Crônica
Achacinato
Cláudio Castro escalou um elenco de 2.500 charles bronsons para protagonizar seu particular ‘Desejo de…
Em longínquos tempos, cavernosos, as palavras eram primitivas, ainda não tinham sido domesticadas. Havia poucas raças de palavras e sua serventia não dava conta das necessidades de expressão do povo daquela época.
É que as palavras eram como bichos: viviam urrando, rosnando, uivando, ferozes e raivosas, sem controle nenhum, mandíbulas exibindo vocábulos pontiagudos diante de qualquer interlocutor. As palavras mordiam o ar.
Mas a vida não podia continuar assim, selvagem.
Havia eras que o povo queria dizer a que veio mas o máximo de brandura que saía das goelas eram grunhidos guturais. Diálogos viravam carnificina verbal e até monólogos podiam ferir o resmungão.
Algo precisava ser feito, alguém tinha que adestrar o repertório furioso.
As tribos se organizaram e para adestrador apontaram um que falava pouco e nunca soava alterado. O encontro, aliás, só foi bem-sucedido porque ele soube controlar a ferocidade da turba que rugia por palavras suaves.
O homem saiu a campo e reuniu num curral isolado tudo que gritavam e berravam, expressões animalescas, locuções indomáveis. Um alarido assustador que só o homem, bom falante, podia conter.
Em meio às ameaçadoras palavras, havia algumas menos agressivas. Ele as separou, levou-as como pares para uma experiência, e as deixou acasalar oralmente. Não levou muito tempo e as palavras começaram a procriar palavrinhas mansas. E o homem continuou a repetir a mestiçagem, aperfeiçoando novas linhagens da linguagem.
Logo a tribo ganhou famílias de palavras inéditas, que podiam se manifestar calmamente e deram origem às palavras sábias, como as conhecemos. Dessa época surgiram as raças que servem de guarda às outras, como dignidade e responsabilidade.
Outras matilhas de palavras pouco mudaram, continuaram arreganhando os dentes até em conversa: são as que ainda hoje servem para resguardar o espaço de cada um, manter os medos afastados.
As tribos adoraram o palavrório cordial: os termos agora tinham diferentes pelagens e tamanhos, variavam de timbre, e, amestrados de boca em boca, eram capazes de argumentar, explanar e conceituar.
Comparados com as matrizes, eram bichos razoáveis, nem pareciam descendentes das sílabas estúpidas. E os discípulos do homem percorriam outros lugares, tornando as palavras coloquiais, que geravam outras delicadas. Um deles já as treinava para filosofar!
Foi um bom trabalho, a poesia é a prova. Mas a genética é incontrolável.
A mordacidade continua.