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Após 38 dias de uma internação turbulenta, foi como uma brisa a passagem do Ventania de Deus. Um dia após desejar aos fiéis do mundo inteiro uma Boa Páscoa e com esforço dar a sua benção Urbi et Orbi – à cidade (Roma) e a todo o universo –, morreu Jorge Mário Bergoglio, o Papa Francisco. Foi nas primeiras horas desta segunda-feira, 21, na Itália, madrugada no Brasil.
Em um breve comunicado, Kevin Farrel, o Cardeal Camerlengo, aquele que assume o governo da Igreja e do Vaticano até a eleição de um novo Papa lamentou:
“Queridos irmãos e irmãs, é com profunda tristeza que comunico a morte do nosso Santo Padre Francisco. Às 7h35 desta manhã, o Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da Sua Igreja”.
O Camerlengo, também responsável pelo ritos de certificação do falecimento do Pontífice, preparação do funeral, organização e convocação do Conclave continuou:
“Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados”.
O religioso diz que, apesar de muitos pensarem que a Páscoa se resume ao Domingo da Ressurreição, ela é, na verdade, um período litúrgico que se inicia no Domingo de Páscoa e se estende por várias semanas.
Nesse contexto, afirma: “Francisco viveu hoje, essa madrugada, a sua Páscoa. O seu encontro com Deus.”
Jorge Mário Bergoglio nasceu no bairro de Flores, Buenos Aires, em uma família de imigrantes italianos.
Torcedor fanático do San Lorenzo, time fundado por um padre no início do século 20, Bergoglio teve uma juventude comum, saindo com amigos e dançando tango – paixão que o acompanharia por toda a vida.
Aos 20 anos, enfrentou um problema de saúde que resultou na remoção de parte de um pulmão.
Formou-se como técnico químico, mas logo abraçou o sacerdócio, ingressando na Companhia de Jesus (Jesuítas), ordem conhecida por sua disciplina e austeridade.
Ele foi ordenado padre em 1969, próximo de completar 33 anos de idade e, aos 36, já comandava a ordem jesuíta na Argentina.
Um dos capítulos mais polêmicos de sua biografia ocorreu durante a ditadura militar argentina (1976-1983). Acusado de ter se aproximado do almirante Emílio Massera, um dos líderes da repressão, Bergoglio foi alvo de críticas por supostamente ter delatado dois confrades – Orlando Yorio e Francisco Jalics.
O então provincial, preocupado com que os integrantes de sua ordem entrassem na mira da ditadura, teria aconselhado a redução dos trabalhos sociais engajados, que foi marca dos jesuítas pós Concílio Vaticano II.
Yorio e Jalics mantiveram-se firmes e acabaram sequestrados e torturados pelos militares argentinos. Anos depois, Jalics isentou Bergoglio de culpa, mas o episódio permaneceu como uma sombra em sua trajetória.
Após o regime militar, Bergoglio dedicou-se ao trabalho pastoral nas favelas de Buenos Aires. Durante a crise econômica de 2001, criou uma rede de refeitórios populares para combater a fome e consolidou sua imagem como defensor dos pobres.
Seu crescente prestígio o transformou em uma voz influente, muitas vezes em choque com o governo Kirchner.
Em 2005, com a morte de João Paulo II, Bergoglio foi um dos favoritos no Conclave que elegeu o alemão Joseph Ratzinger. O Papa Bento XVI deu continuidade ao pontificado conservador do polonês.
Em 2013, após a renúncia de Bento XVI, Bergoglio foi eleito Papa. Ele mesmo disse que, ao ouvir do cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes (1934-2022) o pedido de não se esquecer dos pobres, resolveu adotar o nome Francisco em homenagem a São Francisco de Assis.
A troca do nome de batismo de um Papa faz parte de um processo que tem tanto raízes históricas quanto simbólicas na tradição católica.
