Gaza em chamas: mais mortes e destruição em ataque maciço de Israel

A decisão do estado israelense desafia alertas de líderes europeus, que ameaçaram impor sanções, e de oficiais militares israelenses, que advertiram para riscos de alto custo humano e estratégico
Gaza em chamas: mortes, desespero e destruição em ataque maciço de Israel

Em Gaza, os abrigos improvisados ​​em que muitas pessoas vivem atualmente oferecem pouca proteção enquanto os bombardeios continuam

Foto: Reprodução do YouTube/Al Jazeera

Israel lançou nesta terça-feira um ataque terrestre contra a cidade de Gaza, operação há muito anunciada pelo governo, com o slogan “Gaza está queimando”. Palestinos relataram que se trata do bombardeio mais intenso em dois anos de guerra. As informações são a agência de notícias Reuters.

Um oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmou que as tropas avançam cada vez mais para o centro urbano e que o número de soldados aumentará nos próximos dias para enfrentar cerca de 3 mil combatentes do Hamas que, segundo estimativas israelenses, ainda permanecem na cidade.

“Gaza está em chamas”, publicou no X o ministro da Defesa, Israel Katz. “As IDF atacam com punho de ferro a infraestrutura terrorista e os soldados lutam bravamente para criar as condições para a libertação dos reféns e a derrota do Hamas.”

A decisão desafia alertas de líderes europeus, que ameaçaram impor sanções, e de oficiais militares israelenses, que advertiram para riscos de alto custo humano e estratégico. O governo dos Estados Unidos, porém, deu sinais de apoio. O secretário de Estado Marco Rubio declarou em coletiva ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que Washington deseja uma solução diplomática, mas está preparado “para a possibilidade de que isso não aconteça”.

Enquanto isso, uma Comissão de Inquérito da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza, incitado por autoridades de alto escalão, incluindo Netanyahu. O governo israelense classificou a avaliação como “escandalosa” e “falsa”.

Risco de aniquilação total

Forçar 1 milhão de pessoas, incluindo centenas de pacientes gravemente doentes e recém-nascidos, a sair da Cidade de Gaza e ir para áreas superlotadas e com poucos recursos no centro e no sul da Faixa de Gaza é uma sentença de morte, alerta a Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Os bombardeios implacáveis ​​das forças israelenses e o avanço de sua ofensiva terrestre estão matando palestinos e expulsando-os de suas casas e abrigos — às vezes várias vezes — seguindo um padrão de destruição completa testemunhado anteriormente pelas equipes da MSF em Rafah há mais de um ano.

Sem uma intervenção urgente e radical, Gaza corre o risco de aniquilação total.

Gaza em chamas: mortes, desespero e destruição em ataque maciço de Israel

Forçar 1 milhão de pessoas, incluindo centenas de pacientes gravemente doentes e recém-nascidos, a sair da Cidade de Gaza e ir para áreas superlotadas e com poucos recursos no centro e no sul da Faixa de Gaza é uma sentença de morte, alerta a Médicos Sem Fronteiras 

Foto: Reprodução do YouTube/Al Jazeera

Os abrigos improvisados ​​em que muitas pessoas vivem atualmente oferecem pouca proteção enquanto os bombardeios continuam. Estima-se que 1 milhão de deslocados ocupem atualmente apenas 15% do território de Gaza — condições agravadas pela destruição de quase 90% dos sistemas de água e saneamento. Surtos de doenças como diarreia aguda já estão se espalhando, pois as pessoas estão sendo forçadas a viver em condições superlotadas e insalubres.

“Alguns dos nossos colegas foram deslocados mais de 11 vezes desde 2023”, afirma Jacob Granger, coordenador de emergência da MSF em Gaza. “A MSF continua distribuindo água na cidade, mas, sem reservas de água , pessoas morrerão em questão de dias se as forças israelenses impossibilitarem a produção e a distribuição de água potável.”

