Enamed acende alerta sobre risco à vida em UTIs

Com escassez de intensivistas, recém-formados ampliam riscos no atendimento de alta complexidade. Lógica de mercado rebaixou qualidade da formação médica

Especialista aleta que, em uma UTI, decisões equivocadas podem ser fatais

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Oferta e demanda são princípios centrais da economia clássica. Da mesma forma, a ideia de que o capital tende a se expandir na busca de todos os espaços possíveis de mercantilização e a reduzir custos para ampliar margens de lucro. Esses fundamentos ecoaram de forma contundente nos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).

O exame divulgado em 19 de janeiro não coloca só receios de uma orientação equivocada em uma simples dor de cabeça, mas, em especial, nos cuidados de alta complexidade.

Se os dados, por si só, já são alarmantes ao apontar que cerca de um terço dos recém-formados não atingiu a proficiência mínima esperada, o cenário se torna ainda mais grave quando se projeta a possível atuação desses profissionais em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Nesses espaços, decisões equivocadas podem ser fatais.

O alerta é feito pelo médico intensivista Cristiano Franke, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib). Para o médico, não é incomum a presença de médicos recém-egressos dos cursos de Medicina em UTIs de todo o país.

Segundo ele, são generalistas que, muitas vezes, também pressionados pela lógica de um mercado que estabeleceu mensalidades estratosféricas, até cogitam ingressar em uma residência médica, mas acabam abandonando o caminho no meio do percurso para poder pagar seus financiamentos estudantis em diversos plantões.

Os resultados do Enamed evidenciam que as fragilidades da formação médica estão concentradas, sobretudo, em cursos criados durante a rápida expansão do ensino médico privado na última década.

Dos 351 cursos avaliados, mais de 30% receberam conceitos considerados insuficientes pelo Ministério da Educação (MEC), com predominância de instituições privadas entre os piores desempenhos.

Franke: Quando a lógica de mercado rebaixa a formação, o impacto aparece na ponta do sistema

Foto: Arquivo pessoal

A ampliação da oferta respondeu a uma demanda histórica por vagas em Medicina, tradicionalmente restritas. Programas de financiamento estudantil e políticas de acesso ao ensino superior ampliaram o ingresso de estudantes em um curso altamente cobiçado. No entanto, em muitos casos, a expansão passou a obedecer a uma lógica estritamente mercantil. São vagas ofertadas com base na redução de custos operacionais, com impacto direto na qualidade da formação.

Faculdades com campos de prática insuficientes, infraestrutura precária e corpo docente pouco qualificado tornaram-se parte desse cenário.

“O problema não é o acesso, mas o modelo de oferta”, avaliam pesquisadores da área. Casos como o do estudante Vitor Miranda, bolsista do Prouni e com bom desempenho individual no Enamed, contrastam com a avaliação institucional de sua faculdade, que recebeu conceito 2. Em depoimento ao programa Fantástico, ele relatou a ausência de hospital-escola e a falta de treinamento prático básico.

Mais médicos, desigualdade persistente e UTIs sob pressão

Paradoxalmente, o Brasil nunca teve tantos médicos. Em 2024, o país registrava cerca de 575 mil profissionais ativos, o que equivale a aproximadamente 2,8 médicos por mil habitantes, índice superior ao de diversos países desenvolvidos. Projeções indicam que esse número pode ultrapassar 630 mil até o fim de 2026.

Apesar disso, a distribuição é profundamente desigual. Mais da metade dos médicos está concentrada na região Sudeste, enquanto o Norte apresenta a menor densidade, com cerca de 1,7 médico por mil habitantes. Essa desigualdade se torna ainda mais crítica quando se observa a medicina intensiva.

Segundo o Censo Amib 2024, o Brasil conta com cerca de 12 mil intensivistas, número insuficiente para atender à demanda atual de leitos de UTI, ampliada após a pandemia de Covid-19. A maior parte desses especialistas também está concentrada no Sudeste e no Sul, enquanto Norte e Nordeste enfrentam escassez estrutural.

“Formamos muitos médicos, mas não planejamos a força de trabalho em saúde”, afirma Franke. “UTI exige formação específica. Não é lugar para improviso”. Ele até que comemora os 1.500 médicos residentes na área hoje. “É um bom número, sim”.

No entanto, ele recorda que a especialização que toma três anos da vida de um profissional, faz com que cerca de 100 dos 600 que ingressam por ano na especialização a deixe no meio do caminho.

Pressão por todos os lados

É nesse ponto que a formação precária deixa de ser um problema educacional e passa a representar um risco assistencial concreto. Médicos recém-formados, muitas vezes sem residência médica e oriundos de cursos mal avaliados, ingressam diretamente no mercado de trabalho e passam a atuar em UTIs públicas e privadas, frequentemente sem supervisão adequada.

Pacientes em estado crítico — com infarto, AVC, sepse, hemorragias ou traumas graves — exigem decisões rápidas e altamente especializadas.

“Uma conduta inadequada pode significar a morte do paciente em questão de minutos”, alerta o presidente da Amib.

O problema é agravado por um marco regulatório considerado defasado. A legislação brasileira permite que apenas 50% da equipe médica de UTIs de alta complexidade seja composta por intensivistas, regra em vigor desde o final da década de 1990. Na prática, isso abre espaço para equipes incompletas ou formadas majoritariamente por profissionais sem especialização.

Muitos também por pressão econômica. Há recém-formados – endividados após cursos caros – que abandonam a residência médica para assumir plantões. Gestores hospitalares, por sua vez, enfrentam restrições orçamentárias e acabam contratando profissionais sem especialização, que aceitam remunerações menores.

Medidas urgentes

Diante do cenário, a Amib defende medidas estruturantes, seguindo outras associações médicas: maior rigor na abertura e fiscalização de cursos de Medicina; avaliações contínuas ao longo da graduação; a criação de um exame de proficiência ao final do curso à exemplo do ingresso na profissão da advocacia; ampliação e financiamento das vagas de residência médica; e revisão das normas que regulam o funcionamento das UTIs, especialmente as de alta complexidade.

Afinal, se em um universo de 15.409 recém formados em Medicina que participaram do primeiro Enamed, 9.489 obteram nota abaixo de 60, o debate extrapola a categoria médica.

“Estamos falando do direito da população a um atendimento seguro. Quando a lógica de mercado rebaixa a formação, o impacto aparece na ponta do sistema, onde a vida do paciente já está por um fio”, conclui Franke.

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