Política
De Caracas a Teerã – a lógica de Trump
Especialistas divergem: para um, Trump segue uma lógica para atingir a China; para outro, o…

Foto: Ton Molina/STF
A prisão do general da reserva Augusto Heleno, para cumprir sentença de 21 anos de condenação por crimes contra a democracia, reacendeu uma disputa simbólica que se expande para as redes e para o plenário da Câmara. Militantes e parlamentares de extrema direita passaram a repetir a narrativa de que um oficial com mais de quatro décadas de serviços ao país estaria sendo “humilhado”.
O ritual de apresentação ao corpo médico, antes que Heleno fosse acomodado a uma Sala de Estado-Maior do Exército, muito diferente da realidade da massa carcerária do país, porém, trouxe um dado que adicionou outra camada à cena. O general de quatro estrelas declarou conviver com Alzheimer desde 2018.
Mais do que isso, abre espaço para revisitar a trajetória controversa que sempre acompanhou o general — muito antes de sua ascensão como um dos pilares do bolsonarismo.
Formado em primeiro lugar na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e repetindo o feito na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao) e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Augusto Heleno construiu a imagem de um oficial disciplinado, culto e respeitado entre seus pares. O prestígio foi consolidado tanto por sua atuação no Comando Militar da Amazônia quanto por missões no exterior, que incluíram a chefia da força militar da ONU no Haiti.
Esse reconhecimento entre colegas, porém, também se alimentou de elementos internos à cultura castrense. Ainda jovem oficial, Heleno foi auxiliar de ordens do general Sylvio Frota, então ministro do Exército e figura central da ala mais dura da ditadura militar. Frota foi demitido por Geisel por tentar barrar a abertura política conduzida pelo penúltimo presidente da ditadura surgida no golpe de 1964.
A convivência com Frota, símbolo do projeto de continuidade do regime, ajudou a moldar sua identidade dentro do segmento mais resistente a qualquer revisão crítica do ciclo autoritário. Décadas depois, esse enquadramento ideológico se tornaria explícito.
Heleno passou a ser uma das vozes mais estridentes contra o que chamava de “revisionismo histórico”. Sua contrariedade pública à Comissão Nacional da Verdade, que classificou como “comissão da calúnia”, repercutiu intensamente nos quartéis, ecoando entre oficiais que ainda defendiam a narrativa de 1964 como uma intervenção legítima que teria “salvado o país”. Essa postura consolidou sua autoridade simbólica entre setores da oficialidade formados ou influenciados pelo período da ditadura.
Entre 2004 e 2005, no comando militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), Heleno liderou operações que entraram para a crônica das intervenções internacionais brasileiras. A mais polêmica, em Cité Soleil, envolveu o uso de armamento pesado em área densamente habitada.
Organizações de direitos humanos apontaram mortes de civis — inclusive mulheres e crianças — e denunciaram falta de investigação transparente sobre o número real de vítimas. A pressão política e diplomática cresceu dentro e fora do Brasil. As críticas públicas de Heleno à própria ONU, consideradas inadequadas pelo comando civil da missão, agravaram o desgaste. Em 2005, ele foi removido do posto. Oficialmente, uma substituição de rotina; na prática, uma resposta à perda de confiança no comando.
De volta ao país, o general seria novamente protagonista de atritos. À frente do Comando Militar da Amazônia, entre 2007 e 2009, Heleno inaugurou o que se tornaria uma marca de seu discurso público: o ataque frontal à política indigenista brasileira.
A demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, segundo ele, era “lamentável, para não dizer caótica”. Defendeu que terras indígenas representariam risco à soberania e acusou órgãos indigenistas e ambientais de fragilizarem o Estado brasileiro. As declarações provocaram indignação entre lideranças indígenas, reações duras de entidades ambientalistas e mal-estar no governo Lula, que passou a vê-lo como uma voz alinhada ao discurso militarista que tensionava o poder civil.
O desgaste custou caro: Heleno deixou de ser cotado para ocupar postos mais altos no Exército.
