Educação
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Foto: SEDUC/PMBMD
Mais da metade (53,7%) dos professores do ensino fundamental de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano, está sob suspeita da Procuradoria-Geral do Município de ter usado diplomas falsos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) para progressão de carreira. São 232 dos 432 docentes da rede pública sob inquérito.
O caso de Brejo da Madre de Deus – com cerca de 50 mil habitantes, e que até aqui era mais conhecida pelas belas paisagens e pela encenação anual da Paixão de Cristo – faz parte de um contexto complexo. Esquemas internacionais de falsificação de diplomas e títulos acadêmicos vem sendo denunciados pelo Extra Classe desde 1º de agosto, em série de reportagens sobre Fábricas de Diplomas que estão se tornando casos de polícia e resultando até mesmo exonerações, vitimando duplamente aqueles que buscam uma jeito mais em conta de progredir na carreira pública. É o caso do município do agreste pernambucano que tem um pouco mais de 50 mil habitantes.
“Na análise feita com a equipe, no dia 10 de setembro, encontramos apenas três diplomas efetivamente revalidados pelas universidades de Pernambuco e pela Unicamp. Todo o restante está em inquérito”, afirma a procuradora-geral do município, Anna Karolina Pinto Thaumaturgo.

A procuradora Anna Karolina sustenta exoneração de professores que compactuaram com golpe: “É preciso um olhar crítico para punir quem realmente participou e proteger quem agiu de boa-fé”
Foto: Acervo Pessoal
O problema começou a aparecer em 2024, quando surgiram denúncias sobre diplomas falsos vinculados ao ESL — Centro Educacional que operava em Campina Grande (PB) e foi alvo da Polícia Civil da Paraíba.
A prefeitura abriu inquéritos administrativos, acionou o Ministério Público e exonerou sete professores. Anna afirma que, embora parte dos servidores possa ter sido enganada, nem todos agiram de boa-fé.
Um depoimento revelou que, ao descobrir a fraude, uma professora chegou a denunciar o caso à polícia e ao MP, mas sofreu pressão dos colegas para recuar. Outro grupo teria recebido proposta para atravessar a fronteira e validar títulos no Paraguai. “Nesse caso, entendemos que os servidores não eram totalmente inocentes. Se o diploma é falso, a conduta correta seria denunciar, não buscar outra saída fraudulenta”, destacou a procuradora.
Sete professores exonerados voltaram ao serviço público por decisão liminar. O município já prepara recurso. Uma fonte ouvida pelo Extra Classe relata que representantes da Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) estimulam seus clientes a entrar com ações contra decisões da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que trabalha para revogar títulos fraudulentos.
“Faz parte do modus operandi do estelionatário”, afirma o delegado da Polícia Civil da Paraíba, Francisco Iasley Lopes de Almeida, responsável pela operação contra o ESL.
“Quanto mais confusão for gerada e que possa lançar dúvida, melhor para ele”, completa.
Além dos servidores enganados, os cofres públicos são onerados com progressões de carreira baseadas em formações fraudulentas, além do custo judicial. “Imagina quanto não é desperdiçado no jurídico de instituições como a UFAL para atender à demanda fomentada por esses picaretas”, aponta a fonte.
Em Brejo da Madre de Deus, a situação se agravou. Novo inquérito foi aberto há cerca de dez dias, após a descoberta de que 70% dos cursos de mestrado apresentados por professores vinham de uma instituição sediada na Flórida, a Veni Creator Christian University.
“Estamos notificando todos os professores que apresentarem esse diploma para que revalidem aqui no Brasil em uma universidade federal”, explica Anna.
O Extra Classe já havia revelado em 11 de agosto como fábricas de diplomas do Paraguai e dos Estados Unidos abastecem o Brasil com títulos falsos.
O impacto das fraudes vai além da educação. Segundo Anna, o Tribunal de Justiça de Pernambuco passou a aceitar apenas diplomas revalidados pela Unicamp e pela UFPE após uma enxurrada de processos envolvendo títulos falsos.
“Em Brejo, uma professora chegou a ser aprovada em concurso público graças a um diploma fraudulento, mas teve a classificação anulada por decisão judicial”, relata a procuradora.
Para ela, trata-se de uma “sangria de dinheiro público”, que duplica o prejuízo: lesando professores enganados e comprometendo recursos do Estado. “Existe um mercado para isso. Mas também existe o servidor que fez tudo corretamente, que estudou, que investiu, e acaba sendo colocado no mesmo patamar de quem se valeu de fraude. É preciso punir quem realmente participou e proteger quem agiu de boa-fé”, defende.
Enquanto os inquéritos seguem em andamento, a Prefeitura busca corrigir falhas processuais apontadas pela Justiça. O caso expõe a fragilidade da fiscalização sobre títulos acadêmicos no Brasil e mostra como a busca por atalhos na carreira corrói a confiança em um setor que deveria servir de exemplo à sociedade.
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