobreviventes de tortura. Desde 2018 integra projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e, mais recentemente, esteve na Faixa de Gaza, onde prestou cuidados a crianças gravemente feridas e em profundo sofrimento psicológico. Seu relato evidencia como pequenos gestos de humanidade podem fazer diferença em meio à destruição em massa.
“Ouço um grito agudo. Larguei tudo e corri”, recorda Katrin. “Era o grito em pânico de uma criança, um som que perfurou todo o meu corpo.”
Durante cinco semanas, em agosto de 2024, ela atuou na unidade ortopédica e de queimados do Hospital Nasser, em Khan Younis, no sul de Gaza. Ali, muitos pacientes eram crianças gravemente feridas: queimaduras, fraturas, feridas infectadas e amputações eram rotina. A maioria havia perdido familiares em bombardeios, todas profundamente traumatizadas.
Entre essas crianças estava um menino de 12 anos, gravemente queimado após um ataque explosivo. Durante um tratamento ambulatorial, seu pânico era tão intenso que confundia a agulha da enfermeira com a bomba que quase matou sua família. “Pedi que interrompêssemos o procedimento. Chamei o pai para acariciá-lo e conversei com o menino até que se acalmasse. Concordamos em sedá-lo levemente e prosseguir com o pai ao lado”, explica Katrin.
Algumas semanas depois, o pai voltou à clínica apenas para agradecer. “Na guerra, eles haviam perdido quase toda a fé na bondade do mundo. Um gesto de humanidade devolveu a eles um pouco de esperança”, relata.
Outra paciente marcou sua memória: Maria, uma menina que se retraía ao ver o colete branco de MSF. O medo a paralisava, cada detalhe da clínica lhe trazia de volta a explosão que a feriu. Katrin, pacientemente, visitava o quarto várias vezes ao dia apenas para dizer “olá”. Dias depois, conseguiu se aproximar, sentar-se ao lado da criança e de sua mãe e usar um recurso simples: bolhas de sabão.
“Maria reagiu com medo no início. Depois, ganhou coragem e soprou as bolhas. Sua respiração se aprofundou, o corpo relaxou. Pela primeira vez em quatro meses, ela sorriu”, conta.
Apesar desses momentos, a especialista enfatiza as limitações da ajuda em Gaza. “Não posso oferecer terapia para traumas e luto, nem garantir que as crianças estão seguras. Mas posso, junto com a equipe de psicólogos e conselheiros, oferecer primeiros socorros psicológicos, ajudando-as a lidar com o presente”, afirma.
Segundo Katrin, a ausência de estabilidade, segurança e estrutura social ameaça o desenvolvimento cerebral das crianças. A exposição prolongada ao medo crônico faz com que a amígdala, ligada às emoções, cresça em excesso, enquanto o hipocampo, fundamental para o raciocínio e a aprendizagem, não se desenvolve adequadamente.

Com a ajuda de um desenho, uma criança expressou a violência que sofreu durante a guerra. Nossa equipe usa a arteterapia para ajudar as crianças a processar suas experiências
Foto: Reprodução/Katrin Glatz Brubakk/Acervo
No Hospital Nasser, ela também coordenava sessões em grupo com familiares, ensinando-os a reconhecer sinais típicos do trauma infantil — urina involuntária, automutilação, silêncio repentino. “Ajudar os pais a entender e apoiar seus filhos é parte essencial da recuperação”, destaca.

Katrin Glatz Brubakk, especialista em saúde mental de Médicos sem Fronteiras em Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, Palestina
Foto: MSF/Divulgação
Após cinco semanas, Katrin retornou à Noruega, mas seguia em contato diário com colegas palestinos. “Eles cuidam de pacientes sem saber se verão seus próprios filhos vivos à noite. Admiro sua coragem”, diz. Planejava voltar a Khan Younis em agosto de 2025, “se o hospital ainda estivesse lá”.
Pouco depois, porém, a realidade se impôs: em 23 de março, o Hospital Nasser foi atingido por mísseis, que destruíram a ala cirúrgica e mataram duas pessoas. Em 25 de agosto, novo ataque deixou mais de 20 mortos.
A campanha militar israelense destruiu hospitais, clínicas e equipes de saúde, soterrando pacientes e profissionais. Para Katrin, cada sorriso arrancado de uma criança, cada instante sem medo, é uma vitória contra a brutalidade. “Meu único desejo é estar presente e apoiar as crianças e meus colegas”, afirma.
Médicos Sem Fronteiras reforça o apelo: Israel deve permitir que a população de Gaza viva e que a assistência médica continue.