Educação
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Aula inaugural do programa de pós-graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ, no campus Praia Vermelha, zona sul do Rio, em 2023, com a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Um retrato da pós-graduação no Brasil foi produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e divulgado neste mês em Brasília. O estudo traz informações sobre a formação, distribuição geográfica, sexo e o emprego dos mais de 1 milhão de mestres e 319 mil doutores que se titularam entre os anos de 1996 e 2021.
Entre os pontos negativos, por exemplo, estão a queda na formação de mestre e doutores a partir de 2019 e baixo índice de formados por 100 mil habitantes, redução de investimentos e desvalorização da pós-graduação.
O presidente do Conselho de Administração do CGEE e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Odir Dellagostin, ressalta que o Brasil deve continuar investindo fortemente na formação de recursos humanos qualificados em nível de pós-graduação.
“A pesquisa científica ocorre essencialmente na pós-graduação”, pontua o especialista, que também é membro da Academia Brasileira de Ciências, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) e do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).
Para Dellagostin, os avanços conquistados, com muito esforço, nesses últimos 25 anos, estão sendo ameaçados com a queda na procura pela pós-graduação, reflexo da desvalorização da ciência por alguns governantes, do valor das bolsas, do subfinanciamento das pesquisas e da falta de perspectiva para os mestres e doutores titulados atualmente. “Infelizmente, a Ciência ainda não voltou”, analisa.
Apesar da expansão do número de títulos de mestrado e de doutorado no período, o número de titulados no Brasil a cada ano parece ainda ser relativamente pequeno quando medido como uma proporção da população brasileira.
Em de 2013, o Brasil titulou 25,6 mestres para cada grupo de 100 mil brasileiros; em 2021, foi para 29,3. Em relação aos países com melhores desempenhos nesse indicador no ano de 2021, como Irlanda (607,6) e França (501,6), seus resultados foram respectivamente cerca de 21 e 17 vezes superiores ao brasileiro. De 2019 para 2020, o número de mestres formados caiu 10 mil no território nacional, por exemplo.
Segundo o presidente da Fapergs e do Confap, ainda há um baixo número de mestres e doutores por 100 mil habitantes no Brasil, quando comparado a países mais desenvolvidos.
“Porém, o desafio não é apenas aumentar o número, mas também oferecer oportunidades dignas para que os mestres e doutores formados possam atuar profissionalmente. Do contrário, estaremos titulando doutores que vão buscar melhores condições de trabalho em outros países, como está acontecendo atualmente”, adverte.

O RS é o estado com maior densidade de programas e maior relação de titulados por 100 mil habitantes: “além do número, a qualidade dos mestres e doutores também se destaca, apesar da menor média salarial”, diz Dellagostin
Foto: Comunicação Social UFPel/ Divulgação
Entre 1996 e 2021, os programas de mestrado e doutorado passaram de 608 para 4.691. O sucesso entre 2016 e 2021, contudo, foi menos intenso. Conforme o estudo do CGEE, houve desaceleração do processo de crescimento da pós-graduação brasileira nos cinco últimos anos da série analisada.
Ao mesmo tempo, a geografia da titulação ficou mais descentralizada. Em 1996, 67,4% dos títulos de mestrado e 88,9% dos títulos de doutorado foram concedidos na região Sudeste. Em 2021, tais participações tinham diminuído para, respectivamente, 43,5% e 52,5%.
O Rio Grande do Sul é o estado com a maior densidade de programas de pós-graduação e com a maior relação de doutores titulados por 100 mil habitantes.
O número de programas avaliados pela Capes como de excelência (nota 6 ou 7), também é bastante elevado, avalia o professor da UFPel. Segundo o levantamento, a região, entretanto, aparece com média salarial menor para aqueles professores com pós-graduação.
“Portanto, além do número, a qualidade dos mestres e doutores formados no RS também se destaca. O RS tem contribuído para a nucleação de pesquisadores em outros estados. A questão da menor remuneração merece uma análise mais aprofundada”, conclui Dellagostin.
E a presença feminina é majoritária na pós-graduação. A partir do ano de 1997, as mulheres passaram a ser maioria entre os titulados em cursos de mestrado no Brasil, aponta o estudo. A partir de 2003, elas também passaram a ser maioria entre os titulados em cursos de doutorado. A participação de mulheres no total de títulos de mestrado e de doutorado no ano de 2021 foram, respectivamente, 13,6 e 11,2 pontos percentuais maiores do que as participações de homens.
A contradição é que elas ainda recebem menos com a mesma qualificação. Em 2021, a remuneração média das mulheres com mestrado era de R$ 10.033,95 – 26,7% menor do que recebiam os homens com a mesma formação. No caso das doutoras, a remuneração média naquele ano era de R$ 14.782,68 – 16,4% abaixo do que ganhavam os doutores.
O setor público continua sendo o que mais oferece oportunidade de emprego para mestres e doutores por muitos anos. O setor privado, tanto as empresas não educacionais quanto as instituições de ensino particulares, por sua vez, passou a ter uma tendência de aumento no emprego de mestres: 25% do total dos mestres estão em entidades privadas atualmente.
“Programas de estímulo à absorção de doutores pelo setor produtivo privado tem tido sucesso limitado. Muitos empresários se sentem intimidados pela presença de um doutor na empresa. Portanto, precisamos incentivar a criação de empresas por doutores”, afirma o presidente da Fapergs e do Confap.
Segundo Dellagostin, esse empresário, se bem-sucedido, certamente buscará contratar outras pessoas com o mesmo nível de formação para fortalecer a sua equipe. “No Rio Grande do Sul, a Fapergs criou o Programa Doutor Empreendedor, o qual já apoiou a criação de mais de 50 startups por doutores. Um programa que está tendo um grande sucesso. Iniciativas como essa precisam ser ampliadas e disseminadas”, ressalta o professor.
O estudo do CGEE, com mais de 330 tabelas, pode ser consultado com todos os detalhes no site.