Crônica
Achacinato
Cláudio Castro escalou um elenco de 2.500 charles bronsons para protagonizar seu particular ‘Desejo de…
Localizado no imaginário centro da Galáxia de Gutenberg, Loquaz apresenta mais crateras que qualquer outro corpo interplanetário. E asteróides e meteoritos não são a causa da superfície esburacada: ele foi escalavrado por descomunais escavadeiras e perfuratrizes, que o exploram da crosta à s profundezas. É que, na sua singular geologia, Loquaz oferece abundante matéria-prima, a mais rara em meio ao silencioso vácuo estelar: palavras.
Suas expressivas reservas vocabulares – estimadas em quarquiquantiquilhões de toneladas de palavras – têm elevado teor de inteligibilidade. Não há pobreza de linguagem, é como se o planeta inteiro fosse composto por metais nobres.
Tais jazidas provocam suspiros em linguistas internacionais.
O astro sem luz própria cintila de possibilidades: lá existem, como os elementos aqui na Terra, montanhas de verbos, vales com intermináveis veios de substantivos e adjetivos, planícies sem fim de preposições, advérbios, conjunções. As sondagens confirmam até um pré-sal, rico em locuções. Tudo em estado quase lapidar: a partir de um punhado do solo, se consegue o suficiente de palavras para um bom livro, diálogos proveitosos na ONU, aulas de todo tipo.
O peculiar, nesse dadivoso planeta, é a morfologia do solo, que ajusta a sua sintaxe à necessidade de expressão: misturam-se porções extraídas de diferentes minas, instruem-se as máquinas e o amálgama ocorre sem precipitações. Entram palavras soltas de um lado e saem textos fluentes do outro, para uso escrito ou oral. Tudo criativo, sem equívocos, como há muito não se lia e ouvia aqui na Terra.
A partir dos entusiasmantes testes em Loquaz, a esperança tomou conta da vida na Terra: seria a derradeira chance de entendimento entre os terrestres? Afinal, bastaria um fornecimento regular de melhores palavras e já não faltariam argumentos entre os povos, a harmonia mundial viria naturalmente. Também afetaria a produção cultural dos terráqueos, pois escritores, dramaturgos, roteiristas, poetas, até cronistas tipo eu, não poderiam mais se queixar de escassez de vocabulário.
O problema é que a humanidade não cala a boca.
Assim que os gigantescos cargueiros espaciais atracaram, todo o estoque foi logo contaminado pelo vírus da comunicação atual. Num ataque fulminante de logorreia e verborragia, tudo se esvaiu numa súbita explosão de algazarra bizarra, alarido sem sentido pra todo lado.
Agora, tal e qual Saturno, a Terra já tem um anel ao seu redor. É a loquacidade.