Menos de 1% dos cursos de EaD alcançou a nota máxima no Enade

Apenas nove de 623 graduações em EaD alcançaram nota máxima; mais da metade obteve conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios pelo MEC

Menos de 1% dos cursos de EaD alcançaram a nota máxima no Enade

Foto: MEC/Divulgação

A nova edição do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), divulgada no dia 11, reforça o sinal de alerta que já estava ligado para especialistas e gestores da educação superior brasileira. Os dados revelam uma expressiva disparidade entre os cursos presenciais e os ofertados na modalidade a distância (EaD). Enquanto 15,5% dos cursos presenciais avaliados conquistaram o conceito máximo (nota 5), apenas 0,8% dos cursos EaD alcançaram essa pontuação. Isso equivale a apenas nove graduações em um universo de 623 pesquisadas.

Além disso, mais da metade dos cursos a distância avaliados ficou nos conceitos 1 e 2, considerados insatisfatórios pelo Ministério da Educação (MEC). “O percentual maior de classificação nas notas do Enade é para o conceito 2, que é insuficiente: 47,8%, além de 7,4% com conceito 1. Isso é altamente preocupante”, avalia Artur Jacobus, vice-reitor da Unisinos e professor pesquisador na área de gestão educacional.

Ponto que chama a atenção é que grande parcela dos cursos EaD não recebeu conceito no Enade e ficaram classificados como “Sem Conceito” (SC). Isso ocorre quando o número de estudantes participantes é insuficiente para garantir a confidencialidade dos dados, como nos casos em que apenas um aluno realiza a prova. ​

A tendência, segundo Jacobus, não é recente, mas tem piorado. “Já tínhamos visto que a soma de conceitos 1 e 2 girava entre 35% e 40% em anos anteriores. Agora, esse índice de 55% é muito pior do que já estava antes. Eu nunca tinha visto algo assim”, afirma.

Comunitárias e católicas querem regulação

Diante do cenário, universidades comunitárias e confessionais católicas, como as vinculadas ao Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung) e à Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (NEC), têm se posicionado a favor de uma regulação mais rígida para o EaD.

“Não necessariamente significa que a gente está apoiando todo e qualquer item, até porque a gente não chegou a ver a versão final mesmo”, pondera Jacobus.

Apesar do apoio à reformulação do marco regulatório, o setor vive um clima de incerteza provocado pelos sucessivos adiamentos da publicação das novas regras por parte do MEC.

Inicialmente prometido para o fim de 2023, o anúncio foi adiado para março, depois para abril e, mais recentemente, para maio. “A cada vez que eles adiam, a gente fica de cabelo em pé porque não sabe o que vai vir depois”, diz o vice-reitor.

Enquanto o Ministério da Educação posterga a divulgação, a autorização para abertura de novos cursos e credenciamento de instituições para o ensino remoto segue suspensa desde dezembro de 2024.

Combate as fábricas de diplomas

Ao mesmo tempo, representantes de instituições privadas com perfil mais comercial têm se mobilizado contra as novas regras, inclusive com um abaixo-assinado online.

Para Jacobus, a crítica ao EAD não é à modalidade em si, mas ao modelo predominante no Brasil. “Não tem por que, em pleno 2025, a educação a distância ser sem interação entre aluno com aluno e entre aluno e professor. Tecnologia para isso tem”, defende.

Segundo ele, o modelo de autoaprendizagem, com pouca ou nenhuma troca entre estudantes e professores, tem comprometido a efetividade da formação. “Tu assiste aulas, mas não consegue conversar com teus colegas, em geral, nem com o professor. Isso se comprova que gera uma aprendizagem muito menos eficiente.”

O pesquisador defende que a reformulação do marco regulatório seja encarada como uma oportunidade de reestruturação da modalidade no país. “O problema não é o EAD. É esse EAD que está sendo feito. Se for bem estruturado, com interação, acompanhamento e qualidade pedagógica, pode sim ser uma excelente alternativa de formação. Mas, do jeito que está, não está funcionando”, conclui.

Cursos EaD com nota máxima no Enade (Conceito 5):

  • Tecnologia em Gestão Ambiental – Universidade CEUMA (UNICEUMA) – São Luís (MA)
  • Tecnologia em Gestão Ambiental – Centro Universitário INTA (UNINTA) – Sobral (CE)
  • Tecnologia em Gestão Ambiental – Centro Universitário Unifacig – Manhaçu (MG)
  • Tecnologia em Estética e Cosmética – Universidade Vila Velha (UVV) – Vila Velha (ES)
  •  Tecnologia em Estética e Cosmética – Centro Universitário de Valença (UNIFAA) – Valença (RJ)
  • Tecnologia em Gestão Ambiental –  Universidade Santa Cecília – São Paulo (SP)
  • Tecnologia em Gestão Hospitalar – Centro Universitário São Camilo – São Paulo (SP)
  • Fisioterapia (Bacharelado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) – São Leopoldo (RS)
  • Tecnologia em Gestão Ambiental – Universidade Anhanguera – Campo Grande (MS)

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