Porto Álacre

Por aí vocês podem imaginar a vida animada de Porto Alegre

Arte: Rafael Sica

Porto Alegre já foi melhor tratada. Mesmo antes de haver prefeituras, a cidade era bem provida por administradores públicos. Para garantir o bem-estar da população, eles importavam suprimentos do mundo inteiro. Pesquisei a fundo e encontrei provas factuais. Até merecem próclise: ei-las.

De Ruanda veio o conceito de ruas. Para proteger as casas, venezianas de Veneza e da Venezuela, e também persianas da Pérsia. No conforto doméstico, colchas chilenas de chenile. E faziam utensílios com argila da Argélia.

Para povoar áreas, chegaram moças de Moçambique, chinocas da China, albinos da Albânia e até palermas de Palermo. Pro entrudo, colombinas colombianas.

No vestuário porto-alegrense não faltavam japonas japonesas, casacos e casacões do Cazaquistão, taileurs tailandeses, túnicas da Tunísia, palas de Palau, polainas polonesas, botas de Botswana, chinelos chineses. Além de acessórios como botões do Butão, golas de Angola e moldes da Moldávia. Nos costumes, perucas peruanas e barba de Barbados. Vivia-se bem e bonito.

Naqueles tempos, aqui se comiam siris do Sri Lanka e camarões camaronenses, romã de Roma, mamão papaia de Papua, mondongo da Mongólia com malagueta de Málaga. A gurizada adorava goma de mascar de Madagascar. Já para beber, vieram os bares de Bahrein, onde vendiam pinga pura de Singapura, as cervejas Brahma das Bahamas e a Antártica ali da Argentina. Para os que evitavam álcool, caldo de cana doado pelo Canadá.

A saúde era uma prioridade: daí a malva das Malvinas e a trepanação da Ucrânia. Inclusive o sexo recebeu atenção, com libido da Líbia e do Líbano, hímen do Iêmen e cus do Kuwait.
Para aumentar a clientela das farmácias, importaram rouquidão do Marrocos e catarro do Catar. Até a autoestima ganhou apoio, com gana de Gana e gabolices do Gabão. E aos advogados sem causa, crimes da península da Criméia.

Bichos de estimação preferidos eram o cão afegão do Afeganistão e o hamster de Amsterdã.

Para a defesa urbana, espadas espanholas, armas armênias e granadas de Granada. E, por falta de militar graduado, tudo sob a guarda dum cabo verde de Cabo Verde.

As importações não pararam: dínamos dinamarqueses, bielas da Bielorrússia, muitas malas da Malásia, Mali, Malawi e Guatemala. E mais: coador do Equador, antenas de Atenas, canga pra carreta do Congo, macas jamaicanas, a ferramenta turquesa da Turquia, paraquedas paraguaios, guirlandas irlandesas, filipetas filipinas, tipoias da Etiópia, goma arábica da Arábia Saudita, pacotes do Paquistão, vassouras dos Açores, mata-moscas de Moscou e, acreditem, zig-zag de Leipzig.

Por aí vocês podem imaginar a vida animada de Porto Alegre. Muita coisa boa se foi, sobretudo a manutenção das bombas de Bombaim, que resultaram na enchente histórica de 2024. É isso que dá eleger uns bostas.

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