Educação
Começam as negociações coletivas da educação básica e superior
Nas tratativas com o Sinepe/RS e Sindiman/RS, está a renovação de quatro Convenções Coletivas, com…

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Em um país que assiste, quase diariamente, a novos casos de violência contra mulheres, torna-se cada vez mais urgente compreender onde essa violência começa. Antes de se manifestar de forma extrema, ela costuma ser construída dentro das relações cotidianas, nos modos de educar (principalmente os meninos), nos vínculos familiares frágeis, nos silêncios, nas hierarquias naturalizadas e na incapacidade de lidar com conflitos sem recorrer à força.
Foto: Acervo PessoalÉ a partir desse ponto de origem que o professor e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira desenvolve sua reflexão. Especialista em saúde mental e emocional de crianças, adolescentes e jovens, docente da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Núcleo do Cuidado Humano e do Grupo de Estudos de Transdisciplinaridade da Infância e da Juventude (GETIJ), Hugo é autor de obras de referência sobre infância, juventude e família no Brasil contemporâneo.
Após a repercussão de A geração do quarto (Record), livro que segue para sua 11ª edição, ele lançou em outubro o Agora o meu chão são as nuvens – As famílias contemporâneas e os desafios na educação de crianças e adolescentes (Autêntica). Na obra, o autor propõe um olhar direto para dentro das casas, mostrando como a violência intrafamiliar — que inclui agressões físicas, mas também negligência, abandono afetivo e indiferença — atravessa o cotidiano de muitas famílias e marca profundamente o desenvolvimento emocional das novas gerações.
Nesta entrevista ao Extra Classe, Hugo Monteiro Ferreira reflete sobre os desafios de educar crianças e adolescentes em tempos de incerteza, propõe caminhos baseados no afeto e no diálogo e defende a urgência de transformar a família e a escola em espaços de proteção, escuta e responsabilidade compartilhada.
Extra Classe – Para você, o “chão” da educação tornou-se uma espécie de “nuvem”, volátil e imprevisível. De que forma essa instabilidade, somada à crise do modelo tradicional de masculinidade, tem dificultado a formação de meninos emocionalmente equilibrados, contribuindo para a violência que, em casos extremos, leva ao feminicídio?
Hugo Monteiro Ferreira – De certo modo, nós que vivemos o final do século 20 herdamos a desconstrução de um mundo baseado em certezas muito rígidas. A escola, durante muito tempo, foi organizada para ensinar o certo e o errado de forma binária, preparando crianças e jovens para um mundo regular, previsível, quase matemático, em que 2 + 2 são 4. Esse modelo começou a não dar mais conta da realidade social. A sociedade passou a apresentar comportamentos, sentimentos e formas de existir que essa lógica binária não conseguia explicar nem acolher. A escola percebeu que o chão que parecia firme não era tão sólido assim — era um chão instável, um “chão de nuvens”.
“A escola percebeu que o chão que parecia firme não era tão
sólido assim — era um chão instável, um ‘chão de nuvens’ ”
EC – E quais são as consequências disso para os meninos, que crescem nesse cenário de incertezas?
Hugo Monteiro – Ao mesmo tempo, surgem fenômenos novos e muito impactantes: o avanço das tecnologias digitais, a presença massiva das redes sociais na vida de crianças e adolescentes e o crescimento expressivo dos problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e comportamentos autodestrutivos. A escola se dá conta de que não basta trabalhar apenas o cognitivo; é preciso lidar com o emocional, mas ela não foi preparada para isso. Nesse cenário de incerteza, há um descompasso muito forte entre as transformações vividas pelas meninas e a permanência de modelos tradicionais de masculinidade entre os meninos. Enquanto os movimentos feministas ampliaram o empoderamento feminino, muitos meninos continuam sendo educados sob uma lógica patriarcal: não podem chorar, não podem ser vulneráveis, precisam dominar, controlar e impor poder. Esse modelo entra em choque com uma realidade em que as mulheres não aceitam mais a submissão. Para alguns homens e jovens, especialmente aqueles influenciados por grupos masculinistas nas redes sociais, isso é vivido como ameaça. Esses discursos, que circulam intensamente no ambiente digital, reforçam a ideia de que a mulher deve ser controlada ou eliminada quando não obedece.
