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Antônio Torres, escritor, 62 anos, baiano de Junco (atual Sátiro Dias), desembarca em Porto Alegre no dia 9 de novembro para comemorar seus 30 anos de literatura; relançará seu primeiro romance na 48ª Feira do Livro. Antes de desenvolver o ofício de escritor, foi jornalista e publicitário. Viveu por três anos em Portugal e atualmente mora no Rio de Janeiro com a esposa, Sonia Torres, doutora em Literatura Comparada e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), e os filhos, Gabriel e Tiago. Seu primeiro livro, Um cão uivando para a Lua, causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo, Os Homens dos Pés Redondos, confirmou sua permanência no cenário literário brasileiro. Mas foi com Essa Terra, 1976, que veio o reconhecimento dentro e fora do país. A narrativa possui claras alusões autobiográficas, abordando a questão do êxodo rural de nordestinos. Considerada uma obra-prima da literatura brasileira dos anos 70, Essa Terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Holanda, onde a imprensa local o coloca ao lado de Jorge Amado e Guimarães Rosa. Em 2001 a Editora Record lançou uma reedição comemorativa (25 anos) de Essa Terra. Ele também passeia com a mesma desenvoltura por cenários rurais e urbanos, como em Um táxi para Viena d’Áustria, de 1991. Em 1998 foi condecorado pelo governo francês, como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França. E ganhou o Prêmio Machado de Assis 2000, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra. Em seu novo romance, Meu Querido Canibal (Editora Record 2000), Torres conta a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Com este romance ganha o Zaffari/Bourbon, maior prêmio literário do país, R$100 mil, dividido com o escritor catarinense Salim Miguel (NUR na Escuridão), promovido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo.
Extra Classe – O senhor completa 30 anos de literatura este ano. O que mudou do autor de Um cão uivando para lua e o que escreveu Meu querido canibal?
Antônio Torres – Basicamente a idade (risos). Fiquei mais velho.
EC – E o que significa ficar mais velho como escritor? Qual a sua visão de si mesmo a esse respeito?
Torres – Para alguns a gente melhora e para outros piora. Há quem ache que o meu melhor livro foi a minha obra de estréia ou até mesmo o de maior repercussão (referindo-se à Essa Terra, que obteve repercussão nacional e internacional). Coisa que discordo. Acho que venho progredindo como escritor. Confesso que tenho uma certa saudade daqueles tempos, quando escrever um livro era apenas isso. Não tinha a mínima noção do que era o mercado editorial, crítica, dar entrevistas, fazer palestras. Eu era apenas alguém tentando fazer um livro. Algo que havia construído durante meus trinta primeiros anos de vida, desde o nascimento.
EC – Entre suas obras, Essa Terra ocupa um lugar de destaque, por ter sido o mais traduzido, de maior vendagem. O que ela representa para o senhor?
Torres – Olha, fica difícil de dizer… trata-se de um livro que representou a minha maturidade aos trinta e poucos anos. Apesar de ser um livro magro, precisei escrever muito e muito cortar para conseguir a síntese desejada nele. Foi com ele que amadureci como escritor e obtive um reconhecimento inédito na minha carreira. Nele desenvolvi uma técnica de fabulação que me agrada muito e que mantive em outras obras. E o curioso é que logo depois escrevi um livro de que gosto muito que se chama Carta ao Bispo, que foi muito bem escrito e elogiado pela crítica, mas não correspondeu em público. Depois o inverso com Mateus Velho, que não obteve crítica uniforme, porém rendeu quatro edições. Com Balada da Infância Perdida a aceitação do público foi apenas boa. Então dá para dizer que Essa Terra foi e é muito importante, até mesmo para despertar interesse no restante de minha obra, que, por sinal está sendo toda ela republicada.
EC – Em Essa Terra o senhor conta a história de um homem que, depois de 20 anos morando em São Paulo, decide voltar à sua cidade natal, no interior do sertão nordestino. Uma espécie de caminho de volta impossível em que a tragédia é o desfecho de sua análise a respeito do impacto da cidade grande sobre o homem interiorano. Vinte anos depois, voltaria ao tema em Cachorro Louco, de 1997. O senhor não teve medo de se repetir e ficar estigmatizado?
Torres – Tive muito medo, pois Cachorro Louco é Essa Terra revisitado duas décadas depois, porém o que terminava em tragédia no primeiro resulta em encontro no segundo. Pensei que seria acusado de estar recorrendo a um material antigo. Mas ocorreu justamente o contrário, a recepção foi extraordinária. As críticas foram calorosas, inclusive fora do Brasil. O curioso é que parte da crítica estrangeira leu primeiro o Cachorro Louco e só foi conhecer o Essa Terra posteriormente.
