Educação
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Andrea Moruzzi: “Parece que existe no senso comum a compreensão de que o feminismo é uma coisa só. E são tantas vertentes, com tantas aberturas teóricas diferentes, às vezes até conflitantes, que não tem como falar em uma única perspectiva”
Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
A reprodução de estereótipos de gênero nas escolas brasileiras encontra uma nova reflexão teórica no livro Feminismos em educação: das margens aos centros epistemológicos aos estudos da infância (Dialética, 2025, 124 p.). Se no campo da educação já há pesquisadores dando ênfase à questão de gênero e outros, trazendo abordagens feministas, a obra da professora Andrea Braga Moruzzi, do Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apresenta como novidade a sistematização dos diferentes enfoques feministas e mostra como eles podem contribuir para uma pedagogia que rompa com estereótipos.
O livro, resultado de pesquisa de pós-doutorado realizada na USP, propõe uma reflexão profunda sobre como “os feminismos”, nas palavras de Andrea, podem contribuir para uma pedagogia mais igualitária.
O trabalho surge em um contexto de urgência educacional. Nas salas de aula da educação infantil brasileira, ainda é comum encontrar práticas que segregam brincadeiras por gênero – carrinho para meninos, boneca para meninas – e reproduzem comportamentos estereotipados desde a primeira infância. “A gente vê professoras criando toda uma lógica de uma pedagogia que é sexista, que separa as brincadeiras para os meninos e as brincadeiras para as meninas”, ilustra a autora.
Resultado de seu pós-doutorado na USP, o livro Feminismos em educação foi produzido “com uma linguagem muito acessível, voltada para um público bem amplo”, explica Andrea.

“O feminismo no chão da escola é, ao mesmo tempo, uma necessidade e um sonho”, alerta a autora
Foto: LAbI/ Ufscar/ Reprodução
O diferencial da pesquisa feita por Andrea está exatamente na sistematização de múltiplas correntes feministas e suas contribuições específicas para a educação. “Parece que existe no senso comum a compreensão de que o feminismo é uma coisa só. E são tantas vertentes, com tantas aberturas teóricas diferentes, às vezes até conflitantes, que não tem como falar em uma única perspectiva”, destaca a autora.
O livro analisa desde o feminismo liberal dos anos 1960 até vertentes contemporâneas como o transfeminismo, feminismo queer, feminismo negro, feminismo decolonial e feminismo interseccional.
Cada corrente, para a professora, oferece ferramentas específicas para combater diferentes aspectos das desigualdades. “Se o feminismo negro pensa que a igualdade e a justiça só são alcançadas com o combate ao racismo, o feminismo marxista vai entender que o problema é a luta de classes”, exemplifica.
Andrea também questiona os fundamentos da formação pedagógica tradicional. “Se você olhar o curso de pedagogia, ele é muito conservador, muito eurocentrado. Todos os teóricos que a gente estuda são homens, geralmente homens brancos e europeus”, ressalta.
Essa formação, segundo ela, não prepara educadores para lidar com a diversidade de realidades das crianças brasileiras – quilombolas, ribeirinhas, indígenas e de diferentes classes sociais.
“Será que a gente consegue mobilizar uma outra formação inicial para as professoras? Se elas estão reproduzindo isso nas escolas, é porque elas também não tiveram uma base na formação inicial que problematizasse essa discussão”, deduz Andrea.
Para mapear as diferentes vertentes feministas, a autora utilizou inspiração metodológica na genealogia de Michel Foucault, buscando compreender as condições históricas e políticas que propiciaram o surgimento de cada movimento. “O que é que fez o feminismo negro nascer e romper com outras abordagens? O que é que fez o feminismo queer emergir e problematizar o que vem antes dele?”, indaga.
A pesquisa, desenvolvida durante a pandemia, entre 2020 e 2022, baseou-se em extensa revisão bibliográfica em português, francês e espanhol, localizando textos de diferentes períodos históricos e localidades.
Apesar das contribuições teóricas, Andrea reconhece os desafios práticos. “O feminismo no chão da escola é, ao mesmo tempo, uma necessidade e um sonho”, alerta.
A resistência encontrada vai além do conservadorismo político, envolvendo transformações pessoais profundas. “Antes de transformar a própria prática, exige essa transformação pessoal. E muitas vezes impacta no modo como uma pessoa viveu a vida inteira”, observa ela.
O livro surge também como resposta ao contexto político brasileiro. A eleição de 2018 foi, segundo a autora, “a mola propulsora” para desenvolver a pesquisa. “A gente foi recebido no ano de 2019 com aquele discurso. Foi um golpe para todos nós”, relembra, referindo-se aos ataques às discussões de gênero na educação.
Capa: ReproduçãoUm dos objetivos centrais do livro é desmistificar os feminismos através da linguagem acessível. “A minha tentativa foi criar uma linguagem que sensibilizasse para o problema com muitos exemplos do que acontece na educação infantil”, explica Andrea.
O trabalho foi pensado especialmente para dialogar com professoras que atuam diretamente com crianças.
“Quero fazer isso: diante desse contexto político que a gente vive, com o avanço da extrema-direita, foi extremamente necessário desmistificar os feminismos”, enfatiza a pesquisadora, combatendo discursos que apresentam abordagens feministas como ameaça às famílias e crianças.
A educação infantil, área de atuação de Andrea, apresenta-se como território especialmente fértil para a pedagogia feminista. “A própria educação infantil é uma conquista de mulheres feministas”, lembra a professora, citando as reivindicações dos movimentos feministas brasileiros dos anos 1970 e 1980 pelo direito à educação de crianças pequenas.
O livro está organizado em quatro seções principais: aspectos metodológicos, perspectiva histórica dos feminismos, análise das pluralidades feministas e a relação entre feminismos e pedagogia. A obra não se destina apenas a pesquisadores, mas principalmente a educadores que trabalham com infância.
“Trata-se de construir lugares de escuta e de reconhecimento, onde as diferentes formas de ser, pensar e aprender sejam valorizadas. Só assim a educação cumpre seu papel de promover a liberdade e a justiça social”, conclui Andrea.