Gaza em chamas: mortes, desespero e destruição em ataque maciço de Israel

 Estima-se que 1 milhão de deslocados ocupem atualmente apenas 15% do território de Gaza

Foto: MSF/Divulgação


Fugir pra onde?

O Ministério da Saúde de Gaza informou que ao menos 40 pessoas morreram nas primeiras horas da ofensiva, a maioria na Cidade de Gaza, alvo de ataques aéreos e da entrada de tanques.

Imagens reportadas pela Reuters mostram civis tentando resgatar vítimas em meio a escombros. Em um dos pontos atingidos, duas torres residenciais ruíram durante a madrugada. Entre os destroços, o corpo de uma criança foi retirado e enrolado em um cobertor.

Gaza em chamas: mortes, desespero e destruição em ataque maciço de Israel

Ao menos 40 pessoas morreram nas primeiras horas da ofensiva

Foto: Reprodução do YouTube/Al Jazeera

“Não sabemos como tirar minha prima debaixo de um bloco de concreto. Trabalhamos nisso desde as 3h da manhã”, relatou Abu Mohammed Hamed, que perdeu parentes no ataque.

Israel voltou a ordenar a saída de civis. Colunas de palestinos seguem para o sul e o oeste em carroças, riquixás, veículos sobrecarregados ou a pé.

“Eles estão destruindo torres residenciais, mesquitas, escolas e estradas, apagando nossas memórias”, disse Abu Tamer, de 70 anos, em mensagem de texto à agência.


Apoio americano, pressões europeias

Horas antes da ofensiva, Rubio reforçou o apoio dos EUA a Israel. Já na Europa, a posição foi oposta. A União Europeia deve aprovar novas sanções nesta quarta-feira, incluindo suspensão de disposições comerciais.

A secretária britânica de Relações Exteriores, Yvette Cooper, chamou a operação de “imprudente e terrível” e defendeu um cessar-fogo imediato. Reino Unido e França devem reconhecer a independência palestina ainda neste mês.

Testemunhas relataram que a área de Tel Al-Hawa, no sudoeste de Gaza, foi bombardeada por ar, terra e mar. Segundo elas, as IDF usaram robôs com explosivos, provocando explosões que lançaram destroços a centenas de metros.


“É como escapar da morte em direção à morte”

Muitos moradores não conseguiram fugir. Alguns por falta de dinheiro e transporte; outros porque não veem alternativas seguras.

“É como escapar da morte em direção à morte, então não vamos embora”, disse Mohammad, moradora de Sabra.

Hamas e IDF estimam que cerca de 350 mil pessoas já deixaram a Cidade de Gaza, mas o dobro ainda permanece.

A ONU e organizações humanitárias acusam Israel de promover deslocamento forçado em massa, sem garantir alimentação, assistência médica e condições mínimas de higiene. Nas últimas 24 horas, três palestinos morreram de fome, elevando o total para 428 desde o início da guerra. O governo israelense nega a gravidade da crise alimentar.


Reféns em risco e pressões internas

Alguns militares israelenses alertam que a operação pode pôr em risco os reféns ainda sob poder do Hamas ou se transformar em “armadilha mortal” para as tropas.

Segundo três fontes israelenses, o chefe de gabinete Eyal Zamir pediu a Netanyahu, em reunião no domingo, que buscasse um cessar-fogo. As famílias dos reféns protestaram em frente à residência do premiê em Jerusalém, acusando o governo de expor seus parentes.

“Nossos entes queridos em Gaza estão sendo bombardeados pelas IDF sob ordens do primeiro-ministro”, disse Anat Angrest, mãe de Matan, um dos 20 reféns que se acredita ainda estarem vivos.

O Hamas atacou Israel em outubro de 2023, matando cerca de 1.200 pessoas e sequestrando 251, segundo dados israelenses. Em resposta, a ofensiva israelense já deixou mais de 64 mil mortos em Gaza, de acordo com o Ministério da Saúde do enclave.

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