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Porto Alegre marcou presença nos protestos que ocorreram em várias capitais brasileiras
Foto: Anahi Fros/Agapan/Divulgação
Centenas de organizações e movimentos sociais e ambientais saíram às ruas neste domingo, 1º de junho, em diversas cidades do Brasil, para participar dos protestos contra o Projeto de Lei 2159/2021, apelidado por ambientalistas de “PL da Devastação”. Em São Paulo, o ato na Avenida Paulista contou com o apoio de mais de 80 entidades. Na capital gaúcha, o Ato ocorreu no Parque da Redenção, em frente ao Monumento ao Expedicionário, reunindo mais de 500 ativistas de 60 entidades ambientalistas, lideranças políticas e representantes da sociedade civil.

Cerca de 500 pessoas e representantes de mais de 60 entidades protestaram no em frente ao monumento do Expedicionário (Arco da Redenção)
Foto: Movimento Pró Gestão Democrática Socioambiental Climática
As mobilizações ocorreram em cerca de 40 cidades, passando por mais de 15 capitais: Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Teresina, João Pessoa, Belém, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Goiânia, Rio Branco, Vitória, Aracajú, Natal, Recife. Houve adesão e de outras cidades e territórios como Santarém (PÁ), Jundiaí (SP), Santos (SP), Alto Paraíso (GO), Uberlândia (MG), Ouro Preto (MG), São Carlos (SP), Foz do Iguaçu (PR), Ubatuba (SP), Sorocaba (SP), Tira-dentes (MG), Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP), Bauru (SP), Botucatu (SP), Pindamonhangaba (SP), São Sebastião (SP).
O projeto, que trata de um novo marco legal para o licenciamento ambiental, foi aprovado no Senado com 54 votos favoráveis e 13 contrários. Como sofreu alterações, retorna agora à Câmara dos Deputados para nova votação.
O texto aprovado dispensa o licenciamento em casos considerados de baixo risco ambiental, soberania nacional ou calamidade pública, além de isentar empreendimentos agropecuários voltados à pecuária e cultivo de interesse agrícola, mesmo em suas formas intensivas de pequeno porte.
Para ambientalistas e entidades da sociedade civil, trata-se do maior retrocesso ambiental da história recente do país. O projeto é criticado também pelo governo federal. “O governo tem uma série de dificuldades em relação a uma base segura de sustentação. E isso varia para cada tema. Não é a primeira vez que a gente sofre alguma dessas derrotas, inclusive em agendas que são igualmente estratégicas, mas vamos continuar dialogando o tempo todo com o Congresso”, declarou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
Já a relatora do projeto, a senadora Tereza Cristina (PP-MS), defendeu a proposta: “A proposta não enfraquece o licenciamento ambiental, muito pelo contrário. Ela reafirma o compromisso com o rigor técnico, exige estudos de impacto ambiental, audiências públicas e avaliações trifásicas para grandes obras. E até dobra a pena para quem desrespeitar a legislação”, afirmou, destacando que o país possui mais de 27 mil normas ambientais em vigor.
Os protestos deste domingo também miraram a pressão sobre os deputados para que rejeitem o projeto, apelidado por opositores de “mãe de todas as boiadas” — uma referência à fala do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que afirmou que era preciso “passar a boiada” nas regras ambientais durante a pandemia da covid-19.
A crítica foi reforçada pelo ativista e arquiteto Marco Martins, da Rede Sustentabilidade de São Paulo: “A gente está chamando ele de ‘mãe de todas as boiadas’ porque é um libera geral, permitindo o autolicenciamento, principalmente dos empreendedores, numa modalidade em que o próprio empreendedor vai dizer se tem impacto e qual é o risco. Com esse PL, não vamos pedir mais nenhuma contrapartida e não se analisará o impacto, por exemplo, nas comunidades indígenas e nas unidades de conservação. Então ele realmente desestrutura, impede completamente que se faça a fiscalização ambiental.”
Martins também alertou que o PL compromete metas ambientais assumidas pelo Brasil em acordos internacionais. “A gente derrubou o desmatamento em mais de 42% no ano passado, mas esse PL inviabiliza completamente isso, além de inviabilizar as metas do Brasil, as chamadas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada)”, afirmou. Para ele, o afrouxamento das regras ambientais pode inviabilizar também o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
“Esse PL vai afetar a economia, a agricultura, o preço dos nossos alimentos e vai afetar a nossa vida com ondas de calor intenso e com chuvas cada vez mais frequentes”, acrescenta.

Em São Paulo, protestos ocorreram na Avenida Paulista
Porto Alegre: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil
“Não é à toa que foi apelidado de PL da Devastação. Ele abre a porteira para uma série de projetos de degradação do meio ambiente. Ele já começa destruindo e fragilizando um dos principais instrumentos de preservação, que é o Sistema Nacional de Meio Ambiente e a Política Nacional de Meio Ambiente. Em outras palavras, as normas de licenciamento ambiental e sua fiscalização”, explica Rosa Rosado, do Fórum de Educação Ambiental de Porto Alegre (Feapoa), que integra o Movimento Pró-Gestão Democrática Socioambiental pelo Clima. Ela faz parte da articulação dos protestos do domingo.
