A outra obra de LFV

Cada artista ergue a Capela Sistina que pode. Michelângelo fez com estuque e tinta. LFV criou com tinta e papel

A outra obra de LFV

Arte: Rafael Sica

Admito: sou suspeito pra falar do LFV. Disso me orgulho. Pra chegar a essa suspeição, só eu sei o que passei e passeei com ele. Não foi fácil dar conta de tanta generosidade ao meu alcance. Para admirar LFV à sua altura tive que me reinventar como admirador, adotar inédito parâmetro de admiração. Conviver com o seu humanismo me humanizou uma barbaridade. Por conta disso tudo, de fã literário e amigo pessoal, virei puxa-saco público de LFV: sempre falei bem dele, fosse pela frente ou pelas costas. Nem precisava dizer o clichê ´que baita privilégio foi a gente ser amigos´, mas digo.

Ao acompanhar LFV vida afora, concluí o seguinte da arte: cada artista ergue a Capela Sistina que pode. No Renascimento, Michelângelo fez a sua com estuque e tinta. No renascer da crônica brasileira, Luis Fernando Verissimo criou a dele com tinta e papel. Como cronista antenadíssimo na realidade nacional, acabou sendo um upgrade da turma genial anterior a ele – os sabinos, os mendes campos, os rubens bragas e antonios marias.

Sei, vão achar que exagero. Mas nós, os puxa-sacos de LFV, somos incapazes de metáforas modestas. Se o autor nos arrebata em vida, arrebatados ficaremos na sua ausência impreenchível. Esqueçamos tijolos e pedras cobertos de afrescos no Vaticano; lembremos das montanhas de livros, montes de revistas e pilhas de jornais no Brasilzão, recobertos de humor. Lá e cá, obras monumentais.

Depois de mais de cinco décadas de convívio e intimidade, de leituras e parcerias, de assombro contínuo com sua incansável e incomparável produção, acumulei noção quase nunca salientada: a sua obra como formador de opinião, balizador da realidade brasileira. Qualquer brasileiro em dúvida sobre o que acontecia a um país de ditadores, uma nação socialmente injusta ou um Brasil confuso, corria a ler LFV. Era uma espécie de bússola em épocas sem norte.

Na leitura, invariavelmente encontrava clareza: na superfície, ironia e bom humor; nas entrelinhas ou subtextos, dedo nas feridas nacionais. Muito antes de haver youtubers já era um pioneiro influencer. Alguém que jamais pretendeu influenciar ninguém, mas influía a cada nova crônica. Com milhares de crônicas – estimo em mais de 10.000 textos – e mais de 80 títulos e 5,5 milhões de livros publicados, LFV se tornou o mais querido cronista do Brasil. A lista dos mais vendidos em tantas décadas não me deixa recordar sozinho.

Isso quer dizer que, pelo efeito prazeroso da sua bem-humorada escrita, criou hábitos arraigados de leitura desde crianças a idosos. Entre os vários autores da série Para Gostar de Ler, LFV merecia um volume Para se Encantar ao Ler. Se seus livros e suas colunas (diárias e semanais e artigos mensais em trocentos veículos) fossem somadas e multiplicadas pelo total de leitores, chegamos a uma hipótese espantosa: uns 60 ou mais milhões de leituras pelo povaréu. Enfim, não dá pra apontar quem não leu LFV.

Ao se valer de humor sutil e aguda inteligência sobre o comportamento do brasileiro ou sobre a realidade econômica, política e social do Brasil, LFV ´alfabetizou´ gerações. E passou a sensibilizar pelo riso e conscientizar pelos quatro cantos cardeais. A todos nós ensinou que temos que deixar muito claro de que lado estamos – mas mesmo com esse mestre da palavra, milhões de idiotas nada aprenderam com LFV.

Sua clareza e visão de um país às vezes incompreensível, noutras impossível de avaliar racionalmente, formaram leitores engajados, seduzidos e até viciados na graça veríssima. Adotado em escolas, foi didático sem nenhum didatismo, divertiu alunos dos grupos escolares às universidades, paraninfo de várias turmas e incontáveis passaram a escrever bem graças a LFV. Calcule a dimensão do benefício à língua portuguesa.

Luis Fernando Verissimo, como pessoa, foi popular: sempre acessível por onde andasse, reconhecido na rua, abraçado em feiras de livros, atração em eventos literários, premiado pela ética e dignidade, sucesso em programas de rádio e tv. Foi adorado por famosos e por desconhecidos, super lido aqui e no exterior, respeitado e admirado pela esquerda, estupidamente odiado pela direita e antagonizado pelo centrão.

Para mim, foi um dos raros homens que amei.

José Guaraci Fraga, o FRAGA é cronista do Jornal Extra Classe.

Exposição Caríssimo Verissimo

Fraga é o anfitrião da exposição Caríssimo Verissimo, que está em cartaz no Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS). A exposição nacional de caricaturas do escritor Luis Fernando Verissimo está em circulação pelo RS e reúne trabalhos de 92 artistas gráficos e visuais de diferentes estados do país. A mostra foi inaugurada na sexta-feira, 26, e ficará aberta à visitação até 5 de outubro, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h; e sábados e domingos, da 14h às 18h.

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