Sinpro/RS e Santa Casa lançam campanha de incentivo à doação de órgãos para transplantes

Iniciativa busca aumentar a autorização de familiares para aumentar a captação e reduzir a lista de espera por transplantes no Rio Grande do Sul
Sinpro/RS e Santa Casa lançam campanha de incentivo à doação de órgãos para transplantes

Equipe do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre realizou no primeiro semestre 354 transplantes, sendo 227 de órgãos e 127 de tecidos

Foto: Divulgação / Santa Casa de Porto Alegre

Somando esforços na conscientização pela doação de órgãos, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS) e a Santa Casa de Porto Alegre são parceiros na campanha A vida cabe no seu sim, lançada nesta segunda-feira, 1º de setembro.

O conceito da ação propõe uma reflexão a partir de duas dimensões: o sim, associado ao ato de conversar com a família e manifestar a vontade de ser doador; e a vida, que representa a esperança de uma nova oportunidade para quem aguarda por um transplante.

O número de pacientes em lista de espera cresceu 23% em um ano no Brasil. Só no Rio Grande do Sul são cerca de 3 mil pessoas à espera por órgãos.

A não autorização de familiares de pacientes que entram em morte encefálica é a principal causa da perda de órgãos que poderiam ser transplantados. Quando a família não autoriza a doação, isso se reflete em mais pessoas à espera de transplantes.

“A negativa familiar continua sendo um dos maiores entraves para que os pacientes tenham acesso ao transplante. Sem a redução desse índice, temos visto uma lista que não para de crescer. Cada recusa impede que órgãos saudáveis sejam utilizados, prolongando o tempo de espera e comprometendo as chances de sucesso de centenas de transplantes”, destaca o diretor médico do Centro de Transplantes da Santa Casa, José de Jesus Camargo.

Professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Camargo é especialista em cirurgia torácica. Foi pioneiro no transplante de pulmão na América Latina e realizou o primeiro transplante duplo de pulmões no Brasil. O médico está entre os entrevistados do livro Corrida contra o tempo – O que compromete a doação de órgãos e a eficiência do sistema de transplantes no Brasil (Carta Editora, 2023, 248 p.), publicado pelo projeto Cultura Doadora, da Fundação Ecarta.

Salvar vidas

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Camargo: “precisamos conversar sobre doação e deixar claro para nossos familiares a nossa vontade. Esse ‘sim’ pode mudar muitas histórias”

Foto: Igor Sperotto

Comunicar em vida aos familiares a decisão de ser doador de órgãos, lembra Simone Martins Ribeiro. “Hoje temos ainda mais certeza de que precisamos conversar sobre doação e deixar claro para nossos familiares a nossa vontade. Esse ‘sim’ pode mudar muitas histórias”, ressalta ela, que, em maio, enfrentou a despedida do pai, um momento de dor marcado por uma decisão que se transformou em conforto. “Nós já tínhamos conversado em família sobre a vontade do nosso pai em ser doador. Quando recebemos a notícia da morte encefálica, a decisão foi natural. Saber que os rins dele salvaram outras pessoas trouxe alívio e orgulho. É como se uma parte dele continuasse viva, ajudando quem tanto precisava”, acrescenta.

A família de Ricardo Mathias Storcker também transformou a despedida da mãe em um gesto de solidariedade, decisão que foi compartilhada entre pai e filho. “Ao sermos abordados pela equipe e pela forma cuidadosa como conduziram a conversa, não hesitamos em autorizar a doação. Saber que a vida da mãe representaria a oportunidade de recomeço para outras pessoas trouxe um novo sentido à sua partida”, relatou Ricardo.

Histórias como as de Simone e Ricardo reforçam, antes de tudo, a importância do diálogo familiar e, a partir dele, o impacto transformador que a doação pode gerar. “Doar órgãos é sublimar o sofrimento da própria perda, para que famílias desconhecidas sejam poupadas da mesma dor que lhes vara o coração. Difícil imaginar um gesto de amor maior do que esse”, reflete Camargo.

Lista de espera chega a 80 mil

Segundo monitoramento do Ministério da Saúde, em agosto 80.072 pessoas aguardavam na lista de espera por um transplante no Brasil – 46.956 à espera de um órgão (rim, fígado, coração, pulmão e pâncreas) e 33.116 por córnea (tecido). Entre eles, mais de 1,3 mil crianças. O número cresceu 23% em 12 meses: em agosto de 2024 eram pelo menos 65 mil pacientes em lista.

