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Tanto o deputado Hugo Motta (Republicanos/PB) quanto o senador Davi Alcolumbre (União/AP) têm tornado explícito o incômodo com a expressão e hashtag #CongressoInimigoDoPovo
Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
A expressão “Congresso inimigo do povo” tem tirado o sono dos presidentes da Câmara e do Senado. Tanto o deputado Hugo Motta (Republicanos/PB) quanto o senador Davi Alcolumbre (União/AP) têm tornado explícito o incômodo — e já acionaram as polícias legislativas para investigar quais autoridades estariam “agredindo” o Parlamento.
“Logo mais, nós teremos, e vamos trazer a público, aqueles que fizeram aquelas agressões contra o ‘Congresso inimigo do povo’”, anunciou Alcolumbre na abertura dos trabalhos do Senado na semana passada. Segundo ele, declarações críticas — inclusive feitas por “autoridades da República” — estariam distorcendo o papel constitucional do Legislativo.
O movimento ocorre em meio a uma sucessão de episódios que ampliaram o desgaste do Parlamento e alimentaram a percepção de que, ao se proteger, a classe política age contra os interesses da população.

PEC da Bandidagem 2: o projeto que reduz penas dos réus condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro abre brechas para beneficiar outros criminosos condenados por: corrupção, organização criminosa, crimes ambientais e delitos contra a administração pública. Seria outra forma de os próprios deputados se blindarem
Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
A crise atual não surgiu do nada. Nos últimos meses, decisões controversas ajudaram a alimentar a rejeição pública. Entre elas, a tentativa da Câmara de aprovar a PEC da Blindagem — apelidada por movimentos sociais de PEC da Bandidagem. O texto buscava impedir processos judiciais contra parlamentares sem o aval dos próprios colegas e via voto secreto. A proposta, apesar da ampla maioria na Câmara, nem chegou a ser analisada pelo Senado, após forte pressão da opinião pública.
Em seguida, veio a denúncia de um possível “jabuti” no PL da Dosimetria. O projeto, apresentado como resposta legislativa às condenações pelos atos golpistas de 8 de janeiro, poderia — segundo a deputada Tábata Amaral (PSB/SP) — abrir brechas perigosas.
Para ela, manobras jurídicas permitiriam que crimes cometidos por réus primários e sem violência contra pessoa ou patrimônio tivessem penas reduzidas ao mínimo, incluindo corrupção, organização criminosa, crimes ambientais e delitos contra a administração pública.
“Toda vez que o Centrão apoia o bolsonarismo, tem alguma troca. O relatório da tal dosimetria, o Plano B de quem não conseguiu a anistia para Bolsonaro, tinha uma pegadinha. Não era restrito a quem vandalizou a Praça dos Três Poderes. Não se restringia ao que aconteceu no dia 8 de janeiro. A diminuição que estão trazendo para criminosos vale para quem cometeu crime antes e para quem cometerá depois”, denunciou Tábata.
Para o deputado Paulo Pimenta (PT/RS), o PL aprovado na madrugada desta quarta-feira, 10, “é um projeto que flerta com a impunidade e alimenta um momento de avanço de pautas reacionárias e perigosas para a democracia”. Ele desabafou sobre o contexto político: “Praticamente no mesmo dia em que o Senado aprova o Marco Temporal. É um ciclo delicado”.
A iniciativa de Alcolumbre em investigar a hashtag #CongressoInimigoDoPovo acendeu alertas entre especialistas. Para o advogado André Matheus, vice-presidente da Comissão de Lawfare da OAB/RJ, o movimento de Alcolumbre e Motta afronta garantias constitucionais.
“A crítica política integra o núcleo essencial da liberdade de expressão. Instituição não tem honra subjetiva. Não existe crime de ofensa ao Congresso”, afirma.
