Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Como atuam e quem são os integrantes da rede que estreita laços, se autopromove, ataca críticos, atua impunemente e vem aplicando golpes cada vez mais ousados
Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Ítalu Colares e Irene Maluf, representante da FICS em São Paulo, em evento

Foto: Reprodução

A prisão de uma mulher em São Paulo por uso de diploma falso de fonoaudiologia emitido por um instituição da Flórida (EUA), a Fuusa, revela um mundo de coincidências e conexões entre a Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) e outras ditas Instituições de Ensino Superior (IES) estrangeiras que operam sem grandes dificuldades no Brasil.

A primeira e mais gritante coincidência é que – como diz o delegado da Polícia Civil paraibana, Francisco Iasley Lopes – de estrangeiras, essas supostas IES como a Fuusa só têm o nome. “É tudo brasileiro: dono, corpo docente, grade curricular. Não tem nada de internacional”, afirma Lopes em uma das primeiras matérias da série Fábrica de Diplomas, produzida pelo Extra Classe.

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Gilberto Camargo Sena comanda de Miami a Fuusa, pivô da prisão da falsa fonoaudióloga em São Paulo

Foto: Reprodução

O mineiro Gilberto Cardoso Sena é o fundador e CEO da Florida University – USA (Fuusa), empresa registrada naquele estado norte-americano, mas sem licenciamento nem acreditação para atividades educacionais. Foi da Fuusa o diploma que levou Cinthia Vilhena Aguiar, 47 anos, a ser detida em flagrante por agentes da Polícia Civil de São Paulo.

Ela foi abordada no último dia 10 quando tentava se registrar no Conselho Regional de Fonoaudiologia (Crefono2), na zona sul da capital paulista. O conselho relatou que buscou informações nos Estados Unidos e elas deram conta da não regularidade da Fuusa.

Conforme apurado pelo Extra Classe, na lista de IES licenciadas pelo Departamento de Educação da Flórida (FLDOE) não consta a Fuusa.

A defesa de Cinthia Vilhena afirmou em nota que ela “é vítima da instituição denominada Fuusa (Florida University USA), tendo sido induzida a acreditar que se formara em estabelecimento legítimo e regularmente constituído”.

Sena, Fenner & Companhia

Sena responde processo no Brasil ao lado do autointitulado diretor-geral da paraguaia FICS, Ismael Fenner. Oito professores da rede estadual baiana acusam os dois por prejuízos causados em um suposto esquema de falsificação de diplomas de mestrado.

Os docentes contrataram um curso de “Mestrado em Ciências da Educação” oferecido pela Faculdade de Teologia e Filosofia Fides Reformata (Fateffir), com aulas realizadas em Gandu (BA).

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Formatura da EBWU: evento mostra caminhos cruzados entre Fábricas de Diploma

Foto: Reprodução

O advogado de Sena na tramitação de uma ação civil pública do Ministério Público Federal no Espírito Santo (MPFES) chegou a revelar em sua contestação que a Fuusa é “a continuadora dos projetos pedagógicos da Fateffir”. Por sua vez, a Fateffir dá continuidade à Unifateffir, que teria como mantenedora a “Assembly of God Church Manancial (Igreja Assembleia de Deus)”.

Mudanças constantes de nome à parte, é um diploma da organização de Sena que chama outros personagens aos caminhos percorridos por entidades suspeitas que se denominam educacionais.

Médico e chefe de reportagem

Ângelo Ribeiro Fróes figura como vice-reitor da Emil Brunner World University (EBWU), também instituída na Flórida. Fróes buscou registro profissional no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CRMSP). Apresentou para isso um diploma da Fuusa e um termo assinado no qual se declarava “bacharel em Medicina” pela “IES” dos EUA.

Com o alerta do CRM de que é obrigatório por lei que diplomas de graduação no exterior sejam revalidados por universidades públicas ou, mais recentemente, por Institutos Federais de Ensino Superior, Fróes ingressou com mandados de segurança contra a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, posteriormente, contra a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Pretendia a revalidação simplificada do seu diploma.

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias_trees

Ítalu e Ismael Fenner no Paraguai, em 2018

Foto: Reprodução

Em ambos os casos, um após outro – com as federais fazendo questionamentos sobre a autenticidade do documento – curiosamente, Fróes desistiu dos processos antes que houvesse uma decisão. Isso fez com que ações impetradas com o benefício da Justiça gratuita fossem extintas.

Fróes também aparece como “Chefe de Reportagem” em um jornal digital criado por Ítalu Bruno Colares de Oliveira. Fundador da EBWU, a pessoa chamada de “fiel parceiro” pelo postulante a médico no Brasil é um personagem que ocupa um lugar peculiar no universo das IES fantasmas surgidas na Flórida por mãos de brasileiros.

