Crônica
Achacinato
Cláudio Castro escalou um elenco de 2.500 charles bronsons para protagonizar seu particular ‘Desejo de…

Arte: Rafael Sica
“Chega uma idade em que a única coisa que se pode aspirar é ser papa.” (Luis Fernando Verissimo)
Criança, eu não sabia de onde vinham os papas. Pra mim, o 1º papa tinha sido Matusalém. Depois vi que viveu 969 anos e morreu no Dilúvio (não o arroio).
Aí veio Cristo e não perdeu o trocadilho: “Pedro, és pedra e sobre ti erguerei minha igreja”. Pronto, tava escolhido o papa #1, sem a midiática pompa atual, quando o Vaticano parece uma Sapucaí religiosa.
Quantos papas? Conferi na bendita Wikipédia: nem o Vaticano sabe exato quantos papas já paparam o cargo. Lá, até o dos EUA, constam 267. Bom, não serei eu, ateu, que encherá o saco do leitor com trocentos papas.
Papas contemporâneos meus são oito. (Por enquanto nenhum conterrâneo, mas meu ceticismo é insuficiente pra duvidar que, mais dia menos dia, um brasileiro ou até um gaúcho vá sentar naquele trono espalhafatoso.).
De menino até eu ter papada, papas demais a me confundir a cronologia deles. Acho que no antanho eram menos papas por geração. Ou eram mais sadios e longevos ou o Vaticano faz contrato diferente pra cada um assinar a carteira de trabalho.
O mais remoto foi o sisudo Pio XII, que ficou 19 anos entronado. Tão tristonho parecia que não estranha ser hoje nome de funerária.
Depois veio o João XXIII, o oposto do Pio XII: jovial, simpático, sorridente. Diz a wiki que era aclamado como o Papa bom.
Comparado com Pio XII, era mesmo. Em 5 anos se destacou por renovar a Igreja com o Concílio Vaticano II. Ao promover a liberdade religiosa e valorizar o ecumenismo, incomodou os reaças com e sem batina. Não à toa foi canonizado e virou nome de cemitério.
O seguinte foi Paulo VI, com 15 anos para ampliar as aberturas criadas por João XXIII. A cara dele sugeria parentesco com Pio XII, mas era só parecença. Por não ser reaça e ter reaberto o Concílio Vaticano II, acabou canonizado.
Seu sucessor, João Paulo I, quase ninguém lembra: seu papado foi vapt-vupt, 33 dias. Ficou conhecido como o Papa Sorriso e foi beatificado sei lá por quê.
João Paulo II é o meu favorito, e nem cristão sou. Um papa longevo e popular, por 26 anos viajou pelo mundo, unindo povos e religiões. Também é beato.
A seguir, o papa nazistoide: Bento XVI, o Ratzinger, carranca insatisfeita com a vida e que teve a bondade de renunciar após 8 anos de má vontade com o mundo. Pra mim, ficou como Ranzinzer.
Papa Francisco. Nem é preciso loas: um hermano, gentil, aberto. Deixou saudades por ser devotado aos pobres. Um conciliador entre as nações, crítico do capitalismo e do neonacionalismo. Gracinha de papa.
Por fim, Leão XIV, dos EUA. Num mundo lotado de gente longeva, é um papa mais moço que a maioria dos fiéis. Pé atrás até esse americano mostrar a que veio.
Adolescente, eu ouvia “bula papal” e pensava: Que bula, se o cristianismo não tem remédio? Continuo cético: tá longe o dia em que o Vaticano vai eleger um papa sem papas na língua.
José Guaraci Fraga, o FRAGA é cronista do Jornal Extra Classe.