Excesso de trabalho extraclasse denunciado em todo o país

Campanha alerta para o descumprimento do direito ao descanso dos professores do ensino privado
Domingo de Greve no Parque da Redenção em Porto Alegre

Domingo de Greve no Parque da Redenção em Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

O dia 20 de outubro, domingo, foi marcado por manifestação de professores do ensino privado em várias regiões do país. Lançada pela Confederação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), a campanha Domingo de Greve Nacional denuncia o excesso de trabalho extraclasse a que os professores são submetidos fora da carga horária contratada, realizado à noite, nos finais de semana e feriados.

A mobilização contou, entre outras cidades, com manifestações em Maceió (AL), na orla marítima; em Campinas (SP), na Lagoa do Taquaral; em Brasília (DF), no Parque da Cidade; em Juiz de Fora (MG), no Museu Mariano Procópio; em Chapecó (SC), na Avenida Getúlio Vargas; em Xanxerê (SC), na Praça Tiradentes a partir de 15h; e em São Miguel do Oeste (SC), na Praça Walnir Bottaro Daniel; em Itajaí (SC), na Praça Genério Miranda Lins; em Porto Alegre (RS), no Parque da Redenção.

Domingo de Greve Nacional foi inspirado no Domingo de Greve realizado pelo Sinpro/RS em 2011, que teve ampla repercussão. “A luta pela regulamentação do trabalho extraclasse no ensino privado tem várias frentes”, explica Cecília Farias, diretora do Sinpro/RS. “Esta campanha é uma denúncia pública. É preciso que a sociedade brasileira compreenda o que se passa no ensino privado e que o adoecimento dos professores está vinculado diretamente ao excesso de trabalho”.

Desafio do limite e o excesso

No Rio Grande do Sul, o Domingo de Greve foi precedido pela 2ª Semana da Consciência Profissional, realizada pelo Sinpro/RS, de 15 a 18 de outubro, nas instituições de ensino, e que debateu com os professores sobre a importância do direito ao descanso, ao lazer, ao não trabalho e ao tempo livre, bem como a necessidade de impor limites às demandas das instituições de ensino.

“Os professores receberam muito bem a discussão. Muitos deles, no entanto, disseram que não se sentem seguros em dizer não às demandas extraclasses, pois têm medo de perder o emprego”, relata Maria Lúcia Coelho Corrêa, diretora do Sinpro/RS – Regional Santa Maria.

Segundo Cássio Bessa, diretor do Sindicato, a diversidade das instituições no ensino privado é muito grande.

“Para se ter uma ideia, em algumas escolas as direções e gestores nunca entraram na sala dos professores em respeito à privacidade dos profissionais. No entanto, em outras, o cerceamento é constrangedor. Tem escola que chegou ao cúmulo de colocar câmera de vigilância nas salas dos professores”.

Para a direção do Sindicato, o debate, a denúncia pública e demais ações do Sindicato já estão sinalizando uma pequena mudança na cultura.

“O envio da Notificação Recomendatória (NR) pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), em 2011, alertando para o direito ao descanso dos professores, fez com que muitas instituições de ensino passassem a ser mais comedidas no encaminhamento de demandas extraclasse”.

Na sexta-feira, 18, em reunião com o procurador-chefe substituto do MPT, Rogério Uzun Fleischmann, o Sinpro/RS apresentou a campanha e solicitou que o MPT enviasse novamente a NR para todas as instituições de ensino.

Não ao trabalho no domingo

Marcos Fuhr*

As comemorações e homenagens aos professores, por ocasião do seu dia em meados de outubro, tem motivado o Sinpro/RS a realizar a Semana da Consciência Profissional, coroada neste ano pelo Domingo de Greve, desta vez com caráter nacional.

A iniciativa tem o propósito de provocar a reflexão e a manifestação da categoria sobre a sua condição profissional e pessoal, no local de trabalho, na sala dos professores das próprias escolas.

Projeto ousado, sem dúvida, que exige disciplina do animador, o representante do Sindicato, e, é claro, muita criatividade e insistência para a superação do medo ou no mínimo do constrangimento que a presença ostensiva das direções/coordenações geralmente impõe.

Salvo honrosas exceções, a sala dos professores é muito bem vigiada, especialmente nas ocasiões de visitas dos representantes do Sindicato.

O foco deste ano foi a atividade extraclasse e o desafio de dizer “não” aos seus excessos – o que oportunizou, mais uma vez, que os professores confirmassem a gravidade do problema.

Superando os constrangimentos e o medo, com criatividade e às vezes com fina ironia, uma parte dos professores conseguiu falar da dificuldade de dizer “não” e, especialmente, sempre com o apoio de todos, da necessidade de um “não” a demandas que, além de não serem pagas, comprometem o descanso, a saúde e a convivência familiar.

Operação difícil para o Sindicato, na medida em que se trata de levar a luta, geralmente externa às escolas, de volta ao local de trabalho, mais difícil ainda para os professores pelas superações necessárias.

Iniciativa e experiência gratificantes na luta de resistência do Sindicato e dos professores ao atropelo do direito de descansar e pela regulamentação da atividade extraclasse.

Greve de Domingo desta vez se espraiou pelo país, realizando seu potencial pelo inusitado da proposta: não trabalhar no domingo, o que mais uma vez chamou a atenção da sociedade para a dura realidade dos professores do ensino privado.

Ambas as iniciativas, Semana da Consciência Profissional e Domingo de Greve, complementares na sua essência, cumpriram a função de mobilizar os professores, alertar a sociedade e pautar a necessidade de um novo padrão contratual no ensino privado que inclua, na carga horária contratada, as atividades extraclasse que, inerentes à função docente, não podem continuar representando uma jornada de trabalho sem remuneração.

*Diretor do Sinpro/RS

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