Ataque e autopromoção

O veículo de Ítalu Colares e Fróes não é produzido por jornalistas profissionais diplomados. Adota uma linguagem que mistura falta de coloquialidade, opiniões, ataques a adversários e autopromoção. No início do escândalo da FICS, o jornal da dupla publicou textos defendendo Fenner e sugerindo que estaria sendo vítima de uma campanha de sabotagem comercial protagonizada por concorrentes.

O jornal Extra Classe e sua equipe foram alvos de tentativas de descrédito após a publicação das reportagens da série Fábrica de Diplomas. Antes disso, a proprietária de uma assessoria para reconhecimento e revalidação de diplomas estrangeiros e de uma instituição de ensino a distância sediada na França sofreu represálias de falsários.

Ela é Ana Paula Teixeira, que passou a fazer denúncias contra o esquema da Fábricas de Diplomas em seu Instagram.

O ataque midiático a Ana Paula serviu de prelúdio para um movimento mais articulado: a emissão de uma “nota de esclarecimento e alerta” de uma associação denominada União de Universidades para Liberdade, que adota estranhamente a sigla UFL.

O documento acusava Ana Paula de “condutas inadequadas e potencialmente ilícitas” no mercado educacional. Foi assinado por Ismael Fenner (FICS), Acilina da Silva Candeia (Veni Creator Christian University), Alcimar José Silva (Ivy Enber Christian University), Ítalu Bruno Colares de Oliveira (Emil Brunner World University) e Jane Katia Bocalan Ricaldes (São Luiz University).

Exceto a FICS, do Paraguai, todas essas “IES” foram abertas nos Estados Unidos e com a característica de terem sido estabelecidas sob o manto de Isenção Religiosa no estado da Flórida.

Em 11 de agosto, na matéria Como “fábricas de diplomas” do Paraguai e dos EUA inundam o Brasil com títulos falsos, o Extra Classe detalhou o modus operandi da criação de IES de caráter religioso na Flórida e a forma como as Fábricas de Diplomas sob essa denominação driblam as legislações para oferecer cursos fora de seu regramento.

Doutor Manhattan ou Doutor quem?

Entre os signatários da nota da pouco conhecida UFL, apenas Ítalu ostentava o título de “Magnífico Reitor”. O detalhe é revelador do estilo de autopromoção que marca a trajetória do idealizador da EBWU.

Ao contrário de Ismael Fenner, de perfil mais discreto, Ítalu construiu uma persona pública performática. Não são poucos os conteúdos em seu jornal, e em revistas que ele também idealizou, que exaltam sua figura.

Textos com títulos como “Conheça o Homem que Está Redefinindo Educação, Tecnologia, Informação e Influência: Arquiteto de Uma Nova Era”; “Me chamam de mafioso, mas só tenho uma visão que assusta o sistema”; e “O Doutor Manhattan da vida real”, se apresentam como entrevistas “exclusivas”, a pretexto de traçar o “perfil” de Ítalu.

Afirmações como “pavimentou a estrada educacional para diretores de faculdades e reitores de universidades no Brasil e no exterior” e “respeitado por muitos como uma das maiores autoridades acadêmicas da América Latina” não fazem eco à vida real.

O Extra Classe consultou pessoas que integram a nata da intelectualidade acadêmica do Brasil e o desconhecimento sobre Ítalu Bruno Colares de Oliveira é um consenso.

“Nunca ouvi, nem li esse nome. De quem se trata?”, perguntou o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari. “Não que eu me lembre”, disse a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Carvalho. “Quem é?”, questiona Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do Brasil, que já teve passagens pela Capes e pela presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Vaidade multifacetada

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Collares, em uma foto idealizada, também vende títulos de nobreza. Ele se apresenta como “Sua Alteza Real Rei Ítalu Bruno Colares de Oliveira”

Foto: Reprodução

O vaidoso Doutor Manhattan tupiniquin faz questão de registrar um elencado de titulações quilométrica em seu Currículo Lattes e de passar a ideia de sucesso. “Viajado e devoto de um Life Style de alto padrão, com escritórios e presença em múltiplos países, Dr. Ítalu Colares é mais do que um nome por trás de projetos grandiosos. Ele é a mente por trás de uma rede independente que une educação, tecnologia, inovação financeira digital e informação com uma coerência rara”, registra uma das inúmeras publicações a seu respeito no jornal do qual ele é dono.

Nada mais fantasioso. Todo o “conglomerado do homem ao redor de quem “orbitam uma editora, uma revista científica, um jornal independente e um ecossistema completo onde sua criptomoeda circula com liberdade e propósito”, como exalta outra matéria publicada em seu veículo, cabe em um apartamento de no máximo 50 metros quadrados localizado na região administrativa Águas Claras, em Brasília.