Em geral, um novo nome é escolhido por três possibilidades: o eleito deixa sua identidade pessoal para assumir um novo papel como líder da Igreja e age em nome de Cristo e não mais como indivíduo); ou a continuidade e inspiração, ao escolher nomes de predecessores que admiram, sinalizando a continuidade de determinada linha teológica, doutrinária ou pastoral; ou a nova missão (assim como personagens bíblicos tiveram seus nomes mudados para marcar um novo chamado divino – Simão tornou-se Pedro, Saulo tornou-se Paulo. A mudança de nome do Papa indica sua nova missão como sucessor de São Pedro.
Se o nome escolhido por Bergoglio, Francisco, na opinião de muitos religiosos progressistas, em um primeiro momento surpreendeu, no final acabou se consolidando como um projeto espiritual e político.
Mais do que o gesto, que resultou em um duro choque no então cerimoniário do Vaticano, ao fazer sua primeira aparição pública no balcão da Basílica de São Pedro apenas com a batina branca – sem os demais “itens que representavam até então a “dignidade do Sumo Pontífice” –, Francisco recusou os famosos sapatos vermelhos e continuou usando os surrados sapatos pretos que usava na Argentina.
Chegou até a dizer que não iria usar os paramentos separados para sua primeira Missa após o Conclave com a seguinte declaração ao clérigo que serviu Bento XVI: “Aquela roupa vista o senhor, Monsenhor, o tempo do carnaval acabou”.
A escolha do nome Francisco foi, para Frei Betto, um sinal claro da opção radical do Pontífice pelos pobres, marginalizados e vulneráveis, em sintonia com o espírito de São Francisco de Assis.
“Ele fez uma opção radical pelos mais pobres”, afirma.
Frei Betto ressalta que o Papa se tornou a figura mais proeminente da Europa na defesa dos direitos humanos.
Para ele, Francisco foi um crítico firme da política migratória excludente do continente europeu ao enfatizar que os migrantes não deixam seus países por vontade própria, mas por necessidade de sobrevivência, como consequência histórica do colonialismo.
O pontificado de Francisco foi marcado por um estilo simples e próximo das pessoas, além de reformas para tornar a Igreja mais transparente e menos ostentativa. Como poucos, condenou o chamado clericalismo e fomentou maior participação de leigos e mulheres no governo da Igreja.
Ao contrário da recente polêmica que um frei conservador e carismático instalou no Brasil, ao dizer que o papel da mulher é auxiliar dos homens, em sua convalescência no Vaticano há quatro dias atrás, Francisco disse: “Quando as mulheres comandam, as coisas vão bem”.
Foi no dia em que agradeceu, com a voz debilitada, à reitora da universidade que coordena a unidade de saúde do Hospital Policlínico Agostino Gemelli, Elena Beccalli.
Aos 88 anos, Francisco deixa um legado de transformação, mesclando a tradição católica com uma visão socialmente engajada que ele batizou de “Igreja em saída”.
Foi, de certa forma, reflexo de suas raízes latino-americanas. Sua morte encerra um capítulo histórico, mas sua influência permanecerá como um marco na Igreja do século 21.
O Papa com as encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti — onde estabeleceu conexões claras entre a degradação ambiental, a pobreza e a necessidade de fraternidade global – firmou seu compromisso com o que chamou de Ecologia Integral.
Francisco também teve uma atuação importante no campo ecumênico. Em especial, retomou o diálogo com o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa — uma relação interrompida por quase mil anos.
O encontro entre os líderes ocorreu em Havana, mas o diálogo acabou prejudicado posteriormente devido ao apoio de Kirill à guerra da Rússia contra a Ucrânia.
O Papa se manteve neutro no conflito e buscou “meios de reconciliação” entre os dois países.
Bergoglio foi eleito o 266º Sumo Pontífice da Igreja Católica nos estertores do rigoroso inverno europeu, em 13 de março de 2013. Sua entronização, foi em 19 do mesmo mês, um dia antecedendo a primavera.
