Na contramão, Mato Grosso vai contra incentivos antidesmatamento

Lei estadual veda benefícios fiscais e terrenos públicos para quem participe de acordos nacionais ou internacionais que restrinjam expansão da agricultura
Mato Grosso corta incentivos antidesmatamento via lei estadual

Ao sancionar lei que corta incentivos federais, Mauro Mendes alega que o Brasil tem a legislação ambiental mais restritiva do mundo

Foto: Secom/MT

O estado do Mato Grosso decidiu cortar incentivos para empresas signatárias da Moratória da Soja, compromisso ambiental estabelecido em 2006 por grandes empresas do  agronegócio, organizações da sociedade civil e o governo brasileiro para combater o desmatamento relacionado à produção da soja na Amazônia . Na última sexta-feira, 24, o Diário Oficial do Estado do MT publicou a sanção do governador Mauro Mendes (União) à lei 12.709/2024 aprovada duas semanas antes pela Assembleia Legislativa daquele estado.

A medida coloca lado a lado conglomerados vinculados à Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e entidades ambientalistas como o Greenpeace Brasil. As organizações afirmam que a legislação mato-grossense pode prejudicar a imagem da soja produzida no Brasil.

Em nota, a Abiove destaca que a decisão “pode representar um risco à reputação do País como um produtor sustentável” e que a medida pode ter consequências negativas para a competitividade da soja brasileira no mercado internacional.

Já o Greenpeace Brasil evidencia que, além de colocar a credibilidade da soja brasileira em cheque, a decisão do Mato Grosso efetivamente age como estímulo para facilitar novos desmatamentos.

Movimento não é isolado

Para a coordenadora da frente de Florestas do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti, o acontecido em Mato Grosso não deve ser encarado como um movimento isolado.

“Existem iniciativas orquestradas por parte de produtores e entidades representativas do setor, com apoio de governantes que visam acabar com qualquer possibilidade de acordos e dos mecanismos que auxiliem na defesa do meio ambiente via incentivos fiscais. Esses atores alegam a necessidade de se ater à ilegalidade como critério de compra por parte das comercializadoras de soja, mas atuam simultaneamente para flexibilizar leis e normas, como é o caso da resolução 5.081/2023 sobre Crédito Rural”, declara Cristiane.

Ela se refere a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que trata de restrições e impedimentos socioambientais para a concessão de incentivos, como o crédito rural no país. No início de outubro, o Ministério da Agricultura – comandada por Carlos Fávaro (PSD-MT) – encampou reclamações do agro e pediu formalmente ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, alterações.

Pesquisador Associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Paulo Barreto, ironiza: “só querem dar subsídio para quem destrói”.

Corte de incentivos estimula desmatamento

A Lei 12.709/2024 do MT foi uma pressão da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT) que alega que o Código Florestal brasileiro permite que, ao adquirir uma fazenda, o produtor ainda pode desmatar 20% da área para desenvolver suas atividades. Para a entidade, os signatários da Moratória da Soja estariam exigindo algo diferente do que prevê a legislação brasileira.

O ministro Fávaro, em um evento em São Paulo, saiu em defesa dos sojicultores do seu estado. Segundo ele, fazendo coro à Aprosoja-MT, as empresas “foram mais legais que a lei”.

Para analistas de mercado, a atitude do estado do MT pode fazer realmente a soja brasileira perder mercados internacionais que buscam reduzir desmatamentos, seguindo uma série de recomendações e tratados internacionais.

O estrategista sênior do Greenpeace Brasil, Paulo Adario, sentencia: “Propostas que seguem na direção oposta, defendendo a flexibilização de leis, regras, e que tentam minar iniciativas bem-sucedidas na redução do desmatamento, são irresponsáveis e precisam ser repudiadas”.

 

Comentários