O advogado Lucas Mourão, especialista em mídia, reforça: “Transformar protesto pacífico e online em caso de polícia é incabível. O debate público pode incluir ataques veementes e desagradáveis às autoridades. É ônus de quem exerce poder viver sob crítica”.
Até o momento, Câmara e Senado não explicaram quais condutas estão sendo investigadas nem apresentaram justificativa jurídica para rastrear cidadãos por opiniões políticas em torno da hashtag #CongressoInimigoDoPovo.

Ao contrário do que ocorreu meses atrás — quando bolsonaristas ocuparam a Mesa Diretora e interromperam os trabalhos por 48 horas — a reação desta vez foi imediata e violenta
Foto: Reprodução/Facebook
A culminância do tensionamento ocorreu em 9 de dezembro, quando uma sessão da Câmara degenerou em um episódio sem precedentes desde a redemocratização. O deputado Glauber Braga (PSOL/RJ) sentou-se na cadeira da presidência para protestar contra sua inclusão na pauta de cassações de mandato, ao lado de Eduardo Bolsonaro (PL/SP) e Carla Zambelli (PL/SP).
Ao contrário do que ocorreu meses atrás — quando bolsonaristas ocuparam a Mesa Diretora e interromperam os trabalhos por 48 horas — a reação desta vez foi imediata e violenta. A TV Câmara teve sua transmissão interrompida, a segurança expulsou Glauber à força e jornalistas e assessores foram impedidos de registrar o ocorrido.
No tumulto, parlamentares e profissionais da imprensa foram agredidos. Há relatos de que o corte de sinal foi deliberado “para não ter documentação”.
Para a deputada Benedita da Silva (PT/RJ), o episódio foi um ato de autoritarismo que ultrapassou as competências dos envolvidos.
“O que nós vimos hoje foi uma coisa política, pura e simplesmente política”, afirmou. Segundo ela, Glauber a substituiu na presidência e deu sequência às breves comunicações. “Ele não parou nenhum momento e deu voz a todos os que estavam na lista. Então, qual foi o crime que ele cometeu para ser retirado com tanta brutalidade daquela mesa?”, questiona.
A deputada Erika Kokay (PT/DF) sintetiza: “A mão que afaga golpista é a mão que apedreja democratas. Tivemos 48 horas de plenário tomado pela extrema-direita sem reação. Agora que era só um deputado, espancaram”.
Após uma sequência de episódios tumultuados na Câmara dos Deputados, movimentos de esquerda convocam uma manifestação em São Paulo no próximo domingo, 14 de dezembro. O ato ocorre em resposta às votações de projetos controversos — como o PL da dosimetria — e à violência registrada contra jornalistas e parlamentares durante uma sessão marcada por tensão no plenário.
Entre os organizadores está o deputado estadual Guilherme Cortes (PSOL/SP), que afirma que o protesto terá como foco o repúdio às conduções políticas dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP). Cortes reforça o mote de que o país enfrenta um “Congresso inimigo do povo” e defende bandeiras como “sem anistia para golpistas”, “não ao marco temporal” e o fim da escala 6×1.
As chamadas para o ato vêm crescendo nas redes sociais, com apelos para que a população “ocupe as ruas” em defesa da democracia e dos direitos sociais.
A mobilização digital ganhou força ao longo da semana. Parlamentares, influenciadores, artistas e movimentos populares utilizaram plataformas como o X (antigo Twitter) para convocar o público. Hashtags e palavras de ordem como #CongressoInimigoDoPovo e “Todos às ruas!” têm sido replicadas por milhares de usuários, ampliando o alcance do protesto, que já se espalha por várias capitais. Em Porto Alegre já existe mobilização dos movimentos sociais para o ato Povo nas Ruas – Sem anistia, Sem Dosimentria e Nenhuma a Menos, no Parque Farroupilha (Arcos da Redenção) no dia 14, às 14 horas.
Em São Paulo, a concentração está marcada para as 14h, em frente ao Masp, na Avenida Paulista.
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