Mais do que uma coincidência, ante os 26 anos de João Paulo II e os sete de Bento XVI, Francisco foi – de fato – considerado uma verdadeira Primavera na maior denominação cristã do mundo.
Hoje, com cerca de 1,39 bilhão de fiéis, 17,67% da população global, a Igreja Católica Apostólica Romana passou por uma grande transformação a partir da eleição do Papa João XXIII em 1958.
A época, também considerada outra Primavera, na bimilenar Instituição, foi tempo – nas palavras daquele que ficou conhecido como o Papa Bom – de aggiornamento (renovação).
Frases como “sacudir o pó imperial que cobre a Igreja”, “abrir as janelas para que entre o ar fresco”, saiam da boca daquele que tinha sido escolhido pelos cardeais para ser um “Papa de transição”, devido a sua avançada idade para a época (76 anos) e a falta de um consenso entre as forças políticas e espirituais da Instituição, que ainda vivia sobre a regras do Concílio de Trento, concluído em 1563.
Com a duração de três anos, finalizado em 1965 sob o pontificado de Paulo VI, que assumiu o trono de Pedro após a morte de João XXIII em 1963, o Vaticano II trouxe grandes reformas para o catolicismo. Não foram só mudanças litúrgicas.
A Igreja Católica passa a ter um diálogo maior com o mundo moderno e outras religiões. Era uma Igreja que caminhava com passos firmes, sob a liderança de personalidades como Dom Helder Câmara, para a essência que emanava dos Evangelhos.
Em Medellín, Colômbia, a Opção Preferencial pelos Pobres foi formalmente definida na icônica Conferência organizada pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) em 1968 para aplicar as diretrizes do Vaticano II à realidade da América Latina.
Tudo, acompanhado pelo jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio.
Certamente, não passou despercebido para Bergoglio o freio que foi puxado pelos sucessores de Paulo VI, o polonês Karol Wojtyla (João Paulo II) e o alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI).
Curiosamente, João Paulo II que, fruto de uma Polônia autoritária, sob forte influência da União Soviética, via com muita cautela e até desconfiança a Teologia da Libertação foi o responsável pela ascensão de Bergoglio na hierarquia católica.
A capacidade de liderança do sacerdote já tinha sido provada em seus seis anos (1973-1979) como provincial dos jesuítas argentinos e sua abordagem pastoral simples e próxima do povo chamou a atenção do Vaticano. Assim, em 1992, Bergoglio foi nomeado bispo-auxiliar da Arquidiocese de Buenos Aires; em 1998 a assumiu e, em 2001, foi criado Cardeal.
Ironia ou prova do velho ditado de que “Deus escreve certo por linhas tortas”, cerca de 12 anos após, o então Cardeal Bergoglio é eleito Papa, após a renúncia de Bento XVI.
Tão histórico quanto o fato de suceder o primeiro Papa a renunciar desde 1415, Bergoglio gabaritou no quesito de fazer história. Foi o primeiro Cardeal latino-americano a ser escolhido Papa, foi o primeiro jesuíta no posto e, também, o primeiro a escolher o nome de Francisco.
Se João XXIII disse querer abrir a Igreja para que o ar do mundo a arejasse, Francisco foi a ventania.
Para Frei Betto, Francisco “nos deixa um legado inestimável”.
Para ele, ao lado de João XXIII, o Papa argentino foi um dos poucos pontífices verdadeiramente coerentes com o Evangelho de Jesus.
Frei Betto destacou o papel de Francisco na retomada da essência evangélica do cristianismo, especialmente por seu empenho em implementar as decisões do Concílio Vaticano II.
Segundo ele, o Papa enfrentou a difícil tarefa de liderar a Igreja com uma “cabeça progressista e um corpo conservador”, resultado de mais de três décadas de pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Isso dificultou, segundo Betto, a execução plena das reformas propostas no concílio, convocado por João XXIII nos anos 1960.