Portanto, a combinação entre um mundo educacional instável, a ausência de trabalho emocional consistente e a reprodução de masculinidades violentas cria um terreno fértil para comportamentos agressivos. Em casos extremos, essa lógica do “tudo ou nada” se expressa na violência contra as mulheres e no feminicídio.
EC – O livro defende explicitamente uma “educação feminista para meninos”. Na prática, como famílias e escolas podem implementar essa pedagogia para enfrentar o machismo estrutural — raiz da violência de gênero — sem cair em polarizações ideológicas?
Hugo Monteiro – Essa é uma pergunta central. O ponto de partida é trabalhar a equidade de gênero de forma intransigente: meninas e meninos têm os mesmos direitos. A escola não pode naturalizar desigualdades nem limitar escolhas pelo gênero. Isso se faz nas práticas pedagógicas do cotidiano, com literatura, filmes, documentários, debates, temas de redação e atividades que estimulem a reflexão crítica. Também é fundamental investir em trabalhos colaborativos, reduzindo a lógica da competição, para criar uma ambiência de respeito de gênero. Essa ambiência inclui todas as identidades — não só meninas e meninos cis, mas também crianças e adolescentes trans.
EC – E a escola no meio disso?
Hugo Monteiro – A escola precisa se revisitar, ajustar seu projeto político-pedagógico e cumprir o que a legislação já determina, da Constituição à LDB e à BNCC. Não discutir gênero é, na prática, descumprir a lei. Educar meninos nessa perspectiva é mostrar que meninas não são inferiores, mas também permitir que eles reconheçam suas vulnerabilidades, emoções e limites. Isso não é perda, é ganho. Para isso, professores precisam de formação continuada, porque o machismo é estrutural e atravessa a cultura escolar. Quando a escola materializa esses princípios no dia a dia, ela contribui para desmontar a lógica da dominação que sustenta a violência de gênero.

Foto: Arquivo/Agência Brasil
“O centro de tudo é o que Paulo Freire chamou de amorosidade: o amor colocado no cotidiano, na prática. Amor aqui é cuidado. É estar atento ao outro, ao que a criança pensa, sente e vive”
EC – Sua proposta de “novo chão” para a educação se apoia no diálogo, na amorosidade e na escuta sensível. Como esses pilares podem ser usados, dentro de casa, para que pais e mães identifiquem e desconstruam, desde cedo, comportamentos e crenças machistas?
Hugo Monteiro – O centro de tudo é o que Paulo Freire chamou de amorosidade: o amor colocado no cotidiano, na prática. Amor aqui é cuidado. É estar atento ao outro, ao que a criança pensa, sente e vive. Pais e mães precisam conhecer o universo dos filhos, suas referências culturais, o que eles escutam, assistem e com quem convivem.
Isso exige uma casa que não seja adultocêntrica. Crianças e adolescentes precisam ser incluídos nas decisões, nas tarefas e nas conversas do dia a dia, para se reconhecerem como sujeitos de direito. Quando eu incluo, eu escuto; e quando escuto, passo a perceber atitudes, valores e sinais que antes não via — inclusive comportamentos machistas que vêm do meio social.
“Uma casa sem violência, com diálogo e cuidado, cria vínculos com a vida. É nesse ambiente que crianças e adolescentes se desenvolvem de forma saudável e aprendem a se relacionar com o outro sem dominação”
EC – E o papel da família neste processo?
Hugo Monteiro – Essa escuta não elimina a autoridade dos pais. Ao contrário: é uma autoridade baseada na orientação, no acompanhamento e na experiência, que dá segurança e referência. Também implica dividir responsabilidades e tarefas, sem reproduzir desigualdades de gênero dentro de casa.
