Por onde anda a cabeça do brasileiro

Nesta entrevista, Alberto Carlos Almeida revisita estudo que virou best-seller ao investigar valores, crenças e atitudes dos brasileiros. Segundo ele, ”uma tomografia computadorizada da alma nacional"

Por onde anda a cabeça do brasileiro

Foto: Acervo pessoal

Vinte anos se passaram desde que Alberto Carlos Almeida publicou pela primeira vez A Cabeça do Brasileiro (Record), um estudo ambicioso que virou best-seller ao decifrar os valores, as crenças e as atitudes da população da maior nação da América do Sul e Caribe.

Agora, com A Cabeça do Brasileiro – vinte anos depois (Editora Difel), Almeida coordena um time de colaboradores de diversas áreas para revisitar o país, aplicando exatamente a mesma metodologia para criar o que ele descreve como um “tomógrafo computadorizado” da alma nacional.

O resultado é um retrato complexo de um Brasil que mudou profundamente em alguns aspectos, mas que permanece teimosamente estagnado em outros, os quais, segundo Almeida, podem ser o maior obstáculo para o país se tornar uma nação rica.

Nesta entrevista, o doutor em Ciência Política, diretor do Instituto Brasilis e autor de vários livros que abordam de maneira científica a sociedade e a política brasileiras detalha as principais descobertas do seu novo estudo.

Ele analisa o esvaziamento do centro político, a força do voto evangélico, a vitória simbólica do movimento negro e explica por que, apesar de algumas revoluções silenciosas, seu olhar para o futuro econômico e social do Brasil é marcado por um pessimismo baseado em dados.

Extra Classe – A pesquisa para o A Cabeça do Brasileiro – vinte anos depois se baseia na repetição exata do questionário e do desenho amostral de 2002. Qual é a importância metodológica de manter essa fidelidade por duas décadas para garantir que as mudanças observadas são reais e não um artefato estatístico?
Alberto Carlos Almeida – É fundamental. Se você altera o questionário, há a chance de alterar as respostas. Se altera o desenho amostral, também. Ao mantermos o desenho amostral e o questionário exatamente os mesmos, podemos afirmar com segurança que as mudanças detectadas são, de fato, mudanças reais na mentalidade e na visão de mundo da população. Era obrigatório manter tudo para que a comparação fosse válida e pudéssemos ter um retrato fiel da evolução do pensamento brasileiro.

Por onde anda a cabeça do brasileiro

Foto: Acervo pessoal

EC – A pesquisa aponta para uma reconfiguração do espectro político. Mais do que o crescimento de um dos polos, o que mais chama a atenção é o fenômeno da polarização em si. Como os dados refletem isso?
Almeida – A análise mais importante é a diminuição das pessoas que se dizem “de centro”. Em 2002, 39% dos brasileiros se autoclassificavam como de centro; em 2023, esse número caiu para 28%. Ao mesmo tempo, o percentual de pessoas que se classificam como de direita e de esquerda aumentou. A esquerda passou de 22% para 29% (um crescimento de 7 pontos), e a direita foi de 39% para 43% (um crescimento de 4 pontos). O resultado final é que hoje há mais gente que se vê como de direita (43%) do que de esquerda (29%), mas o ponto central é que os extremos cresceram enquanto o centro encolheu. Isso, de fato, indica uma maior polarização. Polarização é isso.

EC – Em gerações passadas, chamar alguém de “direita” era quase um xingamento, muito associado à ditadura militar. Hoje, vemos pessoas assumindo essa identidade sem constrangimento. Como você analisa essa mudança?
Almeida – A pergunta já dá uma pista da resposta. No passado, “direita” era muito associada a quem estava no governo, e o governo era a ditadura militar. “Esquerda” era a oposição. Com o passar do tempo e a alternância de poder, especialmente a partir da chegada da esquerda ao poder nacional em 2002, essa lógica se embaralhou. Esquerda deixou de ser sinônimo de oposição e direita deixou de ser sinônimo de governo. Elas passaram a representar mais a defesa de determinadas visões de mundo, ambas com legitimidade para buscar e alcançar o poder pelo voto. Hoje, é uma posição política legítima. Contudo, é preciso fazer uma ressalva importante. Existe uma bolha, que é a nossa, de uma minoria da sociedade que tem uma classificação clara do que é esquerda e direita. Para a maioria dos eleitores, isso é muito confuso. A pesquisa mostra que o percentual de pessoas que “não sabem o que é ser de esquerda” aumentou de 23% para 47% em 20 anos. O mesmo para quem “não sabe o que é ser de direita”, que foi de 21% para 46%. Isso aconteceu justamente porque a antiga definição de “governo versus oposição” se perdeu, e a maioria da população ficou sem uma âncora para definir esses conceitos.

