Educação
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Falta de acesso a atividades escolares foi praticamente o dobro entre crianças negras, em relação a brancas, indígenas e asiáticas
Valter Campanato/Agência Brasil /
Relatório do Banco Mundial com dados apurados até a metade do primeiro semestre deste ano aponta que desigualdades regionais e raciais já existentes antes da pandemia foram acentuadas.
Em novembro passado, o acesso a atividades escolares no Sul foi quase universal, com um índice de 93,3%. Já o Nordeste, embora matriculadas, mais de 40% de crianças (1,4 milhão) ficaram sem acesso a atividades escolares no período.
Na questão racial, o levantamento do Banco Mundial aponta que o percentual crianças afrodescendentes sem acesso a atividades escolares em novembro foi praticamente o dobro das brancas, indígenas e asiáticas. Enquanto as afrodescendentes ficaram na casa dos 12,5%, as demais marcaram 6,4%.
Segundo o trabalho, não foram só as condições econômicas das famílias que contribuíram para essa situação. Entre os principais fatores foram ressaltadas as carências técnicas e pedagógicas que não atenderam as especificidades necessárias para o ensino remoto, solução adotada no mundo todo durantes a crise sanitária.
O levantamento sobre o Brasil integra um estudo mais amplo sobre a situação na América Latina que, devido a Covid-19, registrou uma evasão escolar média de 15%.
Embora o Banco Mundial registre que o abandono da escola por brasileiros ficou na casa dos 12%, a situação preocupa por causa do tamanho da população nacional.
Ao todo, segundo a instituição, a evasão brasileira no primeiro ano da pandemia foi 172 mil crianças e adolescentes de 6 a 16 anos. Isso eleva o total desse público nessa situação dos cerca de 1,3 milhão para 1,5 milhão.
“Esta é a pior crise na área de educação já vista na região, e estamos preocupados que possa haver consequências graves e duradouras para toda uma geração, especialmente para os setores mais vulneráveis”, disse Carlos Felipe Jaramillo, Vice Presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe. “Os governos devem tomar medidas urgentes para recuperar o terreno perdido e aproveitar esta oportunidade para melhorar os sistemas de educação, aproveitando as novas tecnologias”.
Apesar de ter R$ 135 milhões alocados no Orçamento Federal para a implantação de redes de internet nas escolas públicas, o governo Bolsonaro acabou não investindo um centavo, mesmo diante dos desafios impostos pela pandemia, registrava o Extra Classe na época.
As intenções e prioridades governamentais de lá para cá não mudaram. Após ter seu veto à lei 14.172/21 derrubado pelo Congresso, Bolsonaro no início de julho acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para não financiar internet de alunos da rede pública.
Em liminar a Corte prorrogou o prazo do repasse de R$ 3,5 bilhões determinados pelo parlamento para que estados e municípios garantam o acesso à Internet à rede pública de ensino durante a pandemia.
Para o ministro relator da matéria, Dias Toffoli, “a análise dos autos revela uma série de questões constitucionais complexas, que serão futuramente analisadas com mais profundidade”.
Diante dos movimentos de Bolsonaro contra a destinação de verbas para equipar as escolas, a União dos Estudantes do Brasil (UNE), parlamentares e educadores se manifestaram.
“Os beneficiados seriam os estudantes e professores da rede. Conectividade agora é essencial para minimizar o impacto da pandemia na educação de milhares de crianças. É absurda a forma como esse governo trata os brasileiros. Não aceitaremos, vai ter muita luta”, disse a UNE em nota.
A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), protestou: “Não se ouse dizer que este sujeito defende a educação. Não basta o genocídio e ataque às políticas públicas que Bolsonaro promove, ainda briga na Justiça para não dar internet a alunos de escola pública. Durante a pandemia ainda por cima. É um completo absurdo”.
Para Daniel Cara, integrante da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, “a pandemia revelou o que sempre soubemos: educação sempre foi escanteada. A falta de acesso à Internet e a demora para realizar a conectividade é mais uma forma de demonstrar a falta de prioridade orçamentária dada à educação”.
Em reportagem, do Extra Classe publicada em maio deste ano, constatou-se que resultado da situação de fome em lares com crianças e jovens, é direto e que na pandemia isso também se agravou, uma vez que as crianças que não tem acesso à internet e escola, são as mesmas que não tem acesso à alimentação, muitas vezes ferita nas escolas públicas.
Na ocasião, a Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) de Porto Alegre identificou 1.110 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil nas ruas da cidade no final de 2020, especialmente vendendo mercadorias em sinaleiras ou coletando material reciclável. Uma forma de elevar a renda e driblar a perspectiva da fome.
Dessas, 300 exerciam atividades na rua pela primeira vez. As 12 equipes do Serviço de Abordagem Social/Ação Rua, que fazem a busca ativa de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, tiveram de ser reativadas pela FASC. Elas haviam sido suspensas por falta de demanda.
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