Educação
Começam as negociações coletivas da educação básica e superior
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Só com os títulos de mestrado da FICS – tratada pela PF como uma IES irregular – a Ufal teria faturado quase R$ 1 milhão
Foto: Pexels
Uma verdadeira e lucrativa indústria de revalidação de diplomas estrangeiros no Brasil começa a ganhar luzes. É uma rede de interesses que envolve Instituições de Ensino Superior (IES), convênios questionáveis e um mercado consumidor ávido por atalhos na carreira.
O que começou em 1º de agosto com uma simples notícia no Extra Classe sobre a investigação da Polícia Federal (PF) sobre a obscura Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FiCS) se revelou de fato a ponta de um iceberg, conforme sustentaram diversas fontes que atuam nos bastidores do mundo da educação superior privada.
Se a matéria inicial versava sobre fortes suspeitas de estelionato — com a revelação de que IES paraguaia sequer tinha autorização para funcionar no seu país — o aprofundamento da apuração do jornal abriu as portas para uma série de denúncias que expõe um sistema que é muito maior e mais complexo do que se imaginava.
Entre eles, chamaram a atenção a privada Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), com 477 títulos deferidos totalmente, contra apenas um indeferido, e a pública Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com 113 deferidos totalmente, 100% de chancelamento.
Com o avanço das investigações da PF, a Ufal, segundo apurou Extra Classe, foi orientada pelo MEC a suspender os processos. “Os reconhecidos estão sendo investigados. Por isso aguardamos. Podem ser cancelados”, disse um profissional da Ufal à reportagem.
Para se ter uma ideia deste mercado que se abriu para universidades brasileiras, até então a Ufal cobrava taxas de R$ 8 mil para mestrado e R$ 10 mil para doutorado. Elas são pagas independentemente do resultado do processo. A suspensão dos reconhecimentos dos títulos da FICS, no entanto, não apaga o rastro de diplomas já validados sob um manto de suspeita.
Só com os títulos de mestrado da FICS – tratada pela PF como uma IES irregular – a Ufal teria faturado, por baixo, R$ 904 mil, com os valores atualmente praticados. Como a universidade alagoana realiza a validação de diplomas de outras IES, há especulações de cifras que ultrapassaram os R$ 2 milhões.
No caso da Unimes, que cobra taxas de R$ 6 mil, segundo mais de uma fonte ouvida por Extra Classe, os valores atualizados giram próximo aos R$ 3 milhões.
O problema transcende a FICS; e o que fontes especializadas chamam de “diploma mills” (fábricas de diploma), são de fato organizações com fachada educacional cujo principal negócio é a emissão em massa de títulos fraudulentos.
Sediada nos Estados Unidos com o lema manifesto de formar profissionais para um mundo em transformação, com ensino inovador e sem fronteiras, a Must University promete educação internacional de forma acessível.
Fundada pelo brasileiro Antônio Carbonari Neto, criador, presidente e reitor da Anhanguera Educacional até a venda para a Kroton em 2014, a Must é uma IES regular que conta com autorização oficial do órgão regulador do estado da Flórida (Commission for Independent Education). Ela recebeu sua licença após um processo de avaliação que durou cerca de dois anos.
A IES tem forte atuação no Brasil e oferece cursos de mestrado e doutorado 100% online, aulas e materiais didáticos em português. Além dos diplomas válidos nos Estados Unidos, a Must ainda promete títulos reconhecíveis no Brasil, via apoio institucional.
Polêmicas de titulações Stricto Sensu totalmente EaD à parte, é nesse chamado apoio institucional que um experiente profissional em regulação do ensino tece suas críticas.
“É uma curva na norma. Funciona da seguinte forma (o modelo de negócio), o cidadão vai lá, abre uma universidade nos Estados Unidos, bota uma penca de gente para estudar, e depois vem aqui (no Brasil) reconhecer o diploma em outra universidade que estabelece vínculo”, resume o especialista, que prefere não ser identificado.
A legislação brasileira proíbe o reconhecimento automático de diplomas. Cada processo deve ser analisado individualmente. Apesar
disso, dados da plataforma Carolina Bori, que centraliza os pedidos de revalidação, contam outra história.
No sistema do MEC, que apresenta a revalidação e o reconhecimento de diplomas estrangeiros no Brasil, há processos da Must que foram iniciados e finalizados no mesmo dia.
“Como justificar que um título de Harvard, por exemplo, pode durar uma ‘eternidade’ para ser reconhecido e um da Must levar horas ou, sabe-se lá, minutos? Um convênio interinstitucional”, ironiza o especialista ouvido por Extra Classe.
Ele é taxativo: “Não pode existir convênio para reconhecer diploma. Isso é um ato ilegal. Convênios entre universidades têm que ser de pesquisa, de intercâmbio”.
Os números são alarmantes. A reportagem identificou 1.249 diplomas da Must – sem nenhum indeferimento – na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). A IES paulista hoje já não mantêm convênio com a IES norte-americana com sangue brasileiro. Extra Classe não conseguiu informações sobre as taxas cobradas pela Unicid para seus processos de reconhecimento.
Já na Universidade da Amazônia (Unama) as cifras variam de R$ 15 mil para mestrados e R$ 30 mil para doutorados. Os valores que podem cair significativamente com o convênio com a Must foram informados para a reportagem por duas fontes diferentes. Extra Classe tentou sem êxito os números direto com a Unama que não divulga amplamente os valores que cobra para seus processos de revalidação e reconhecimento.
