Intolerância religiosa e étnico-raciais em escola de Porto Alegre

Duas mães se manifestaram contrárias à participação de suas filhas na aula sempre que as referidas temáticas forem trabalhadas. CME diz que não há irregularidade no trabalho realizado pelo colégio

Não cabe às mães ou às famílias determinarem o conteúdo escolar, destaca a presidente do Conselho Municipal de Educação, Isabel Letícia Pedroso de Medeiros.

Foto: Igor Sperotto

A diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Migrantes, de Porto Alegre (RS), Ana Paula Araújo, conta que ela e a Orientadora Educacional realizaram um projeto de trabalho em uma turma com aluna com identidade de gênero diferente da dominante, com o objetivo de evitar discriminação e conflitos. Na mesma turma, outra professora tem trabalhado a diversidade da cultura religiosa, e dentre os aspectos pesquisados pelos alunos, foram abordadas as religiões de matriz africana. “Duas mães se manifestaram contrárias à participação de suas filhas na aula sempre que as referidas temáticas forem trabalhadas. Alegaram, principalmente, que as questões religiosas deveriam ser abordadas exclusivamente a partir de uma perspectiva bíblica, desconsiderando outras possibilidades”, relata Ana Paula.

A direção da escola recorreu ao Conselho Municipal de Educação (CME/POA), que ainda na sexta-feira, 22, emitiu o Parecer n.º 42.2019 consulta EMEF Migrantes enviado à EMEF Migrantes e a toda rede municipal de ensino de Porto Alegre. Com base nas considerações de mérito expressas no parecer, a Comissão Especial responsável pelo parecer assegura que não há irregularidade no trabalho que vem sendo feito junto às crianças da turma em relação à educação étnico-racial e à educação de gênero, já que esta é uma abordagem que deve perpassar todo o currículo do ensino fundamental.

“Não cabe às mães ou às famílias determinarem o conteúdo escolar”, destaca a presidente do Conselho, Isabel Letícia Pedroso de Medeiros. “Na educação não pode haver privilégio para nenhum credo religioso. São trabalhados as diferentes culturas, nas quais as religiões estão inseridas. A escola não é um espaço de catequese de determinada religião, tampouco um shopping ou um mercado onde se escolhem alguns produtos em detrimento de outros”.

O parecer do Conselho Municipal de Educação de Porto Alegre, dentre outras coisas, destaca que, com o fortalecimento da educação em direitos humanos no Brasil, muitos dispositivos para proteger e promover esses direitos foram adotados, entre eles, estão a educação das relações étnico-raciais; a educação escolar quilombola; a educação escolar indígena; as temáticas de identidade de gênero e orientação sexual na educação e a inclusão educacional das pessoas com deficiência, ou seja, “a implementação dos direitos humanos de forma geral no sistema de ensino brasileiro”(Parecer CNE/CEB n.º 8/2012).

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