Igrejas evangélicas de garagem proliferam nas periferias

Pesquisador do IFCH da Unicamp, Jefferson Arantes classificou essas igrejas como “autônomas de periferia” e denominou o movimento como “pentecostalismo marginal autônomo"

Igrejas evangélicas de garagem proliferam nas periferias

Foto: Antônio Scarpinetti/Unicamp/Divulgação

O número de brasileiros que se declaram evangélicos, mas sem vínculos com igrejas tradicionais, cresceu de forma vertiginosa nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, entre 2010 e 2020, esse grupo teve um aumento de 466%.

O fenômeno se concentra, especialmente, nas periferias urbanas e está relacionado à proliferação de igrejas autônomas fundadas por iniciativa individual, muitas vezes sem qualquer ligação com instituições religiosas consolidadas.

Conhecidas popularmente como “igrejas de garagem”, essas congregações geralmente surgem a partir da ação de moradores locais, frequentemente com experiência anterior como pastores ou líderes religiosos. Quando insatisfeitos com suas igrejas de origem, eles assumem uma posição dissidente e fundam suas próprias instituições, muitas vezes no quintal de casa ou em espaços improvisados.

Pentencostais, marginais e autônomas

Igrejas evangélicas de garagem proliferam nas periferias

Jefferson Arantes, sociólogo do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp

Foto: Unicamp/Divulgação

Esse fenômeno foi o foco da dissertação de mestrado do sociólogo Jefferson Arantes, realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Em sua pesquisa, ele classificou essas igrejas como “autônomas de periferia” e denominou o movimento como “pentecostalismo marginal autônomo”.

O estudo teve como centro a trajetória dos fundadores dessas igrejas — em sua maioria, trabalhadores precarizados que enxergam na criação de uma igreja não apenas uma missão religiosa, mas também uma oportunidade de ascensão social e melhoria de vida. Arantes investigou os motivos que os levam a fundar igrejas independentes, ao invés de se unirem a denominações já existentes, e também examinou a influência da lógica neoliberal e da cultura do empreendedorismo sobre essas iniciativas.

“A pesquisa busca compreender essas novas expressões do campo evangélico fora do enquadramento tradicional pentecostal ou neopentecostal”, afirmou Arantes. Ele destaca que, embora frequentemente classificadas como neopentecostais, essas igrejas apresentam características distintas, o que exige uma nova abordagem conceitual.

Sob orientação do sociólogo Sávio Cavalcante, especialista em sociologia do trabalho e das desigualdades, Arantes percorreu cinco bairros periféricos de Campinas (SP) — Parque Oziel, Monte Cristo, Gleba-B, Sítio Paraíso e Jardim do Lago II —, onde catalogou 60 igrejas autônomas. A etnografia incluiu entrevistas com dez líderes religiosos, participação em cultos, festas e acompanhamento da rotina pastoral.

A pesquisa revelou que a maioria dos fundadores não vem de famílias evangélicas e se converteu em algum momento da vida. Todos relataram ter recebido um “chamado divino” não apenas para a fé, mas para o exercício da liderança espiritual. Muitos afirmaram que, apesar do conhecimento religioso, não eram reconhecidos como pastores em suas igrejas anteriores, o que os levou a criar suas próprias instituições.

As histórias de vida desses pastores autônomos revelam trajetórias profissionais instáveis, geralmente ligadas a atividades manuais de baixa remuneração. Com o avanço da precarização do trabalho a partir dos anos 1990, a fundação de uma igreja tornou-se, para muitos, uma forma de buscar estabilidade. “Todos sonham em viver exclusivamente da atividade religiosa, mas, entre os entrevistados, apenas dois conseguiram alcançar esse objetivo”, relata Arantes.

A figura do pastor nas periferias goza de alto prestígio, mesmo entre não religiosos. Para muitos, a igreja representa não apenas um espaço de culto, mas também uma rede de apoio social e material. Em igrejas lideradas por mulheres, o sociólogo identificou redes femininas de solidariedade voltadas para o cuidado com os filhos e a troca de alimentos e recursos.

O estudo também destacou o crescente interesse das grandes igrejas por esse segmento. Com a estimativa de que cerca de 30% dos evangélicos atuais não tenham filiação institucional definida, denominações consolidadas têm promovido eventos para atrair igrejas autônomas. Em Brasília, há propostas em discussão para a criação de uma secretaria voltada ao diálogo com essas igrejas independentes.

A dissertação de Arantes contribui para uma nova leitura do campo religioso brasileiro, ao evidenciar como transformações sociais e econômicas se cruzam com a emergência de formas inovadoras de vivência evangélica nas margens urbanas do país.

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