Tudo isso precisa ser atravessado pela amorosidade e pela esperança. Uma casa sem violência, com diálogo e cuidado, cria vínculos com a vida. É nesse ambiente que crianças e adolescentes se desenvolvem de forma saudável e aprendem a se relacionar com o outro sem dominação.
EC – O ambiente digital integra o seu conceito de “chão-nuvem”. Como o consumo de conteúdo online — mediado por algoritmos, grupos de ódio e discursos desumanizantes — contribui para normalizar a misoginia e alimentar a violência contra as mulheres no mundo real?
Hugo Monteiro – Contribui de forma muito intensa porque o masculinismo histórico, essa lógica da dominação masculina, não só migra para o ambiente digital como se potencializa ali. As plataformas operam por algoritmos que acionam respostas neuroquímicas — dopamina, adrenalina, serotonina — e tornam certos conteúdos altamente atraentes e viciantes.
EC – Como este machismo potencializado na web se manifesta na cultura?
Hugo Monteiro – A misoginia e o discurso de ódio não aparecem de forma explícita. Eles vêm embalados em imagens, sons e linguagens palatáveis, muitas vezes percebidos como “normais” ou “engraçados”. O menino, sobretudo na adolescência, é gregário: para pertencer ao grupo, tende a reproduzir o mesmo discurso, sem perceber que está aderindo a um conteúdo violento contra as mulheres.
Isso aparece com frequência na música, nos memes, nos vídeos curtos. Letras abertamente misóginas circulam como entretenimento, inclusive em ambientes escolares, e acabam naturalizadas. No mundo digital, aquilo que seria reprovável no convívio presencial ganha verniz de humor, ironia ou cultura pop. Esse revestimento torna o discurso perigoso, porque banaliza a violência simbólica e ajuda a sustentar, fora da tela, a escalada da violência real.
EC – A escola é um espaço central na desnaturalização dos papéis de gênero, mas tem sido alvo de ataques ao abordar equidade e violência. Qual é a responsabilidade inegociável da escola nesse cenário e como ela pode se afirmar como refúgio da educação feminista e de direitos humanos?
Hugo Monteiro – A escola é, historicamente, uma instituição protetiva. Com todos os seus defeitos, ela foi reorganizada, a partir dos séculos 18 e 19, para apoiar a formação de crianças e adolescentes. Isso aparece de forma clara quando ela acolhe situações de violência sexual, de espancamento ou quando se coloca como contraponto a uma anticultura autoritária, buscando caminhos mais democráticos e respeitosos.
Ao mesmo tempo, a escola também reproduz violências, como o bullying, que é um problema estrutural do ambiente escolar. Por isso, professores e professoras precisam ser protegidos e fortalecidos. Proteger a escola é uma responsabilidade do Estado, das famílias e da sociedade como um todo, porque ela vem sendo atacada por grupos masculinistas, misóginos, racistas e transfóbicos — e não é por acaso que esses ataques, em casos extremos, resultam em violência dentro das próprias escolas.
Fortalecer a escola passa por valorização docente, formação continuada, melhores condições de trabalho e diálogo com a comunidade. A escola precisa ser um espaço reflexivo, aberto ao debate, mas com um limite claro: não há lugar para ideologias que violem direitos humanos. Defender a educação feminista e os direitos humanos é parte da sua função social. Sem isso, a escola se fragiliza; com isso, ela cumpre seu papel de proteção integral e de fortalecimento da democracia.
EC – Diante da urgência do feminicídio, que ações imediatas a figura paterna — e outros homens de referência — deve assumir para quebrar o ciclo da violência e mostrar aos filhos que há outras formas de ser homem além da dominação?
