Educação
Começam as negociações coletivas da educação básica e superior
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Radamese Oliveira, o representante da Fisc no Ceará, não apresentou documentos que comprovem a existência da IES Paraguaia que é citada em investigação da PF e da Polícia Civil sobre esquema de diplomas falsos
Foto: Instagram/ Reprodução
Desde que foi citada em uma operação da Polícia Federal (PF) como Instituição de Ensino Superior (IES) sem reconhecimento no Paraguai, a Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (Fics) vê sua rede de representantes no Brasil entrar em colapso. Pessoas que atuavam na captação de alunos e gestão de processos acadêmicos em parceria com o brasileiro Ismael Fenner ora tentam se desvincular da instituição ou atacam frontalmente o trabalho jornalístico do Extra Classe, que tem exposto em uma série de reportagens um esquema internacional de emissão de titulações stricto sensu fraudulento.
Fenner se apresenta como diretor-geral da suposta IES, que diz ter sede na capital Guarani, Assunción. Na última semana, o Ministério Público do Paraguai aceitou denúncia do Instituto Interamericano de Ciencias Sociales (ISICS) contra ele por emissão de documentos falsos e estelionato.
O Extra Classe conseguiu contatar ao menos quatro intermediários de Fenner em diferentes estados brasileiros: São Paulo, Ceará, Paraíba e Bahia. O modelo da Fics, no entanto, tem ramificações praticamente em todo o Brasil.

Irene Maluf nega vínculo com a instituição, mas em suas palestras, se apresenta como coordenadora do curso de Mestrado em Ciências da Educação/ FICs Py
Foto: Portal Acesse/ Reprodução
Procurada pela reportagem, Maria Irene Maluf, proprietária do Núcleo de Formação Irene Maluf, de São Paulo, negou qualquer vínculo com a instituição paraguaia. “Não represento quem quer que seja e de modo algum”, afirmou por mensagem.
Quando informada que havia pessoas que se consideravam lesadas por ela e outras que acreditavam que ela havia sido enganada, a professora não respondeu mais aos contatos da reportagem.
O currículo de Maria Irene expresso na programação do 13º Congresso Brasileiro de Psicopedagogia, no qual ela foi palestrante, no entanto, não deixa dúvidas: “Coordena o curso de Mestrado em Neurociências em parceria acadêmica com a FICS – Facultad Interamericana de Ciencias Sociales PY/Polo SP desde 2019”. Ela também assina um artigo no Portal Acesse informando que é “coordenadora do curso de Mestrado em Ciências da Educação/ FICs Py”.
Áudio dirigido a alunos preocupados com a validade de seus diplomas, mostra ainda Maria Irene tentando conter a crise de imagem que se abateu após o anúncio de suspensão de títulos reconhecidos na plataforma Carolina Bori pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
“A Fics não é Fics sozinha, tem mais duas faculdades; então, se não sai por uma, vai sair por outra. De alguma coisa vai ser feita, e de qualquer jeito não vamos soltar esse osso”, afirmou ela na gravação.
No mesmo áudio, Maria Irene atribui as denúncias contra a Fics a “grupos educacionais, que parecem máfias”, supostamente interessados em derrubar a instituição por motivos financeiros.
“Algumas coisas são até impossíveis de acontecer. A Fics não trabalha sozinha, ela trabalha com a Carolina Bori, com o MEC, então não dá pra falsificar documentos quando você manda pro MEC”, declarou.
A professora também pediu que os alunos mantivessem a serenidade e não dessem atenção às críticas: “Essa coisa de ficar ouvindo e dando trela pra esse povo que só quer denegrir não vale a pena, porque eu imagino que ninguém queira sair com o diploma de uma faculdade denegrida”.

O professor Márcio Wendel foi coordenador acadêmico da Fics no Brasil e detalhou como a empresa opera no país
Foto: Doctoralia/ Reprodução
O professor Márcio Wendel Santana Coêlho que chegou a aparecer em vídeos como coordenador acadêmico internacional da Fics no Brasil, foi quem detalhou o funcionamento da estrutura no país.
Segundo ele, que afirma ter encerrado seu trabalho para Fics em agosto de 2024, a organização opera por meio de uma rede de coordenadores nacionais. Todos têm denominação semelhante e são os responsáveis por organizar turmas e acompanhar alunos em diferentes regiões.
Os coordenadores, explica Wendel, mantinham uma carteira de estudantes, repassavam demandas e intermediavam a comunicação com a direção da fundação. “Cada representante era responsável por gerir seus alunos e responder diretamente à administração central da Fics, sem uma coordenação unificada”, explicou.
Nesse modelo descentralizado, ele confirma que Maria Irene Maluf atuava como uma das representantes da Fics, intermediando grupos de alunos interessados nos cursos da, especialmente em São Paulo.
Ainda figurando no site da Fics como um de seus professores, Wendel admitiu que acreditava na legalidade da instituição à época. “Eu e meu advogado consultamos o Ministério da Educação do Paraguai e verificamos documentos que pareciam em ordem”, afirmou.
Wendel também relatou que, enquanto esteve vinculado à Fics, todos os compromissos com seus estudantes foram cumpridos: diplomas foram entregues e chegaram a ser reconhecidos por universidades brasileiras de renome, como a Ufal. Isso, segundo ele, permitiu progressões salariais a servidores públicos.
Sobre Ismael Fenner, Wendel diz que não teve mais notícias. As últimas, relata, seriam as de que ele teria repassado a Fics a outro grupo e aberto uma universidade nos Estados Unidos.
Hoje, com as suspeitas apontadas pela PF, Wendel vê um quadro que expõe falhas em diversas instâncias: do MEC e da Capes, que deveriam fiscalizar, às próprias universidades que aceitaram a documentação da Fics sem um crivo rigoroso. “Os maiores prejudicados são os alunos, que pagaram, estudaram e agora têm seus diplomas contestados”, afirmou ele, que trabalhou com Fenner na Bahia e atualmente está radicado em Aracaju, Sergipe.