Em 2013, já na reserva, o Tribunal de Contas da União condenou o general por irregularidades em convênios firmados para os Jogos Mundiais Militares de 2011, no Rio de Janeiro. O TCU apontou ausência de licitação e justificativas inadequadas para gastos de cerca de R$ 22 milhões. Foi um marco incômodo para o oficial cuja imagem pública se apoiava na retidão e no rigor administrativo.
No mês seguinte à sua passagem para a reserva, Heleno assumiu, em agosto de 2011, o cargo de “diretor de comunicação e educação corporativa” do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Em outubro de 2017, mês de seu último contracheque, recebia R$ 58.581 mensais. Esse montante, dependendo do índice utilizado, equivaleria hoje entre R$ 88.000 e R$ 105.000.
Segundo reportagem investigativa da Agência Sportlight, ao longo dos seis anos no Comitê, Heleno teria recebido mais de R$ 6,25 milhões, corrigidos até 2021. Com um detalhe peculiar: mais de 80% dos proventos do militar reformado vinham de verbas públicas.
Nas palavras de funcionários do COB, ouvidos pela apuração da agência, a atuação do militar na entidade foi praticamente inexistente: “Nos seis anos que ficou lá, não fez absolutamente nada”. Em geral, sua presença se limitava a reuniões quinzenais de comunicação, nas quais, conforme relatos, “entrava mudo e saía calado”.
O silêncio do general só se quebrava para insultos contra jornalistas — por exemplo, a frase “são todos uns filhos da p…” teria sido recorrente nesses encontros. Nos Jogos e nos preparativos do evento olímpico, sua atuação teria ficado mais no simbólico do que no prático, e um dos episódios mais emblemáticos desse período foi a polêmica envolvendo uma onça exibida durante o revezamento da tocha em Manaus, animal que escapou e teve de ser abatido por militares, causando forte repercussão negativa.
Mesmo com a escassa produção, Heleno manteve o prestígio junto à cúpula do COB e foi responsável por emplacar um amigo próximo, general Marco Aurélio Costa Vieira, em cargo estratégico dentro da organização dos jogos. A aposta, segundo fontes da Sportlight, revelou-se desastrosa.
Em outubro de 2017, pouco depois da prisão de Carlos Arthur Nuzman, então presidente do COB, Heleno pediu demissão do cargo. A saída, apresentada oficialmente como “por motivo pessoal”, coincidiu com o início da crise no comitê.
Nuzman, padrinho de Heleno no COB, foi detido por suspeita de participação na compra de votos para que o Rio de Janeiro fosse escolhido sede da Olimpíada de 2016, ligação com o esquema de corrupção que envolvia o então governador Sérgio Cabral, indícios de enriquecimento ilícito, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro (incluindo barras de ouro mantidas na Suíça) e acusações de corrupção passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Quando o bolsonarismo transformou generais em símbolos de autoridade, Heleno ressurgiu como personagem central, assumindo o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em 2019.
Como ministro, ampliou seu perfil político, reforçando posições de confronto com a imprensa, o STF e opositores do governo. Suas falas inflamadas, algumas incentivando apoiadores a “não aceitarem provocações” enquanto atacava instituições democráticas, o colocaram no núcleo duro dos movimentos que culminariam na denúncia, julgamento e condenação por crimes contra o Estado Democrático de Direito.
A comoção da militância bolsonarista diante de sua prisão tenta cristalizar a imagem do “soldado injustiçado”, apagando as fraturas que sempre existiram em sua trajetória.
Ao registrar a convivência com o Alzheimer, o próprio general, talvez sem intenção, introduziu uma nota de humanidade num percurso frequentemente usado como bandeira política.
A doença não diminui sua trajetória. Tampouco apaga o conjunto de episódios que moldaram seu nome no debate público brasileiro. Relembrar essas controvérsias não é desrespeitar sua biografia, mas recuperar a complexidade que se perde quando a história é reduzida a slogans.
Agora, do interior de uma cela confortável em unidade militar, Heleno convive com o peso de um passado que seus defensores preferem esquecer — e que o país, por responsabilidade democrática, não pode ignorar.