Mesmo com um recorde histórico em 2024, com mais de 30,3 mil transplantes de órgãos e tecidos realizados em todo Brasil, a recusa familiar em doar órgãos continua sendo um grande desafio, e a lista de espera segue crescendo, evidenciando que muitas vidas ainda dependem de famílias dispostas a dizer “sim”.

Em 2024, 46% das famílias brasileiras recusaram a doação de órgãos de seus entes falecidos, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RTB) da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

SinproRS e Santa Casa lançam campanha de incentivo à doação de órgãos para transplantes_01Imagem: Sinpro/RSO cenário também preocupa no Rio Grande do Sul, onde, segundo dados de agosto de 2025, houve um crescimento de 25% em um ano, alcançando 3 mil pacientes que aguardam por um transplante. Desse total, cerca de 60% estão na lista de espera por um órgão (rim, fígado, pulmão e coração) e o restante por um transplante de córnea.

“Para cada paciente que chega até nós, existe uma contagem de tempo que não pode ser ignorada. A recusa das famílias, somada à falta de estrutura em algumas instituições para viabilizar a captação de órgãos, agrava o cenário. É fundamental que a sociedade entenda a gravidade do problema e que gestores e profissionais de saúde fortaleçam toda a rede que torna a doação possível”, acrescenta Camargo.

No primeiro semestre deste ano, Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre registrou novo aumento no número de procedimentos, consolidando a retomada dos patamares anteriores à enchente de 2024. Foram 354 transplantes, sendo 227 de órgãos e 127 de tecidos, o que representa um aumento de 25% em relação ao mesmo período do ano passado e supera também o volume registrado em 2023.

“Mais do que números, estamos falando de vidas que ganharam uma nova chance. Cada transplante realizado é resultado de um trabalho altamente especializado e, ao mesmo tempo, profundamente humano, que envolve ciência, dedicação e a generosidade de quem doa”, destaca o diretor médico e de ensino e pesquisa da Santa Casa, Antonio Nocchi Kalil.

Centro de Transplantes da Santa Casa

SinproRS e Santa Casa lançam campanha de incentivo à doação de órgãos para transplantes_02Imagem: Sinpro/RSEntre os transplantes de órgãos, que incluem rim, fígado, pulmão e coração, a Santa Casa totalizou 227 intervenções no período, um salto importante em relação aos 184 registrados em 2024, ainda afetado pela crise climática, e também acima dos 219 contabilizados em 2023. O destaque fica para os transplantes de rim, que somaram 159 procedimentos. Também foram realizados 49 transplantes de fígado, 15 de pulmão e 4 de coração.

Segundo dados de junho da Central Estadual de Transplantes, o Rio Grande do Sul segue com 1.779 pacientes em lista de espera por um órgão, sendo 84% deles por um rim. A lista ainda conta com 1.217 pacientes em espera por um transplante de córnea.

Integrando o complexo hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre, o Hospital Dom Vicente Scherer é referência internacional em transplantes e concentra 60% dos transplantes de órgãos realizados no Rio Grande do Sul – abrangendo rim, fígado, pulmão e coração. Com papel fundamental na redução da lista de espera, o Centro de Transplantes conta com estrutura e equipes altamente qualificadas, reconhecidas pela expertise em todos os tipos de transplantes, incluindo órgãos sólidos, tecidos e medula óssea.

Projeto Cultura Doadora

O projeto Cultura Doadora, lançado em 2012 pela Fundação Ecarta com apoio do Sinpro/RS, é uma iniciativa voltada para o desenvolvimento de uma postura proativa de doação de órgãos e tecidos no âmbito da comunidade educacional e de toda a sociedade. O projeto institucional permanente tem como base iniciativas continuadas, criativas, instigantes e com enfoque cultural. O projeto é lastreado na percepção de que a disposição doadora deve integrar uma concepção de vida, de cidadania e de cultura a ser desenvolvida e firmada na consciência individual e coletiva para erigir- se à condição de um valor universal que consagra a vida como o bem mais precioso do ser humano.

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