Polícia Civil da Paraíba desmontou esquema de diplomas falsos envolvendo a paraguaia Universidade del Sol e a ESL, uma instituição brasileira
Foto: Reprodução
Em Campina Grande, Paraíba, o atual Coordenador do curso de História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Matusalém Alves Oliveira também consta no site da Fics como membro do corpo docente.
Questionado sobre isso, ele negou ser professor da instituição: “Minha atuação ocorreu apenas como convidado em algumas ocasiões, entre os anos de 2017 e 2020, quando ministrei aulas pontuais, participei de bancas e orientei alguns trabalhos”, afirmou.
Em oitivas da Polícia Civil da Paraíba que desbaratou um esquema de falsificação de diplomas envolvendo a ESL – Centro Educacional em suposta parceria com a também paraguaia Universidad del Sol (Unades), o nome do professor da UEPB surgiu vinculado à Antropus Educacional.
“Os depoimentos das vítimas, sustentam isso”, afirma o delegado paraibano Francisco Iasley Lopes de Almeida, responsável pela operação.
Registrada em nome de um familiar do professor, a empresa intermediou cursos de Fenner na região. “A Antropus Educacional também teve participação apenas indicando alguns alunos para a instituição. Desde então, não mantenho qualquer vínculo”, declarou ele, destacando seu papel de consultoria.
Alves Oliveira exerce a função de professor na UEPB em regime de dedicação exclusiva e no decorrer da entrevista ao Extra Classe chegou a dizer que não autorizava a vinculação de seu nome e imagem na matéria.
Ao ser informado pela reportagem sobre essa impossibilidade, já que toda entrevista é pública, salvo se previamente pactuado sigilo ou anonimato, o professor desconversou: “Quando a Polícia Civil me intimar desses fatos eu esclareço lá, mas que eu saiba isso é competência da Polícia Federal”. Alves Oliveira terminou sua conversa com uma ironia: “Qualquer dúvida a mais que você tenha, fale com o delegado que tem lhe passado essas informações privilegiadas”.
Além da informação de Alves de Oliveira ser de conhecimento público pois ele já se manifestou sobre o assunto de forma voluntária, há na matéria interesse público relevante. Assim, conforme decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF), o direito à informação prevalece.

O representante da Fics no Ceará, Radamese de Oliveira, afirma que as informações investigadas pela polícia são falsas e ataca jornalistas
Foto: Redes Sociais/ Reprodução
Diferentemente dos demais, o representante da Fics no Ceará, Radamese Lima de Oliveira optou por uma estratégia de confronto direto. Ao ser contatado pelo Extra Classe, ele não permitiu que o jornalista fizesse nenhuma pergunta e partiu imediatamente para ataques ao veículo e a ética do profissional.
“Você está fazendo acusações sem prova, acusações que caracterizam sabotagem”, disparou ele ao acusar o Extra Classe de não respeitar o direito de resposta e de cometer crime ao não publicar manifestações da Fics “na íntegra”.
Em tom crescente de hostilidade, Radamese passou a fazer acusações pessoais ao trabalho do veículo: “Com certeza alguém tá pagando você”, acusou, citando nomes de supostas instituições rivais da Fics.
O representante da Fics que se define um “engenheiro com três especializações”, também não poupou ofensas como “repórter mentiroso” e “pseudojornalista”. Houve também insinuações conspiratórias, como “vocês são maçons”, “são stalinistas”.
Radamese tentou inverter o foco da apuração, questionando por que o Extra Classe não investigava outras instituições e disse que a Fics iria processar tanto o jornalista quanto o jornal.
Apesar das acusações de parcialidade e ameaças de processos judiciais, Radamese não apresentou documentos que comprovassem a regularidade da Fics. Limitou-se a remeter documentos que mencionam apenas o Isics e a tramitação de sua regularização no Congresso paraguaio. Em nenhum documento há qualquer citação ao nome Fics ou que sugira que esse seja um nome fantasia do instituto que o MP do Paraguai entende ser usado por Fenner para confundir pessoas. Além disso, a Fics nunca solicitou direito de resposta. O jornal esclarece ainda que mantém contato regular com a Assessoria de Imprensa da suposta IES no Brasil e sempre registra todas as suas versões.
Sobre a acusação de que o jornal trabalha para sabotar a Fics e não expõe outras IES estrangeira, a série já apresentou o nome de duas, além de uma série de IES nacionais que têm feito validações que são consideradas irregulares.
Radamese Lima de Oliveira é professor da rede do município de Caucaia, Ceará. Ele tem o cargo de Professor de Educação Básica e foi admitido no ano de 2011. Atualmente ele está lotado na Escola de Ensino Fundamental Economista Rubens Vaz da Costa.
O Extra Classe solicitou informações sobre Maria Irene, Wendel, Alves Oliveira e Radamese à Fics. Segundo a assessoria de imprensa da suposta IES, “a Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) informa que todas as suas relações institucionais seguem critérios éticos, técnicos e de transparência”.
A suposta empresa de educação não respondeu por que Ismael Fenner se apresenta como diretor geral de um IES do Paraguai, uma vez que a legislação daquele país exige a nacionalidade paraguaia para o exercício dessa atividade.
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