Com 1.451 títulos expressos na Carolina Bori, a Unama representa 42,6% da totalidade dos mestrados e doutorados da Must na plataforma, 3.409.
Mesmo sendo procedentes os valores que circulam em diversos fóruns e lives que propagandeiam as facilidades da Must, algo em torno de R$ 2 mil a R$ 3,5 mil para IES conveniadas, o montante segue a lógica do “negócio milionário”, podendo ter rendido entre R$ 3 a R$ 5 milhões por um ato quase que cartorial.
Quem alimenta essa indústria? Fóruns on-line revelam o perfil do consumidor: servidores públicos e profissionais em busca de pontos em concursos e progressão na carreira.
Em um desses chats, uma pessoa que afirmou recentemente ter “tomado posse em uma procuradoria estadual” é sincera: “Tenho plena consciência de que isso não é um mestrado ‘sério’, sendo que eu só quero fazer para pontuar no exame de títulos e para progressão na carreira”.
Outro usuário confirma que a experiência é simples: “Basicamente se escreve um artigo por mês além dos estudos. Para pontuação em concurso/progressão é muito interessante”.
Renato Janine Ribeiro, ex-diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e ex-ministro da Educação, corrobora a análise. “Essas teses de má qualidade não vão te ajudar na carreira acadêmica”, explica. “Para que servem essas teses e mestrados? Para subir no pagamento pelos entes públicos em carreira não acadêmica”, entende.
Janine Ribeiro recorda que o problema não é novo. Menciona uma “farra” nos anos 1990 com cursos de pós-graduação estrangeiros oferecidos no Brasil, que motivou uma forte reação da Capes à época. “O que você está me contando é outro vazamento. Na realidade eles estão encontrando sempre brechas”, afirma à reportagem.
A situação agora não é menos grave. Se um mestrado da FICS figura na Carolina Bori como Deferido Totalmente pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em 24 de novembro de 2026, neste ano de 2025, o cenário é maior do que um simples erro de digitação. Assim como documentação da investigada pela PF apresentam grosseiros erros de falsificação – como apostilamentos de Haia (validação documentos públicos emitidos em um país signatário da Convenção) em atestados com assinaturas divergentes – 14 meses de antecedência denotam, no mínimo, falta de atenção.
A investigação que partiu de uma faculdade fantasma paraguaia descortinou um esquema complexo e arraigado no sistema educacional brasileiro. A facilidade para obter títulos, a alta lucratividade das taxas de revalidação, os conflitos de interesse e a conivência ou negligência de instituições de ensino criaram uma indústria que mina a credibilidade da pós-graduação Strico Sensu e onera os cofres públicos.
Enquanto a PF avança, fica a pergunta: quantas outras “FICS” e quantos outros convênios operam livremente sob as barbas dos órgãos de fiscalização?
Extra Classe procurou novamente à Unimes, bem como tentou contatos com dirigentes da Unama e Ser Educacional. Em nenhum dos casos, teve respostas.
Em nota, a Capes informou que não é responsável pelo reconhecimento de diplomas de mestrado e doutorado obtidos no exterior. Segundo o organismo, esses processos são regulados pela Portaria Normativa nº 22/2016 do MEC e pela Resolução nº 2/2024 da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE/CES), que tratam da revalidação de diplomas de graduação e do reconhecimento de pós-graduação stricto sensu emitidos por universidades estrangeiras.
De acordo com a nota, diplomas de mestrado e doutorado só podem ser reconhecidos por universidades brasileiras que possuam cursos de pós-graduação stricto sensu avaliados, reconhecidos e autorizados pelo Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), na mesma área de conhecimento e em nível equivalente ou superior. O processo de solicitação ocorre por meio da Plataforma Carolina Bori, gerenciada pela Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC).
O comunicado ressalta ainda que a regulação da educação superior no Brasil é atribuição da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC), enquanto a Capes tem função de aprovar novos cursos de pós-graduação e avaliar a permanência dos cursos nacionais no SNPG. As instituições privadas de ensino superior só podem reconhecer diplomas estrangeiros se possuírem cursos de pós-graduação stricto sensu avaliados e autorizados no âmbito do SNPG, conforme a Resolução CNE 02/2024.
Por fim, a Capes informou que recebeu com preocupação denúncias sobre o tema e, em abril e maio de 2025, notificou o MEC, o Fórum de Pró-reitores de Pós-Graduação e Pesquisa (Foprop), o Colégio de Pró-reitores de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação das Instituições Federais de Ensino Superior (Copropi) e a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), solicitando ampla divulgação das orientações a todos os coordenadores de pós-graduação, reitores e pró-reitores.
Aguardamos posição da SESu/MEC para o fechamento desta matéria. Em nota ao Extra Classe, a SESu/MEC se justificou. Leia na íntegra:
O Ministério da Educação (MEC) não é responsável pelo reconhecimento de diplomas de mestrado e doutorado. A pasta atua na gestão da plataforma Carolina Bori, sistema pelo qual os interessados podem cadastrar e enviar seus pedidos de revalidação e reconhecimento de diplomas estrangeiros diretamente às universidades habilitadas. O MEC acompanha as investigações e notifica as instituições sobre denúncias relacionadas a diplomas obtidos no exterior, como no caso da Faculdad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS). No entanto, qualquer medida na Plataforma Carolina Bori só poderá ser adotada após a conclusão dos processos que apura as eventuais irregularidades no reconhecimento de diplomas.
LEIA A SÉRIE COMPLETA SOBRE A FRAUDE DE DIPLOMAS
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