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Só este ano, o Nupve/MP-RS contabilizou eventos em 196 escolas: 85 estaduais, 88 municipais e 22 particulares
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
A adultização de crianças e a radicalização de jovens no ambiente on-line são realidades cotidianas no Rio Grande do Sul. O alerta é do procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve/MP-RS), que sustenta: a radicalização juvenil é consequência — e não causa — de problemas sociais e familiares prévios, como violência doméstica, pobreza, desestrutura familiar, bullying, isolamento, baixa autoestima e falta de propósito.
A recente mobilização nacional sobre a adultização infantil nas redes sociais, impulsionada por denúncia do youtuber Felca, expôs um problema que o Nupve também acompanha rotineiramente. “Não se trata apenas de pular etapas da infância, mas de expor crianças e adolescentes a predadores, especialmente no ambiente virtual”, adverte o procurador. Segundo ele, redes transnacionais violentas atuam no aliciamento, exploração sexual, sextorsão e até na radicalização de menores — situações enfrentadas diariamente pelo Ministério Público gaúcho.
De 2024 até agosto de 2025, o núcleo monitorou mais de 420 casos de violência extrema nas redes, muitos deles graves, envolvendo adolescentes em mais de 100 municípios gaúchos. Só este ano, o Nupve contabilizou eventos em 196 escolas: 85 estaduais, 88 municipais e 22 particulares.

Fábio Costa Pereira, coordenador do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve/MP-RS)
Foto: MP-RS/Divulgação
Para Pereira, o isolamento, o bullying, a fragilidade dos vínculos familiares e a ausência de sentido de vida são gatilhos que tornam jovens mais suscetíveis ao recrutamento por grupos extremistas na internet.
EC – Sobre a adultização infantil, como o Nupve vê esse risco?
Fábio – Quando se fala em adultização infantil, não se trata apenas de “pular” etapas da infância. Envolve também expor crianças e adolescentes como alvos de predadores, principalmente no ambiente on-line. No trabalho do Nupve, observamos diariamente redes transnacionais violentas atuando no aliciamento, na exploração sexual, na sextorsão e até na radicalização de crianças e adolescentes. Essas redes são muito organizadas e utilizam jogos, plataformas sociais e aplicativos de bate-papo para se aproximar e conquistar a confiança das vítimas. Por isso, é fundamental que pais e cuidadores sejam mais presentes e informados sobre a vida digital de seus filhos.
EC – Quais são os principais fatores sociais que antecedem a radicalização?
Fábio – A falta de supervisão e de limites no uso das telas, associada à substituição das relações reais pelas virtuais, é determinante. Famílias e sociedade ainda não compreendem plenamente o risco de permitir que crianças e adolescentes vivam no mundo digital sem acompanhamento.
EC – Quantos casos o Nupve acompanhou e em quantos havia sinais prévios?
Fábio – Em 2024, atuamos em 158 eventos — 41 deles graves — em 77 municípios e 111 escolas. Em 2025, já são 263 casos, em 94 municípios e 196 escolas. Em todos, identificamos sinais de sofrimento social, emocional e psíquico.
EC – Quais sinais mais frequentes indicam risco?
Fábio – O isolamento social é o mais evidente. Jovens que abandonam amizades e a convivência presencial para viver apenas no mundo virtual estão, muitas vezes, gritando e clamando por socorro.
EC – Qual é o papel das redes sociais nesse processo?
Fábio – Plataformas como TikTok, Instagram e X usam algoritmos que atraem jovens com conteúdos aparentemente inofensivos e, depois, os direcionam para grupos fechados, onde encontram pares e, gradualmente, se radicalizam. O processo costuma funcionar assim: após uma abordagem inicial, as possíveis vítimas são conduzidas a comunidades privadas por meio de links que dão acesso a grupos em plataformas de doutrinação. Nesse ambiente, os jovens encontram outros como eles, reconhecem-se como “outsiders” e passam a radicalizar e a serem radicalizados.
EC – Existe um “caminho natural” até as ideologias extremistas?
Fábio – Sim. Redes sociais e jogos on-line funcionam como iscas para jovens em busca de pertencimento. A “moeda de troca” para ingressar nesses grupos é a dor e o sofrimento. Bullying, famílias disfuncionais e uso excessivo de telas são padrões recorrentes, e o resultado disso é a radicalização.
