Pampa: documentário expõe ameaças e aponta caminhos

Principal bioma gaúcho perde campos nativos para soja e silvicultura, enquanto alternativas sustentáveis como a pecuária aguardam políticas públicas e apoio estrutural
Pampa: documentário expõe ameaças e aponta caminhos

Imensas lavouras de eucalipto cortam as pastagens nativas alterando totalmente o bioma Pampa

Fotos: OCF/Divulgação

Um documentário produzido pelo Observatório do Código Florestal (OCF) revela o avanço acelerado da conversão dos campos naturais do Pampa em lavouras de soja e áreas de silvicultura, especialmente para o cultivo de eucalipto. O filme “Pampa: a força do bioma invisível” será lançado nesta quarta-feira, 17, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, data em que se comemora o Dia do Bioma Pampa.

A produção é resultado de uma expedição que percorreu cerca de 1.800 quilômetros por municípios do Pampa gaúcho. Ao longo do trajeto, técnicos do OCF visitaram propriedades rurais, áreas de campo nativo, comunidades tradicionais e regiões de expansão agrícola no extremo sul do estado. A equipe ouviu pesquisadores, especialistas, pecuaristas, proprietários rurais, agentes públicos e representantes de comunidades tradicionais.

O documentário mostra que a pecuária extensiva sobre campo nativo, atividade histórica da região, vem perdendo espaço, apesar de ser reconhecida como uma prática capaz de produzir carne de alta qualidade e, ao mesmo tempo, conservar o bioma. Pesquisadores explicam que o manejo sustentável do gado em campos nativos ajuda a manter abertas as formações campestres, função antes exercida pela fauna silvestre, contribuindo para o equilíbrio ecológico.

Pampa: documentário expõe ameaças e aponta caminhos

A produção é resultado de uma expedição que percorreu cerca de 1.800 quilômetros por municípios do Pampa gaúcho

Fotos: OCF/Divulgação

Além da pecuária tradicional, o filme destaca alternativas econômicas já presentes no território, como a viticultura, a olivicultura e o uso sustentável da biodiversidade. Essas atividades, no entanto, enfrentam dificuldades estruturais, ausência de políticas públicas de incentivo e impactos provocados pela deriva de agrotóxicos, usados principalmente nas lavouras de soja.

Ricos em biodiversidade, os campos naturais do Pampa podem concentrar cerca de 60 espécies vegetais diferentes em apenas um metro quadrado, segundo especialistas ouvidos na produção. Essa formação milenar sustenta a fauna silvestre, mantém práticas culturais tradicionais e fornece alimento de alta qualidade para rebanhos criados a campo, resultando em carne considerada superior àquela produzida em sistemas intensivos de confinamento.

Dados do MapBiomas indicam que, entre 1985 e 2023, a porção brasileira do bioma Pampa perdeu 28% da sua vegetação nativa, o equivalente a 3,3 milhões de hectares — área maior do que a da Bélgica, que possui cerca de 3 milhões de hectares. Os campos naturais foram a vegetação mais afetada, com impactos diretos sobre serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação hídrica e o controle da erosão.

A expansão da soja, atualmente o principal produto agropecuário do Rio Grande do Sul em valor bruto de produção, superando arroz, leite, frango e bovinos, e o crescimento da silvicultura são apontados como os principais vetores dessa transformação.

Pampa: documentário expõe ameaças e aponta caminhos

O documentário mostra que a pecuária extensiva sobre campo nativo, atividade histórica da região, vem perdendo espaço, apesar de ser reconhecida como uma prática capaz de produzir carne de alta qualidade e, ao mesmo tempo, conservar o bioma

Fotos: OCF/Divulgação

Entre as alternativas destacadas pelo documentário estão o manejo sustentável do butiazal, formação associada à palmeira butiá, espécie ameaçada e símbolo cultural do Pampa, além da consolidação de uma economia rural baseada em alto valor agregado, conservação ambiental e identidade territorial.

Para o secretário-executivo do Observatório do Código Florestal, Marcelo Elvira, o bioma pode se tornar referência nacional. “O Rio Grande do Sul tem muito a ensinar ao país no que diz respeito a conjugar produção rural e conservação da biodiversidade. O Pampa é um bioma que permite uso econômico sustentável sem a necessidade de conversão de sua vegetação nativa, garantindo sustentabilidade para as futuras gerações”, afirma.

Com cerca de 25 minutos de duração, o filme será disponibilizado gratuitamente no canal do Observatório do Código Florestal no YouTube após o lançamento oficial.

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