Falsa falência do Banco do Brasil é alvo de investigação da PF

AGU aponta ação coordenada de disparo massivo de fake news em grupos do WhatsApp e Telegram para “aterrorizar a sociedade”; deputados do PL Eduardo Bolsonaro e Gustavo Gayer estão entre os citados

Falsa falência do Banco do Brasil é alvo de investigação da PF

Foto: Reprodução/YouTube

Mensagens como “tire seu dinheiro do Banco do Brasil”  e “brasileiros sacando seu dinheiro pelo risco Moraes/Dino” circularam em grupos de WhatsApp e Telegram durante toda a segunda quinzena de agosto, em vídeos, fotos e textos que simulavam um colapso e falsa falência do Banco do Brasil (BB). A ação coordenada se deu nas semanas que antecederam o julgamento do núcleo principal da tentativa de golpe de estado, e que tem o ex-presidente Jair Bolsonaro como réu. Desde segunda-feira, 25, o caso está sob investigação da Polícia Federal (PF).

A notícia-crime foi enviada pela Advocacia-Geral da União (AGU), a pedido da Procuradoria do Banco Central (BC), que apontou tentativa de “gerar caos no sistema financeiro nacional”. Segundo a AGU, houve uma “ação articulada de disparo massivo de publicações que buscam aterrorizar a sociedade”.

Um levantamento da empresa Palver, que monitora redes sociais, identificou a circulação de mensagens em mais de 100 mil grupos públicos no WhatsApp e 5 mil no Telegram. O cientista de dados Lucas Cividanes destacou que o tema ganhou força em agosto, impulsionado por conteúdos “alarmistas” sobre o futuro do banco.

Onda de desinformação e coincidências

A onda de desinformação coincidiu com a inclusão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na lista de sanções da Lei Magnitsky, nos Estados Unidos, em julho. A lei prevê congelamento de bens e restrições financeiras a estrangeiros acusados de violações de direitos humanos.

Como os ministros do STF recebem salários pelo BB, bolsonaristas passaram a difundir versões de que cartões de Moraes, vinculados a bandeiras internacionais, seriam cancelados, colocando em risco a estabilidade do banco. Reportagem do Valor Econômico, de 21 de agosto, informou que um cartão do ministro foi trocado por um Elo nacional — dado não confirmado oficialmente.

No dia 19 de agosto, o Banco do Brasil divulgou nota afirmando que atua “em conformidade com a legislação brasileira e os padrões internacionais do sistema financeiro”. A frase foi explorada em mensagens que defendiam saques imediatos, em reação à decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que proibiu aplicação no Brasil de leis estrangeiras não validadas por acordos internacionais.

Escalada e reação

Falsa falência do Banco do Brasil é alvo de investigação da PFFoto: Reprodução / Redes SociaisO movimento contra o BB começou em 14 de agosto, após divulgação de lucro líquido ajustado de R$ 3,8 bilhões no segundo trimestre, 60% menor que no mesmo período de 2024. O resultado foi atribuído ao aumento da inadimplência de famílias e do agronegócio, setor fortemente financiado pelo banco.

Nesse contexto, perfis de influenciadores e parlamentares, como o advogado Jeffrey Chiquini, passaram a sugerir a retirada de recursos da instituição. A AGU incluiu em sua denúncia postagens dele e de deputados como Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Gustavo Gayer (PL-GO).

Em nota, a AGU afirmou que tais condutas “fomentam corrida bancária e evidenciam intenção política de constranger o Judiciário”. O órgão defende investigação da autoria e materialidade dos fatos, que podem se relacionar a inquéritos em curso no Supremo.

Em vídeo publicado no You Tube, o deputado Eduardo Bolsonaro rebateu as acusações de que eu teria espalhado “fake news” envolvendo o Banco do Brasil e a aplicação da Lei Magnitsky em relação a Alexandre de Moraes.

Falsa falência do Banco do Brasil é alvo de investigação da PFFoto: Reprodução/ XO neto do ditador e o filho do réu do golpe 

O Extra Classe apurou que Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador General João Figueiredo, também fez postagens no X  (antigo Twitter) sobre a polêmica envolvendo o Banco do Brasil e em defesa de Eduardo Bolsonaro, que repostou.

“Se eu tivesse dinheiro lá (no Banco do Brasil), tirava”, postou Figueiredo.

Paulo encabeça com Eduardo, o lobby na Casa Branca pelo tarifaço de Trump para chantagear o STF e o país na tentativa de inocentar Jair Bolsonaro, que está sendo julgado por golpe de estado, conspiração para assassinatos de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, entre outros crimes.

O influenciador digital Paulo Figueiredo também é investigado pelo sistema de justiça dos Estados Unidos por participar de um esquema de especulação financeira ligado às sanções de Donald Trump contra o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. A chave do esquema foi um depósito de 140 mil dólares feito na conta de uma empresa de Figueiredo na Flórida. O autor da transferência – apontada como fraude pela justiça americana – é o magnata chinês Miles Guo, condenado por lavagem de dinheiro e organização criminosa nos EUA.

BB bloqueou conta de Bolsonaro nos EUA um mês antes

Falsa falência do Banco do Brasil é alvo de investigação da PFFoto: Reprodução/XOs disparos massivos começaram depois que o Banco do Brasil encerrou, em julho,  uma conta que Jair Bolsonaro mantinha nos Estados Unidos. Bolsonaro abriu a conta em dezembro, no BB Americas, braço do Banco do Brasil nos Estados Unidos. Nela, havia 135 mil dólares, que foram convertidos para reais e transferidos para outra conta do ex-presidente no Brasil.

Questionada sobre o que motivou o encerramento da conta no exterior, a empresa não entrou em detalhes: “Em respeito ao sigilo bancário, nem o Banco do Brasil nem o BB Americas comentam movimentações financeiras específicas de seus clientes”, diz nota.

Em junho, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o bloqueio de R$ 447 mil em uma conta de Bolsonaro no Brasil. A medida teve como objetivo garantir o pagamento de sete multas, que somam mais de R$ 1 milhão, aplicadas pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, por descumprimento de de normas sanitárias durante a pandemia de covid.

Mobilização em defesa do Banco do Brasil

No dia 22 de agosto, o Banco do Brasil repudiou “declarações enganosas” e prometeu medidas legais contra conteúdos falsos. Três dias depois, a AGU comunicou a abertura da notícia-crime.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou os ataques como uma “ação bolsonarista para estimular saques”. Bancários realizaram um ato em frente à sede do BB, na Avenida Paulista, no dia 27, com cartazes que diziam: “BB é bom para o Brasil” e “Defender o Banco do Brasil é defender a soberania nacional”.

“Queremos mostrar para a população que o BB respeita as leis brasileiras, não as dos EUA”, afirmou Ana Lúcia Ramos, secretária-geral da Federação dos Bancários.

Paralelo com a fake news do Pix

A crise foi comparada a um episódio de janeiro, quando notícias falsas sobre suposta taxação do Pix obrigaram o governo a revogar uma regra da Receita Federal. Na ocasião, a desinformação também gerou pânico sobre o sistema financeiro. Segundo Haddad, a pressão política contra o Pix atrasou medidas de fiscalização sobre fintechs, investigadas por movimentações ligadas ao crime organizado.

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