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Os grupos atingiram grau elevado de organização nos presídios com loteamento das galerias e as disputas foram transferidas para as ruas
Foto: Sidinei Brzuska/ Vara de Execuções Penais/ Divulgação
Menos de quatro meses após uma sequência de homicídios em meio a uma disputa entre duas facções criminosas, Porto Alegre volta a enfrentar uma nova onda de violência. Desta vez, com o uso de antigos métodos que incluem requintes de crueldade somados à utilização de armas e artefatos de guerra.
A guerra atual, de acordo com autoridades da área da Segurança Pública, é uma sequência da onda de violência que, entre março e abril deste ano deixou cerca de 30 mortos, incluindo inocentes.
Trata-se de uma disputa entre a facção Os Manos, criada nos presídios nos anos 1990, e a novata V7, que teve origem na Vila Cruzeiro do Sul, na zona Sul da cidade, na década passada. O motivo seria uma dívida da segunda com a primeira, cujo valor especulado varia de R$ 600 mil a R$ 2 milhões. Como na disputa anterior, o terror é espalhado por pelo menos duas dezenas de bairros, em territórios dominados pelos grupos.
Em uma demonstração de extrema audácia, na madrugada do dia 5 de setembro os V7 tentaram um atentado a granada a um condomínio popular localizado na Avenida Princesa Isabel, no bairro Azenha. Como o pino não foi acionado, o artefato não explodiu.
O condomínio já há algum tempo aparece em noticiários. Em 2015, a Justiça determinou a remoção de um grafite que decorava a parede lateral de um dos prédios com uma homenagem a um traficante assassinado meses antes e ligado aos Manos. O conjunto residencial está localizado a 350 metros do Palácio da Polícia, principal sede da Polícia Civil gaúcha.
A suspeita da Polícia Civil é de que a tentativa de atentado tenha ligação com um ataque a tiros que, na noite do dia 4, deixou dois mortos e 23 feridos em um bar na zona sul da cidade.
Os órgãos de segurança, com policiamento ostensivo, preventivo e investigativo, a cada vez que a violência recrudesce, adotam medidas para coibir os atos dos grupos criminosos. No entanto, as facções buscam mutações na forma de agir para driblar o policiamento e a repressão.
Previsões pessimistas apontam uma piora na situação. Em recentes entrevistas, autoridades do centro do país admitiram que os decretos presidenciais que facilitaram a aquisição de armas, inclusive de algumas até então de uso restrito às polícias e às Forças Armadas, estão contribuindo também com as facções.
Especialista no combate ao crime organizado, o promotor paulista Lincoln Gakiya diz que a nova situação barateou em até 65% os preços das armas para facções, como a maior do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Se antes tinham que pagar pelos custos e riscos do contrabando, agora, de acordo com o promotor, adquirem armas com registro e nota fiscal, por meio de “laranjas”.
As batalhas entre grupos organizados em torno do tráfico de drogas são antigas em Porto Alegre e na Região Metropolitana. O início foi no sistema penitenciário, no final dos anos 1990, quando as facções Os Manos, Os Brasas e Os Abertos disputavam o domínio das principais e maiores prisões.
Na primeira década do século atual, os grupos atingiram um grau mais elevado de organização nos presídios, cujas celas e galerias foram loteadas entre eles. Em compensação, as disputas foram transferidas para as ruas.
O ápice foi nos anos de 2016 e 2017, quando Porto Alegre e outras cidades da Região Metropolitana foram inseridas entre as mais violentas do país. Daquela vez, decapitações e esquartejamentos viraram fatos corriqueiros, principalmente na rivalidade entre a facção dos Bala na Cara e a coalizão Antibala. O método parece ter voltado à pauta, na atual guerra entre Os Manos e os V7.
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