Crônica
A outra obra de LFV
Cada artista ergue a Capela Sistina que pode. Michelângelo fez com estuque e tinta. LFV…

Ilustração: Rafael Sica
O clichê: a vida apronta mais roteiros cinematográficos que a arte. O corolário: o dia a dia nacional produz os piores. A evidência: a realidade carioca supera a todos em tragédia e desgraça.
No doloroso e vergonhoso caso do Rio, essa produção ilegal teve, mais uma vez, patrocínio e promoção do Estado: como um poderoso chefão da administração pública, o governador Cláudio Castro concebeu desde a sinopse até o macabro the end.
Escalou um elenco de 2.500 charles bronsons para protagonizar seu particular “Desejo de Matar”. Como figurantes, usou a população da Penha e do Complexo do Alemão. Atribuiu a esmo papéis de “bandidos” a bandidos e a inocentes. E como um cenário miserável nada custa aos cofres públicos, desviou o orçamento todo para armamentos e munição.
Na limitada concepção do diretor desse previsível desastre, a megaprodução, digo, megaoperação pretendia ser um típico espetáculo policial, misto de suspense e drama. Capaz de inspirar roliúdi, pensou ele antes de berrar “ação!” no megafone oficial.
O trágico e óbvio resultado nas telas televisivas do país foram 121 mortos, inclusive policiais. Entre as vítimas, dezenas de jovens que o tráfico corrompe e moradores que nada têm a ver com o crime. Já os traficantes e os envolvidos com a bandidagem deveriam somente ser presos e investigados, julgados e condenados pela justiça. Gente que, na encenação final, acabou empilhada numa praça. E o Brasil inteiro deu sua conivente audiência com tamanho desmando policialesco.
O que era pra ser apenas um remake violento, escapou ao controle do diretor sensacionalista. Virou mais uma das tantas chacinas recorrentes no Rio. Só que ainda mais assustadora e mais escandalosa que a matança no Carandiru.
Nisso tudo, o mais assustador é a recorrência da PM em fazer justiça com as próprias garras. E o escandaloso é que a matança enquadra a priori a periferia pobre e preta. E por mais culpa que o tráfico tenha, não dá pra sisquecer os corresponsáveis ocultos: quem mais manda no tráfico é a demanda. E a maior parte da demanda não está nas favelas do Rio. A demanda é imensa, é nacional, é imbatível.
Enquanto prevalecer a mentalidade das autoridades que acham que violência se combate com violência maior, o efeito será a barbaridade: a insegurança vai continuar, o crime vai aumentar, a truculência policial vai piorar, e a justiça será sempre ineficiente, tadinha.
Quanto ao poder do CV, não vem só da droga: além da lavagem de dinheiro junto ao mundo financeiro, ele se beneficia do confronto desproporcional entre crime organizado X governança desorganizada.
E a sociedade no meio do tiroteio assassino.
José Guaraci Fraga, o FRAGA é cronista do Jornal Extra Classe.