Hugo Monteiro – O primeiro ponto é não abandonar os filhos. Isso é central. Outro aspecto é romper com práticas que naturalizam a violação, como os relacionamentos extraconjugais, mais frequentes entre homens e já amplamente estudados. O pai educa muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. Também é fundamental mostrar que masculinidade saudável não é masculinidade tóxica. Ela é sensível, cuidadosa, reconhece as mulheres como parceiras, inteligentes e autônomas. Não é “ajudar” em casa, é cuidar da casa, participar da rotina, assumir limites, medos, inseguranças e emoções. O pai precisa mostrar que pode ser frágil, porque fragilidade faz parte da condição humana e não tem relação alguma com orientação sexual. Dialogar, escutar, acompanhar a vida dos filhos, criar espaços próprios de convivência e afeto — sem mediação obrigatória da mãe — é decisivo. Esse vínculo não é para falar mal da mãe ou da ex-companheira, mas para crescer junto. Quando o pai se faz presente, afetivo e coerente, ele oferece um outro modelo masculino: potente, mas não bruto; firme, mas não violento. É uma parentalidade cuidadosa, que meninos e meninas precisam para aprender que ser homem não é dominar, é se responsabilizar.

Foto: Acervo Pessoal
“Outro elemento central é a espiritualidade, que não precisa ser religiosa. É o encontro com o sagrado entendido como respeito à vida, ao outro, à natureza, ao espaço que se habita”
EC – Em meio às notícias de violência e morte que marcam o país, o senhor ainda vê esperança na capacidade das famílias na transformação esse cenário?
Hugo Monteiro – Vejo, sim. Vejo por que, quando pais e mães assumem de fato a parentalidade, eles querem o melhor para os filhos. Querem que cresçam, que não sofram, que tenham uma vida melhor do que a deles. Esse desejo é um ponto de partida muito potente. Mesmo com erros e tropeços, quando existe esse compromisso, a família pode se reorganizar coletivamente. Eu costumo dizer que ela vira um “quilombo”: um espaço de proteção, apoio e construção conjunta. Isso aparece de forma concreta quando há humor dentro de casa — porque onde há humor verdadeiro, não há violência. O humor cria conforto, aproxima as pessoas e permite falar de medos e fragilidades.
Outro elemento central é a espiritualidade, que não precisa ser religiosa. É o encontro com o sagrado entendido como respeito à vida, ao outro, à natureza, ao espaço que se habita. Casas atravessadas por esse sentido ético tendem a ser menos violentas do que aquelas marcadas pelo individualismo e pela ausência de diálogo.
Colaboração, divisão de tarefas, convivência coletiva e uma educação feminista — inclusive para os meninos — ajudam a romper padrões machistas, muitas vezes fazendo até os adultos se revisitarem. Há caminhos, há possibilidade e há esperança, desde que isso seja feito de forma coletiva, cuidadosa e comprometida com a vida.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
“Quando um menino é educado, tanto na escola quanto em casa, a respeitar os direitos das meninas, ele aprende também a respeitar a si mesmo”
Foto: Autêntica/Divulgação
EC – Como trabalhar para que meninos e a própria escola (moldada sob o machismo histórico) não sejam omissos diante de situações em que as meninas são muitas vezes expostas e humilhadas?
Hugo Monteiro – É fundamental desenvolver um trabalho contínuo por meio de sessões, rodas de conversa, debates a partir de filmes e leituras de textos literários para abordar a questão da equidade de gênero. Quando se trabalha a equidade de gênero, afirma-se que meninas têm direitos iguais aos meninos e que o fato de ser menina não pode, em hipótese alguma, limitar suas possibilidades. Ninguém deve deixar de fazer algo simplesmente por ser menina.
Nesse processo, é essencial que os meninos se tornem aliados das meninas, e não seus adversários. O menino aliado é aquele que defende os direitos das meninas, compreendendo que, quando elas são tratadas com respeito e dignidade, a qualidade da convivência melhora significativamente para todos. Quando um menino é educado, tanto na escola quanto em casa, a respeitar os direitos das meninas, ele aprende também a respeitar a si mesmo. Ele entende que não se trata de dominar ou de exercer um papel de “protetor”, mas de ser aliado — alguém que apoia, defende e age de forma ética diante de situações de injustiça ou desafio.
A menina protegida simboliza a proteção do coletivo, do grupo, da comunidade como um todo. Por isso, é tão importante fortalecer sempre essa ideia do menino como aliado da menina: uma relação baseada no respeito, na parceria e na construção conjunta de um ambiente mais justo e saudável para todos.
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