EC – O livro sugere que a polarização está mais acentuada nas “pautas de costumes”, como aborto e liberalismo sexual, do que no campo econômico. Por que essas questões se tornaram a chave da polarização no Brasil?
Almeida – É uma questão de dinâmica. Não é que não exista diferença entre esquerda e direita no liberalismo econômico, ela existe. Quem é de esquerda tem uma visão menos liberal do que quem é de direita. Porém, essa diferença não se “estremeceu”, não se tornou mais extrema em 20 anos. O que se estremeceu foi a visão com relação ao aborto, por exemplo. As posições de quem se identifica com a esquerda e com a direita se afastaram muito mais nesse tema do que no debate econômico.

EC – O que dizer disso?
Almeida – No campo econômico, embora a visão liberal tenha aumentado no Brasil, ainda predomina uma visão de mundo não liberal. A população, de forma geral, se vê como fraca diante do mercado e enxerga no governo uma espécie de provedor. Isso se manifesta de forma pragmática: a pesquisa mostra que o apoio à privatização da telefonia aumentou, provavelmente porque o serviço melhorou e se popularizou. Por outro lado, o apoio ao provimento estatal de transporte público também cresceu, certamente devido à piora dos serviços privados de ônibus. O brasileiro apoia o mercado se ele melhora sua vida; se piora, ele quer mais governo. Como essa visão é mais ou menos consensual, ela não serve para diferenciar tanto os polos quanto as pautas de costumes.

EC – O trabalho revela uma mudança radical no cenário religioso, com a queda de católicos de 71% para 50% e um crescimento expressivo de evangélicos. Você afirma que o voto evangélico é uma força política real. Como essa reconfiguração molda as eleições?
Almeida – Ela já molda, e há muito tempo. Mostramos no livro que há uma diferença clara entre o voto evangélico e o voto católico. Isso é um fenômeno que vem influenciando as eleições desde, pelo menos, 2002, quando o candidato Garotinho teve proporcionalmente muito mais votos entre evangélicos do que entre católicos. É um fenômeno de mais de duas décadas que a pesquisa mapeia com dados.

EC – Algo lhe chamou a atenção?
Almeida – Uma descoberta fascinante é o aumento do “literalismo bíblico” entre os próprios católicos. A doutrina católica tradicionalmente argumenta que a Bíblia é um livro escrito por homens inspirados por Deus, não a palavra divina literal. Em 20 anos, um número crescente de católicos passou a acreditar que a Bíblia é, palavra por palavra, a verdade divina, sem erros. Eu vejo isso como uma tentativa de reagir ao avanço evangélico, mas, também, um fenômeno mais amplo que mostra uma mudança na própria forma como os católicos se relacionam com sua fé. Contudo, é crucial notar que, segundo nossos dados, essa mudança doutrinária não teve impacto na posição política dos católicos. Eles continuam votando da mesma forma e sendo, em geral, menos conservadores que os evangélicos.

“O valor simbólico de ser branco diminuiu, enquanto o valor simbólico de ser pardo e preto aumentou. No passado, as pessoas queriam se embranquecer; hoje, vemos o movimento contrário.”

Por onde anda a cabeça do brasileiroFoto: Difel/DivulgaçãoEC – O livro aponta um crescimento na autoidentificação como pardo e preto, indicando uma diminuição do preconceito. Qual é o papel da militância e das políticas públicas, como as cotas, nesse processo?
Almeida – O papel foi total. O movimento negro passou 20 anos batendo na tecla do racismo, e isso teve um efeito claro que a pesquisa detectou. Políticas como as cotas e o debate na mídia também contribuíram. O efeito foi que as pessoas passaram a se sentir mais à vontade para se considerarem pardas e pretas. O valor simbólico de ser branco diminuiu, enquanto o valor simbólico de ser pardo e preto aumentou. No passado, as pessoas queriam se embranquecer; hoje, vemos o movimento contrário.

EC – Exemplos?
Almeida – Temos um exemplo público notável disso no livro: o ministro (do Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino. Em sua primeira candidatura, ele preencheu sua ficha no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) se declarando branco. Anos depois, em uma candidatura à reeleição, ele se declarou pardo. Ele “escureceu” nesse período, refletindo um orgulho que talvez não sentisse antes. O que aconteceu com ele aconteceu com muita gente: o branco de pele mais escura passou a se declarar pardo, e o pardo de pele mais escura passou a se declarar preto. Isso é, sem dúvida, uma vitória do movimento negro.