Segundo Rosa, a partir da flexibilização da norma e com o autolicenciamento, situações como a de Brumadinho podem voltar a acontecer em maior escala.
“Por exemplo, aqui em Porto Alegre, trazendo um exemplo mais nosso, regional, se a gente não tivesse feito audiências públicas, não tivesse feito a mobilização que foi feita a partir da tentativa de licenciamento ambiental da Mina Guaíba, o projeto não teria sido barrado. Imagina como seria a situação com tudo o que a gente vivenciou aqui na enchente. A gente teria uma situação muito pior ainda do que a que vivenciamos”.
“As questões de licenciamento são vistas como ferramentas burocráticas, mas, na verdade, é só através dessas ferramentas que a gente pode garantir minimamente que haja alguma forma de controle social na questão da degradação ambiental”, argumenta.
Segundo ela, as audiências públicas são a etapa crucial para a participação da população nos processos de licenciamento, para que a população saiba o que está acontecendo, tenha as informações necessárias para entrar no processo de decisão e, com as mudanças, deixa de ser um processo democrático”, conclui.
Na semana passada, a Oxfam Brasil também se posicionou contra a proposta, chamando-a de um “grave retrocesso” que enfraquece a participação social, os direitos dos povos indígenas e a proteção de comunidades vulneráveis.
“A flexibilização ignora as desigualdades estruturais do Brasil e favorece a expulsão de comunidades de seus territórios para dar lugar a empreendimentos predatórios. Isso significa mais deslocamentos climáticos, mais insegurança alimentar e menos condições de vida digna para os mais pobres”, afirmou a organização.
Para a Oxfam, “sem licenciamento ambiental forte, as principais vítimas já têm cor, CEP e nome. O Brasil precisa de políticas que protejam as pessoas e o meio ambiente, combatam o racismo ambiental e garantam a permanência digna das comunidades em seus territórios. Licenciamento ambiental não é obstáculo, é proteção. É direito.”
As manifestações também ecoaram as vozes dos povos indígenas, que estão entre os mais ameaçados pelo projeto. Werá Mirim, do povo Guarani Mbya, afirmou: “A proposta vai causar muitos impactos não só para os povos originários, mas para todos que lutam pela causa e que protegem a natureza e os animais.”
“Esse PL facilita a entrada dos invasores e acaba com o planeta, porque acaba com a floresta e polui os rios. E afeta todos nós e todos aqueles que respiram o ar puro. E também afeta nosso futuro e as futuras gerações como nossos filhos e nossas crianças”, alertou Werá.
Em São Paulo, o “artivista” Ivan Munz levou ao ato um triciclo customizado com mensagens contra o PL e o maltrato animal. “Quanto mais boi, maior será o desmatamento e também os efeitos das mudanças climáticas”, afirmou.
Durante os protestos, manifestantes também prestaram solidariedade à ministra Marina Silva, que foi alvo de ofensas durante uma audiência no Senado. “Estamos aqui em defesa da ministra, dos órgãos de licenciamento e dos órgãos que são duramente atacados pelos congressistas, como o Ibama e o ICMBio”, reforçou Marco Martins.
Em Porto Alegre, o próximo ato do movimento será realizado na quinta-feira, 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, com uma vigília silenciosa na Praça da Matriz, em Porto Alegre. Ativistas levarão cartazes com as principais pautas ambientais, reforçando a pressão contra o projeto e em defesa do meio ambiente e dos povos do Brasil.
As mais de 60 entidades que participaram do ato em Porto Alegre emitiram nota. Leia na íntegra:
Porto Alegre na luta contra o PL da Devastação!
A cidade de Porto Alegre, representada por seus ativistas, militantes socioambientais, movimentos populares e coletivos em defesa do meio ambiente, declara sua firme adesão à mobilização nacional contra o Projeto de Lei 2159/2021. Este PL representa uma grave ameaça ao meio ambiente brasileiro, ao flexibilizar o licenciamento ambiental, facilitar a destruição de ecossistemas e colocar em risco áreas sensíveis como o Delta do Jacuí, os banhados, as matas ciliares e as comunidades tradicionais que protegem e vivem desses territórios.
Por isso, reforçamos a urgência de seguirmos pressionando o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e todos os parlamentares, do Rio Grande do Sul e de todo o Brasil, para que rejeitem essa proposta e lutem pelo seu arquivamento imediato!
Seguimos firmes em luta e em marcha, rumo a mais um grande Ato Nacional Unificado com a Marcha pelo Clima no próximo dia 7 de junho mobilizando Porto Alegre, o Rio Grande do Sul e todo o Brasil em defesa da vida, dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, da natureza e dos direitos das presentes e futuras gerações!
Não ao PL da Devastação! Arquivamento já!