Ele não ficou somente em palavras e simbolismos. Menos de quatro meses de ser entronizado, o Papa se dirigiu a uma pequena ilha italiana que poucas pessoas tinham ouvido falar: Lampedusa.
Foi rezar uma Missa em um altar feito de um barco pintado em memória dos milhares de migrantes que morreram no Mediterrâneo tentando chegar à Europa.
Por estar próxima à África, Lampedusa, tornou-se um dos principais pontos de chegada para refugiados e migrantes que atravessam o mar em embarcações precárias.
Lá, onde pelo menos 500 pessoas morreram ou desapareceram em suas proximidades, Francisco disse que o mundo e a indiferença estavam globalizados.
“Acostumamo-nos ao sofrimento dos outros: não me afeta; não me preocupa; não é da minha conta!”, bradou o Papa.
Poucos imaginavam que a primeira saída de um Papa de Roma seria para um local tão distante de centros que, por si só, chamam a atenção da sociedade.
Certamente, Lampedusa foi o primeiro gesto concreto do que o Papa viria após chamar periferias existenciais.
Não foi por menos também que em menos de um ano de pontificado Francisco, em sua primeira Exortação Apostólica, Evangeli Gaudium (A Alegria do Evangelho), criticou com força o sistema econômico que afirmou gerar exclusão e desigualdade.
Bergoglio não só honrou o nome de Francisco de Assis ao se despojar até do Palácio Apostólico que tinha direito para um quarto na residência de Santa Marta, uma espécie de hotel de passagem para clérigos que vão ao Vaticano.
Em 18 de junho de 2015, ele publicou a encíclica Laudato Si.
No primeiro documento papal sobre o meio ambiente, Francisco critica o consumismo e o que chamou de desenvolvimento irresponsável e excludente.
O Pontífice fez um apelo à mudança e à unificação global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.
Francisco também promoveu como poucos transparência dentro da Igreja. Começou pelos escândalos de pedofilia onde não poupou nem “príncipes da Igreja”.
Ele afastou de seu círculo de conselheiros os Cardeais George Pell, acusado na Austrália por agressões sexuais contra menores, e o chileno Francisco Javier Errázuriz, suspeito de ter acobertado os atos de um padre pedófilo no Chile.
Mais, em 2018, o Papa despojou o americano Theodor McCarrick de seus direitos como Cardeal e o devolveu ao estado laico, proibido de ministrar qualquer Sacramento. A medida sem precedentes na Igreja Católica moderna foi tomada após acusações de abuso sexual contra McCarrick, incluindo a de um menor.
Antes, Francisco removeu o Cardeal Raymond Burke de seu cargo como prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica, a mais alta corte do Vaticano. O também americano Burke que é um ultraconservador, apegado a pompas e circunstâncias, foi transferido para o cargo honorífico de capelão da Ordem de Malta.
A mesma mão firme do Papa sempre se estendeu com muita ternura para quem sempre disse que a Igreja deveria ser acolhedora.
Em seu pontificado, mulheres passaram a ter cargos importantes e influentes no Vaticano e a comunidade LGBT passou a ser ouvida com mais carinho e menos condenação.
A religiosa Scalabriniana Rosa Maria Martins divulgou um texto em homenagem ao Pontífice falecido. Sob o título Francisco: Um Papa fora da curva, a irmã, que trabalha com migrantes e refugiados, disse:
“Até um dia Francisco! Seja recompensado com a alegria de estar junto de Deus, por ter passado nesta terra fazendo o bem: amou incansavelmente e defendeu os pobres, os migrantes, o Meio Ambiente e desejou ardentemente a paz no mundo.
Morreu em meio a um mundo de guerras. Desejou ardentemente uma Igreja fora das sacristias, menos clerical, e próxima ao povo de Deus.
Vai com Deus Francisco!
Saudades dos nossos encontros, das cartas, do aperto de mão. Sempre senti Deus, estando perto de Sua Santidade.
Obrigada por me revelar Deus! Quando crescer serei como você! Arrivederci! Até o nosso próximo encontro!”.