EC – Há algum “porém” neste quesito?
Almeida – Sim. No entanto, o movimento (Negro) não conseguiu tudo. Ele não conseguiu fazer com que as pessoas se considerassem “negras” em perguntas abertas – o percentual que usa esse termo não aumentou. Também não conseguiu valorizar o antepassado africano. Quando perguntamos sobre a origem dos antepassados, a grande maioria dos brasileiros continua dizendo “Brasil”, seguido por “indígena”. A conclusão é que a identidade “parda” no Brasil é fortemente baseada na cor da pele, e não em uma ancestralidade primordial continental.

EC – Além da questão racial, o livro destaca uma mudança muito forte na visão sobre a igualdade entre homens e mulheres. Como isso se manifestou?
Almeida – Essa foi uma das mudanças mais fortes em 20 anos. Há um exemplo que retrata isso perfeitamente: o fraldário. Vinte anos atrás, o trocador de fraldas ficava no banheiro feminino dos shoppings. Hoje, ele fica em um espaço comum. A mensagem simbólica é clara: trocar a fralda do bebê é tarefa tanto do pai quanto da mãe. Isso está refletido nos dados. Fizemos perguntas sobre o que é papel de homem e de mulher – cozinhar, lavar o carro, cuidar das crianças. A visão de que essas tarefas são dever de ambos aumentou muito. Os papéis claramente delimitados de gênero perderam força. Houve um crescimento imenso da visão de que homens e mulheres precisam ser considerados de maneira igualitária.

EC – Apesar dessas transformações, valores como o patrimonialismo, a desconfiança interpessoal e o “jeitinho” permanecem inalterados. Você sugere que isso é o maior obstáculo para o Brasil crescer. O que sustenta a solidez desses valores?
Almeida – As mudanças que aconteceram, ocorreram porque havia movimentos sociais organizados – o movimento de mulheres, o movimento negro, os evangélicos – que entraram no governo, independentemente de ser de esquerda ou direita, e a partir dali tornaram suas vozes mais ouvidas e impulsionaram políticas públicas. Não existe no Brasil um movimento social que defenda que todos sigam a lei ou que as pessoas confiem umas nas outras. Pelo contrário, a lógica é chegar ao governo para beneficiar a si próprio. O patrimonialismo, a visão de que se pode usar o público como se fosse privado, inclusive aumentou. Vemos isso nos ganhos estratosféricos de determinados grupos, como o Judiciário. É a mentalidade do “cada um por si”.

EC – Esta lógica tem que tipo de consequências?
Almeida – Se você não confia nas pessoas, é muito difícil e custoso fazer negócios. Todos conhecemos casos de acordos não cumpridos entre parentes ou sócios que ficaram por isso mesmo, pois não há uma justiça que faça os acordos serem cumpridos. É muito difícil ter desenvolvimento econômico forte e sustentável em um contexto dessa natureza.

EC – Olhando para os próximos 20 anos, o que se pode esperar?
Almeida – Eu imagino que as tendências positivas continuarão. O racismo deve continuar diminuindo, e talvez vejamos um fortalecimento de um movimento em defesa da mestiçagem, dos pardos. A maior igualdade entre homens e mulheres também deve seguir nessa direção. Contudo, não acredito que haverá uma mudança significativa nesses valores que têm um impacto mais forte no crescimento econômico.

EC – Por que, então, esse seu pessimismo em relação ao quadro de desigualdade do Brasil?
Almeida – Meu pessimismo é social, não depende de um governo X ou Y. Depende de uma continuidade de políticas e de valores na sociedade, e eu não vejo isso. A confiança interpessoal piorou. Então, o Brasil vai continuar melhorando? Vai. Todos os países melhoram, beneficiados pela inovação global que se derrama por toda parte. Mas imaginar que o Brasil dará uma arrancada, alcançando países que estão na sua frente, eu não acredito que isso vá acontecer. Vários países estão nos ultrapassando em renda per capita, e acho que isso vai continuar. O Brasil só conseguirá ultrapassar quem tem valores piores que os nossos. É uma visão fria, que pode ser chamada de pessimista, mas é baseada nos dados da pesquisa. Pode haver algo surpreendente? Pode. Mas eu não vejo isso no horizonte.

 

 

Comentários