É nesse espaço que, além do seu “império”, Ítalu ainda mantém o Instituto Ítalu Colares e uma posição de liderança religiosa de uma igreja também improvável. São duas atividades do grande empreendedor exaltado por sua própria mídia que mostram o quanto ele é multifacetado. A comercialização de títulos de nobreza pelo Instituto que leva seu nome e a liderança da Igreja Episcopal Anglicana do Rito Ocidental no Brasil.

O bispo armado e o sangue azul

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

O fundador da Emil Brunner World University (EBWU), criada na Flórida, o “multifacetado” Ítalu Bruno Colares de Oliveira, também é amante de armas

Foto: Reprodução

Com vestes similares a de um prelado da Igreja Católica Apostólica Romana, Ítalu aparece em vídeos de sua “sagração” e em um site no qual pede contribuições e donativos à obra. O CNPJ da congregação está em seu nome. Ao se tornar bispo, o ‘monsenhor’ Dom Ítalu Bruno Colares de Oliveira passou a se denominar Reverendíssimo Dom Irineu Policarpo.

Outra iniciativa tão inusitada quanto à de um religioso que ostenta na sua pessoa física ser um amante de armamentos e esportes violentos (se apresenta como atirador do Exército Brasileiro, colecionador de armas, caçador registrado no Ibama, faixa-preta em Caratê, Taekwondo e Kickiboxing) é a de comercialização de títulos de nobreza.

O site de Ítalu dispõe a interessados ordens honoríficas e títulos de nobreza da “Soberana Casa Real Dom Colares Oliveira”. Nela, ele recebe o nome de Sua Alteza Real Dom Ítalu Bruno Colares de Oliveira após cerca de 30 adjetivações com pompas e circunstâncias.

O sangue azul é que entrelaça Ítalu a outro personagem da série Fábrica de Diplomas, do Extra Classe. O representante e defensor de Ismael Fenner no Ceará foi agraciado com um Ducado. Não se sabe, porém, se Radamese Lima de Oliveira o recebeu sob o pagamento de tabela (R$ 30 mil) ou pela proximidade com a Sua Alteza Real que lhe franqueou sua publicação para ataques ao autor do trabalho jornalístico que tem dado visibilidade ao escândalo da Facultad Interamericana de Ciencias Sociales, a FICS.

Rede em expansão

Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias

Em seu delirante império que cabe em um apartamento com menos de 50 metros quadrados, em Brasília, Colares também se apresenta como liderança da Igreja Episcopal Anglicana do Rito Ocidental no Brasil

Foto: Reprodução

Imagens mostram que o universo onde gravitam “IES” como as que instituíram à União de Universidades para Liberdade é bem menor do que se imagina.

Fotos de Ítalu mostram uma atividade social intensa. Fenner e ele, por exemplo, são registrados no Paraguai. Também naquele país, Ítalu aparece em frente à Universidad del Sol (Unades), IES que foi envolvida em esquema de titulações fraudadas recentemente na Paraíba.

Irene Maluf, representante da FICS no estado de São Paulo, também aparece em registros de cerimônia ao lado de Ítalu.

Em 25 de outubro, a EBWU de Ítalu e Fróes promoveu uma cerimônia de formatura na cidade de Ribeirão Preto. Nela, o psiquiatra e escritor Augusto Cury foi paraninfo e recebeu o título de Doutor Honoris Causa.

À mesa de honra, estava Luciana de Freitas. Ela comemorou em abril de 2024 um doutorado em Ciências da Educação na Fuusa e, agora, representa cursos de Gilberto Cardoso Sena no Brasil.

Dos festejos do encerramento do ciclo supostamente acadêmico de uma organização para outra que levou uma falsa fonoaudióloga à cadeia, o episódio costura as pontas de uma rede em expansão.

Os caminhos da Fábrica de Diplomas não foram abertos agora, mas têm se revelado cada vez mais audaciosos, com a fraude que tem se aproveitado de brechas de uma plataforma importante para a educação nacional como a Carolina Bori.

Integrantes de uma indústria rentável em diversas pontas – menos de quem teve sua vida afetada negativamente na descoberta de uma titulação falsa – operam em um circuito de legitimação mútua sustentado por cerimônias pomposas, títulos inventados e ataques a quem os desmascara.

Nesse sistema de fraude, vaidade e desinformação que continua a operar à sombra da impunidade, permanece a pergunta da série Fábrica de Diplomas: até quando esquemas como o da FICS continuarão operar sob os olhos das autoridades nacionais?

Acesse toda a série Fábrica de Diplomas pelo link ou QR Code abaixo:

Acesse a série Fábrica de Diplomas

Fábrica de Diplomas

Comentários