EC – A sua satisfação com a obra corresponde às cifras de vendagem ou não necessariamente precisa existir esse vínculo?
Torres – Não existe essa correspondência. É como falei anteriormente.Mas não é possível desprezar a percepção do público e o retorno por meio da aceitação disso que só é medida pela vendagem.
EC – Apesar de já em sua estréia o senhor ter sido aclamado pela crítica como uma revelação e ter mantido este respeito e atenção, além de ter uma sólida carreira internacional, ainda assim não é tão conhecido pelo grande público. A que se deve este fenômeno? O espaço para a boa literatura na imprensa é restrito? Faltam canais de divulgação apropriados para este público?
Torres – Não tenho essa avaliação. Acho que cada livro meu obtém espaço suficiente na mídia para despertar interesse no público que consome literatura. O que ocorre é que muitos autores além de escritores de renome são colunistas de jornal e acabam aparecendo diariamente na imprensa tendo ou não livros lançados. Obviamente se comparado a esses, fico em desvantagem. Mesmo assim, em termos de mercado, essa condição não tem atrapalhado em nada. Pelo contrário os números contrariam essa tese. Se for comparar o espaço que tenho é surpreendente, pois sou apenas um escritor de livros e toda notoriedade que me é atribuída se deve a esse ofício.
EC – Mas o mercado não afeta a produção literária?
Torres – De fato, o mercado tem imposto uma certa diluição. O comportamento dos editores e sua opção por obras de consumo imediato acabam influenciando também no surgimento de obras e autores duvidosos, porém há espaço para a boa literatura e ao que tudo indica continuará havendo. Agora é bem verdade que a literatura é do interesse de poucos e sempre foi assim. O mercado tem se valido de coleções com uma pauta pré estipulada, biografias, livros-reportagem e uma infinidade de gêneros. Porém, a literatura também tem seu espaço nem maior nem menor. Ele existe na medida do interesse de leitores mais qualificados.
EC – Fale sobre o relançamento de sua obra?
Torres – Estou muito feliz, a Editora Record está relançando todos os meus livros e com uma característica visual bem interessante, pois as capas apesar de diferentes, dão uma certa identidade gráfica que nunca tive. É como se a obra completa fizesse parte de uma coleção. Além disso, livros que não tiveram tanta repercussão no passado poderão ser visitados por novos e velhos leitores, o que me deixa muito satisfeito.
EC – E por falar nisso, como o senhor vê o presente e o futuro da literatura brasileira e mundial?
Torres – Eu não sei até que ponto a literatura consegue interferir de fato na realidade. Mas é a literatura que consegue um diálogo direto e único entre escritor e leitor. Há uma troca de experiências que ocorre em um nível de proximidade inigualável tanto em estética como em conteúdo. Talvez só exista mudança possível neste nível. E essa relação transcende o tempo e a realidade imposta do momento. Tem mais a ver com questões que dizem respeito à essência do homem.
Por outro lado, existe toda uma realidade midiática que dita uma objetividade aos novos e velhos escritores. Já não se escrevem os “tijolaços” do século passado, sob o risco de não serem lidos. Somos obrigados a exercitar nossa capacidade de síntese sem perder a essência. Não basta fazer literatura. É necessário se fazer entender. É nesse caminho que acredito andar a literatura nos dias de hoje.
EC – Ao referir-se a O cão uivando para a lua, em 1973, o senhor parafraseou o escritor norte-americano William Faulkner na célebre frase “entre a dor e o nada escolho a dor”. O senhor está relançando na 48ª Feira do Livro de Porto Alegre esta que é sua primeira obra. Essa máxima da Faulkner ainda é referência para o senhor depois de 30 anos?
Torres – Bem, essa é a epigrafe que dá início ao meu primeiro livro. Eu acho que, de alguma maneira, eu tenho sido coerente com ela ao longo dos anos, pois é mais ou menos a escolha entre fazer um texto para um outdoor e fazer um texto sobre o que está por traz deste outdoor. Obviamente fiz a última opção. Aí voltamos a escolha pela literatura e não por textos banais.
EC – O senhor já recebeu pelo menos quatro importantes prêmios recentes, o Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras), o de Cavaleiro das Artes e das Letras, na França e o maior prêmio em dinheiro para literatura brasileira o Zafafri/Bourbon, na 9ªJornada Nacional de Literatura de 2001. Qual a importância simbólica de cada um desses prêmios?
