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Gaza enfrenta catástrofe humanitária e precisa de ajuda urgente
Médicos Sem Fronteiras alerta para risco de colapso da assistência após restrições impostas por Israel…
Uma

Kareem, 8 anos, é amparado pelo pai, Ahmed, cirurgião do MSF, após ser ferido em um ataque aéreo à sua casa na cidade de Gaza, em 27 de junho
Foto: Nour Alsaqqa/MSF
pesquisa inédita realizada pelo Epicentre — centro de epidemiologia ligado a Médicos Sem Fronteiras (MSF) — apontou taxas alarmantes de mortalidade entre crianças palestinas na Faixa de Gaza desde o início da ofensiva militar de Israel, em 7 de outubro de 2023. O estudo, que abrangeu 2.523 profissionais da MSF e seus familiares, revelou que a taxa de mortalidade infantil chegou a ser dez vezes maior do que os índices anteriores à guerra.
De acordo com os dados coletados entre outubro de 2023 e março de 2025, mais de 2% das pessoas pesquisadas morreram, sendo três quartos desses óbitos causados por ferimentos de guerra — a maioria por explosões. Entre os mortos, 48% eram crianças, das quais 40% tinham menos de 10 anos. “As crianças de Gaza estão sendo dizimadas”, afirmou Amande Bazerolle, coordenadora-adjunta da equipe de emergência da MSF.
A taxa geral de mortalidade encontrada foi de 0,41 morte a cada 10 mil habitantes por dia. Para crianças menores de 5 anos, esse número chegou a 0,7. O levantamento indicou ainda que 20% das famílias de profissionais da MSF tiveram pelo menos um membro ferido por explosão ou disparo.
Os pesquisadores alertam que, mesmo considerando que profissionais de saúde possam ter acesso facilitado a cuidados médicos, a pesquisa revela um cenário de extrema vulnerabilidade. Segundo o estudo, dois terços dos pacientes com doenças crônicas relataram interrupções no tratamento. “Esse é o resultado da campanha israelense para destruir o sistema de saúde e os meios de subsistência da população em Gaza”, declarou a MSF.
A destruição da infraestrutura atinge também os lares: apenas 2% das casas dos profissionais de MSF permanecem intactas. O levantamento aponta que 59% tiveram as residências completamente destruídas, 39% sofreram danos parciais e 41% vivem em tendas.
O coordenador do estudo, Wendelin Moser, ressaltou que os dados reforçam a confiabilidade das estatísticas divulgadas pelo Ministério da Saúde de Gaza. Segundo ele, a comparação entre os nomes das vítimas registradas pela MSF e os números do ministério apontou uma correspondência de quase 90%.
O último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde de Gaza, em 25 de junho de 2025, contabilizava 56.156 palestinos mortos e outros 32.239 feridos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também alerta que mais de 10 mil pessoas necessitam urgentemente de evacuação médica.
Diante desse cenário, a MSF reforçou o apelo às autoridades israelenses pelo fim do bloqueio a Gaza e pela suspensão imediata das hostilidades. A organização pediu ainda a abertura de corredores humanitários e apoio internacional para a remoção de pacientes em estado crítico, sobretudo crianças.
Equipes dos Médicos Sem Fronteiras estão testemunhando um aumento significativo e sem precedentes de casos de desnutrição aguda entre a população de Gaza, na Palestina. Na clínica de Al-Mawasi, no sul do território, e na clínica de MSF na Cidade de Gaza, no Norte, registramos o maior número de quadros de desnutrição já atendidos por nossas equipes na Faixa de Gaza. É necessário permitir urgentemente a entrada contínua de alimentos e suprimentos médicos.
Atualmente, mais de 700 mulheres grávidas e lactantes e quase 500 crianças com desnutrição grave e moderada estão inscritas nos centros de nutrição terapêutica ambulatorial nessas duas instalações de saúde.
O número de pacientes admitidos na clínica de MSF na Cidade de Gaza quase quadruplicou em menos de dois meses, passando de 293 casos em maio para 983 casos no início de julho. Deste último índice, 326 são crianças entre seis e 23 meses de vida.
“É a primeira vez que testemunhamos uma prevalência tão grave de casos de desnutrição em Gaza”, afirma Mohammed Abu Mughaisib, coordenador médico adjunto de MSF em Gaza. “A fome da população de Gaza é intencional e poderia acabar amanhã se as autoridades israelenses permitissem a entrada de alimentos em escala suficiente.”
O medo de agressões diárias, cometidas por colonos israelenses e pelas forças armadas de Israel, tem afetado profundamente a saúde física e mental dos palestinos da Cisjordânia, especialmente na região rural de Masafer Yatta, ao sul de Hebron. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), os riscos de deslocamento forçado, os ataques e até mortes têm se tornado uma constante.
“As práticas e políticas do governo de Israel para anexar a Cisjordânia estão afetando a saúde dos nossos pacientes. Os ataques de colonos, muitas vezes acompanhados pelo exército, ocorrem quase diariamente e estão cada vez mais violentos”, afirmou Frederieke Van Dongen, coordenadora de assuntos humanitários de MSF em Hebron. Segundo ela, algumas aldeias já tiveram até 85% das casas demolidas.
Nos últimos meses, moradores relataram espancamentos, destruição de plantações, bloqueios de estradas, demolições de casas e uma permanente pressão psicológica. Em maio, um ataque de colonos à comunidade de Jinba deixou feridos, lavouras destruídas e agravou o temor de que a paz se torne inviável.
“Bateram na cabeça de um idoso, que precisou levar mais de 15 pontos. Um outro homem sofreu um trauma psicológico grave e ficou duas semanas na UTI”, contou Ali Al Jabreen, morador de Jinba. Outro residente, Qusay Al-Amour, relatou ter sido espancado junto com o pai e o irmão: “Eles voltaram à noite e destruíram nosso abrigo, a clínica e a mesquita. Meu pai ficou em estado crítico. Ficamos cercados por mais de uma hora antes que a ambulância pudesse chegar.”
A violência também tem afetado crianças, expostas a agressões, intimidações e à constante presença militar, resultando em traumas, pesadelos e dificuldades escolares.
Segundo MSF, 94% das admissões em suas clínicas em Hebron em junho de 2025 tiveram relação com ataques violentos. As equipes atuam em vilarejos oferecendo cuidados médicos e apoio psicológico, inclusive para famílias deslocadas pela violência. No entanto, o acesso às comunidades tem sido dificultado pelos postos militares, ataques e pela recente guerra de 12 dias entre Israel e Irã.
“A constante ameaça de violência faz as pessoas reviverem cenários de terror em suas cabeças: se conseguirão proteger suas famílias ou se serão forçadas a fugir”, afirmou Van Dongen.
MSF denuncia que o aumento dos ataques se insere em uma política sistemática de deslocamento forçado e anexação. “Israel, como potência ocupante, tem obrigação de proteger a população palestina. Mas as forças armadas não apenas falham em conter a violência como frequentemente permitem — ou participam — dos ataques”, declarou a organização, que cobrou ação da comunidade internacional.
Kareem, 8 anos, é amparado pelo pai, Ahmed, cirurgião de MSF, após ser ferido em um ataque aéreo à sua casa na cidade de Gaza, em 27/06. @ Nour Alsaqqa/MSF