EC – Como ocorre o monitoramento?
Fábio – Por se tratar de procedimento investigativo, não comentamos detalhes.
EC – O que diferencia a prevenção da repressão?
Fábio – O Nupve atua tanto no plano operacional — identificando, avaliando, intervindo e acompanhando até o desengajamento — quanto no estratégico, com o Projeto Sinais, que permite reconhecer precocemente os primeiros indícios de radicalização. Em casos mais graves, além de acionar a rede de apoio, ajuizamos mandados de busca e apreensão de equipamentos eletrônicos e pedidos de internação e prisão. Todos os casos graves são monitorados permanentemente pelo Núcleo.
EC – Qual é o papel da família e da escola?
Fábio – Ambos precisam estar atentos ao que crianças e jovens consomem e com quem interagem na internet. Lançamos o Guia do Projeto Sinais, do MPRS, com orientações práticas. É necessário conscientizar toda a sociedade sobre os malefícios do uso indiscriminado das telas. Tanto a escola quanto a família devem acompanhar de perto os conteúdos acessados e as amizades cultivadas no ambiente digital.
EC – Qual o resultado quando a rede de atenção é ativada a tempo?
Fábio – O reflexo direto é a proteção integral de crianças e adolescentes, impedindo que ingressem ou prossigam no longo e tortuoso caminho da radicalização.
EC – Qual foi a proporção de medidas desse tipo nos últimos tempos?
Fábio – Em 2024, o Nupve atuou em 158 casos e, em 2025, já são 263 (até o início de agosto). Todos, sejam graves ou não, permanecem sob monitoramento constante.
EC – No conjunto dos casos, qual proporção resultou em medidas como internação, prisões ou intervenções socioeducativas?
Fábio – Só em 2025, já cumprimos 28 mandados de busca e apreensão, realizamos seis internações de adolescentes e uma prisão. Também produzimos 15 relatórios técnicos compartilhados com outros órgãos públicos e unidades da federação.
EC – O modelo pode ser replicado em outros estados?
Fábio – Sim. O mundo digital não tem limites nem fronteiras. Embora monitoremos casos ocorridos no RS, há constante troca de informações com órgãos e instituições de outros estados, visando prevenir possíveis atos violentos extremos. Nesses casos, elaboramos relatórios técnicos encaminhados ao Núcleo de Inteligência do MP/RS, que os difunde para outros Ministérios Públicos. A reprodução das atividades do Nupve é de fácil implementação, e compartilhamos metodologia e materiais sempre que um novo núcleo é instituído.
EC – Que políticas públicas são prioritárias para limitar a radicalização?
Fábio – O primeiro passo é familiar: limitar o tempo de tela, supervisionar conteúdo e amizades digitais. Em seguida, é preciso ampliar a cultura da prevenção.
EC – Como a sociedade civil pode colaborar?
Fábio – Disseminando a cultura da prevenção em escolas, universidades e outros espaços. Estar em casa não significa estar seguro: não há mais barreiras linguísticas ou geográficas, e a tela do computador é um portal para outras culturas, subculturas e conteúdos impróprios. O jovem pode estar fisicamente em casa, mas sua mente em outro lugar. Pais e responsáveis precisam monitorar e regular o que seus filhos consomem na internet.
EC – O que significa que “o ódio interno precisa de um nome”?
Fábio – A resposta, embora simples, não é fácil. Adolescentes buscam pertencer a um grupo ou comunidade. Quando não conseguem isso no mundo real, recorrem ao digital para encontrar o que sentem lhes ter sido negado. Qual a alternativa? Oferecer possibilidades e interesses reais para que o ambiente virtual não seja seu único refúgio.
EC – Há algo mais a destacar?
Fábio – O Projeto Sinais tem metodologia simples, baixo custo, resultados concretos e aposta na proximidade: quem está perto do adolescente é o primeiro a perceber os sinais.
O Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul (Nupve/MP-RS) foi criado em 2024, com o objetivo de prevenir a radicalização juvenil e evitar ataques. O núcleo surgiu como resposta a um aumento de ameaças de ataques em escolas e outros locais, e já atuou em diversos casos, incluindo a neutralização de ameaças e a prisão de suspeitos previamente a ações em fase de planejamento. Baixe o guia e prevenção. Para entrar em contato com o Nupve/MP-RS: [email protected]