Torres – O prêmio da academia significou, além do reconhecimento pelo conjunto da obra, pelo qual fico muito grato, uma certa quantia em dinheiro, que veio em boa hora. Foi o caso também do Zaffari/Bourbon, porém esse serviu também para dar destaque a Querido Canibal, então recém-lançado. Prêmios sempre são positivos, pois estimulam o escritor. O prêmio francês foi por Essa Terra e Um Táxi para Viena e também geraram noticia lá e aqui, provocando nos leitores a curiosidade sobre os trabalhos. Basicamente os prêmios servem para chamar a atenção sobre autores e obras.
EC – Como o senhor vê o papel da Academia Brasileira de Letras no cenário da literatura no Brasil, hoje?
Torres – Ela mudou um pouco, principalmente depois da gestão da Nélida Pignon. Embora isso não apareça para o resto da país, no Rio de Janeiro ela é muito importante na promoção de eventos que promovem a literatura. Mas no fim o que aparece nos noticiários são as eleições polêmicas de seus membros. Além disso a grande maioria dos que integram a academia são senhores e senhoras inquestionáveis quanto ao seu valor no ofício de escrever. Claro que tem algumas coisas que a gente vê e discorda. Mas isso é um problema interno lá deles.
EC – O que lhe influenciou e o que lhe interessa em literatura hoje, como leitor?
Torres – Li de tudo. De almanaque Capivarol e bulas de remédio a James Joyce. Sou de uma geração que começou a ler muito cedo. Comecei por Monteiro Lobato e Erico Verissimo. De Erico li praticamente tudo: de Clarissa a O Continente. Depois cheguei aos contistas norte-americanos William Faulkner, Scott Fistgerald, Ernest Haminguay, que me marcaram muito. Entre os brasileiros teve Clarice Lispector, Guimarães Rosa e todos os meus contemporâneos. Nos líamos muito uns aos outros. Existe hoje essa geração de escritores surgidos na década de 90 que são muito interessantes.
EC – Em Meu Querido Canibal o senhor aborda um viés bastante interessante do confronto entre as civilizações indígena e européia, afinal os índios só se deram conta que eram índios quando chegaram os brancos. O senhor poderia comentar…
Torres – Foi um encontro tumultuado que acabou trágico e gerou também muitos mitos de ambos os lados. Os índios estavam acostumados a viver do seu modo sem saber da existência de outra forma de cultura. Com a chegada dos brancos, mudam as regras, a economia, tudo. No fundo o índio pagou o pato das necessidades imperialistas européias.
EC – Existe uma metáfora com os choques entre culturas do mundo moderno?
Torres – É exatamente isso. Ao contar uma história de intolerância com as diferenças no século XVI, sob o olhar do nosso tempo, se estabelece um paralelo obrigatório e intencional. E fica a constatação de que, no fim quem ganhou a guerra foi a Coca-Cola. A diferença é que hoje o confronto é muito mais ardiloso. Já não são os espelhinhos que são oferecidos, mas conceitos agregados ao consumo e as supostas vantagens que isso possa oferecer. Isso vai desde a alta tecnologia, às roupas de grife e ao estilo de vida do homem moderno.
EC – Alguns desses confrontos acabam tendo conseqüências trágicas ao redor do mundo. Que respostas a Literatura pode dar a isso?
Torres – Isso surge quando uma cultura se julga superior à outra. Se essa cultura for hegemônica, tanto pior, pois tentará esmagar a outra. É o limite da não aceitação da diferença e esse é o problema mais grave de todos os tempos. Acaba não havendo espaço para a diversidade. Não se trata apenas de diferenças religiosas. Isso sempre existiu. Trata-se de um duelo em que quem tem menos sofre mais. O que literatura a pode fazer eu não sei. Não sei se ela muda alguma coisa, mas mal não pode fazer. Além disso, tem a capacidade de proporcionar ao homem um melhor entendimento de si mesmo para que possa interpretar e agir diante dessa realidade.
EC – E o próximo livro?
Torres – O meu próximo livro será sobre a estada de René, o Corsário, que seqüestrou a população do Rio de Janeiro, em troca de resgate. René de Villé Gagnnon, que navegava pelo Rei Luiz XIV, que fez de reféns 50 mil pessoas, toda a cidade. O livro fala deste período. Ao contrário de Querido Canibal, que, devido ao fato de os índios não terem escrita a história do líder Cunhambembe, o líder dos índios pode ter as lacunas históricas preenchidas com ficção, o material agora é farto. Há muito material de pesquisa e apesar de já ter concluído três capítulos, tento não ficar preso pela riqueza de referências e documentos. É um desafio bastante grande, pois não se trata de um livro de história. É ficção sobre fatos reais. E o paralelo proposto é evidente. O Rio se encontra sequestrado novamente.