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Nunca se mente tanto quanto como antes de uma eleição, durante um governo e depois de uma pescaria. A piada é atribuída ao estadista prussiano Otto von Bismark, o principal artífice da unificação alemã, em 1870. Não está distante da máxima proferida por Emília, a boneca de pano que vira uma menina com a língua afiada nos livros infantis de Monteiro Lobato: “A mentira é uma verdade tão bem contada que todo o mundo acredita”. A fronteira entre o verdadeiro e o falso está cada vez mais tênue, como demonstra o espetáculo em que se transformou a cobertura da campanha eleitoral feita pela mídia impressa e eletrônica do país.
Em vez da divulgação de projetos e idéias dos candidatos, o país assiste à pirotecnia de personagens que surgem do nada e desaparecem instantaneamente. São conduzidos ao centro do palco e depois esfolados sob os holofotes. O caso da governadora do Maranhão Roseana Sarney é gritante. Ela ganhou projeção graças à imagem de bonita, simpática e competente, propagada aos quatro ventos pelos mesmos veículos que, agora, levantam a tampa da corrupção que a cerca. Ufa! O país foi alertado a tempo do risco de alçar ao poder um novo Collor e outro PC Farias – Roseana e o marido Jorge Murad. Mas por que tudo só veio a público após a definição do candidato oficial do governo, José Serra, cujas chances de sucesso nas urnas dependem diretamente do fracasso da governadora?
E, afinal, qual é a verdadeira Roseana? A mulher que estava fadada a administrar o país com graça, charme e elegância? Ou a personalidade envolvida em escândalos como o desvio de recursos da Sudam? “Os meios de comunicação fabricam fantasias, ilusões, miragens. O poder da imagem e da informação oblitera a memória”, afirma Álvaro de Aquino Gullo, professor de Sociologia da Comunicação de Massa da USP. Ele compara a cobertura eleitoral aos programas de televisão Big Brother (Rede Globo) e Casa dos Artistas (SBT), nos quais o público tem direito de escolher quem será alijado da disputa por um prêmio milionário, em meio a um jogo de intrigas. “O voto é manipulado em ambos os casos. Tanto o eleitor quanto o espectador embarcam na emoção, uma vez que a mídia trabalha com mecanismos de identificação e projeção e veta a capacidade de reflexão do indivíduo.”