Plano Diretor de Porto Alegre na mira da Justiça Federal

Após uma audiência pública suspensa pelo TRF4 em agosto, ação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo pode impedir votação do projeto na Câmara de Vereadores por baixa participação popular
Justiça Federal pode barrar votação do Plano Diretor de Porto Alegre

Audiência pública do Plano Diretor chegou a ser suspensa por liminar. Quem participou, aponta evidências de vícios formais e materiais

Foto: Divulgação

Uma apresentação em powerpoint de imagens geradas por Inteligência Artificial mostra uma cidade idílica, onde os espaços urbanos entre prédios muito altos e suntuosos são ocupados por pessoas brancas, plantas e animais exóticos, um cenário muito genérico e que não poderia ser mais diferente da realidade porto-alegrense.

A exibição revoltou representantes dos movimentos sociais, ambientalistas, sociólogos e urbanistas que foram até o Auditório Araújo Vianna no dia 9 de agosto para participar da primeira audiência pública do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA). Nas arquibancadas mal-iluminadas, já que os holofotes estavam direcionados para o palco, baixa participação popular e a presença massiva de servidores da prefeitura.

A audiência pública chegou a ser suspensa pela Justiça Federal por meio de uma liminar que acabou revertida mais tarde e o Executivo deu como resolvida a questão da participação popular na elaboração da minuta do Plano Diretor. O projeto estava pronto para ser encaminhado para a Câmara de Vereadores, mas nova ação judicial que requer a realização de audiências públicas pode suspender a votação.

A iniciativa é do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) que questionou o teor do projeto junto ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). O processo está concluso para julgamento. O Ministério Público Federal (MPF), por sua vez, também requereu a realização de uma audiência de conciliação entre município, Ministério Público e Ministério Público de Contas.

Justiça Federal pode barrar votação do Plano Diretor de Porto Alegre

Juliana: “É uma irresponsabilidade desta administração do governo Melo tentar impor o Plano Diretor sem sem dialogar com o povo de Porto Alegre”

Foto: Ana Terra Firmino/CMPA

No início da semana, a vereadora Juliana de Souza (PT) lembrou na tribuna da Câmara que o MPF solicitou que a Prefeitura da capital só envie o projeto do Plano Diretor ao legislativo depois de uma manifestação do próprio Executivo a respeito da audiência de conciliação sobre o tema. “É uma irresponsabilidade desta administração do governo Melo tentar impor o Plano Diretor sem cumprir o devido processo legal e administrativo e sem dialogar com o povo de Porto Alegre”, destacou a parlamentar.

O governo tem maioria na Câmara e, no final de agosto, a relatoria do Plano Diretor ficou com um aliado de Melo, o vereador Jessé Sangalli (PL). Para Márcio Bins Ely (PDT), mesmo sem a audiência pública, o Plano Diretor seria “muito oportuno como foi apresentado”. Antes da manifestação do MPF, Ely argumentou, logo após a realização daquela audiência sobre a matéria, que a cidade precisa de uma revisão do Plano Diretor, que já passou do prazo de dez anos. “Nós talvez não iremos encontrar um ideal, mas precisamos construir aquilo que é o mais próximo do ideal. A espinha dorsal do desenvolvimento urbano é o Plano Diretor”, defendeu.

Já Brunno Mattos (PT) considera o projeto mais uma tentativa de gentrificar a cidade e de favorecer o mercado imobiliário especulativo. “Aqueles que nos atacam são aqueles que recebem dinheiro das empreiteiras. Eles tentam silenciar o debate sobre o processo de gentrificação e de exclusão de pobres e negros enquanto enchem o bolso. A prova disso foi a tal da Audiência Pública do Plano Diretor, que foi uma palhaçada. Uma audiência sem a população, só com os amigos da Prefeitura fingindo um debate”, disparou.

Ministério Público Estadual

Em julho, o Centro de Apoio Operacional da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias (Caourb), do Ministério Público estadual (MPRS) elaborou um estudo técnico-jurídico sobre a minuta do Plano Diretor que foi apresentada pela Prefeitura no dia 18. O documento resulta da análise conjunta de assessores jurídicos e arquitetos urbanistas da instituição, e tem como foco avaliar a coerência técnica e legal da proposta de planejamento urbano da capital.

O documento destaca que a lei do Plano Diretor deve ser única, abrangente e produzida por meio de um processo legislativo participativo, não sendo admissível a fragmentação de conteúdos obrigatórios entre diferentes leis, como ocorreu com a separação entre o Plano Diretor e a lei de uso e ocupação do solo. “Causa preocupação a ausência de medidas concretas voltadas à vulnerabilidade climática da cidade, como o mapeamento de áreas de risco e a previsão de ações de drenagem urbana”, aponta Cláudio Ari, coordenador do Caourb.

O estudo também critica o foco excessivo no adensamento construtivo, especialmente por meio da verticalização, sem garantir mecanismos eficazes para promover o adensamento populacional e a habitação de interesse social. As minutas flexibilizam parâmetros urbanísticos, favorecendo empreendimentos de alto padrão, mas são deficientes na regulamentação de áreas verdes, preservação permanente e soluções baseadas na natureza.

Ainda conforme Cláudio Ari, outro ponto sensível é a limitação da participação popular, com a previsão de apenas uma audiência pública para debater minutas já concluídas, o que contraria os princípios da gestão democrática previstos no Estatuto da Cidade e na Constituição Estadual. “Diante da complexidade e da relevância do tema, é imprescindível ampliar os espaços de escuta e deliberação com a sociedade civil, garantindo que o novo plano diretor reflita de forma legítima e inclusiva os interesses da população porto-alegrense”, explica o promotor de Justiça.

Justiça Federal pode barrar votação do Plano Diretor de Porto Alegre

“Eles tentam silenciar o debate sobre o processo de gentrificação e de exclusão de pobres e negros enquanto enchem o bolso”, criticou Mattos

Foto: Guilherme Vivan/CMPA

Qualificação dos espaços públicos

Disponível no portal da prefeitura, a Proposta do novo Plano Diretor de Porto Alegre é apresentada como uma “inovação”, com “foco inédito em espaços públicos”.

“Pela primeira vez, o documento inova ao colocar a qualificação e o uso dos espaços públicos – como a orla do Guaíba, parques e praças – no centro da estratégia de crescimento ordenado da cidade, enquanto, tradicionalmente, planos diretores focam na regulação do uso de propriedades privadas”, destaca a apresentação.

O texto preliminar, discutido na audiência pública de agosto, “eleva os espaços públicos à categoria de sistemas estruturantes, planejados intencionalmente para conexão e qualidade de vida da população”. “Essa abordagem reflete uma visão mais integrada da cidade, buscando promover a inclusão, o bem-estar e o dinamismo econômico por meio da valorização desses ambientes coletivos”, resume o titular da Smamus, Germano Bremm.

Em 104 páginas e 217 artigos, a minuta do Plano Diretor define regras para atingir cinco objetivos estratégicos: adaptar Porto Alegre às mudanças climáticas e zerar as emissões de gases de efeito estufa; qualificar os espaços públicos e potencializar o uso do Guaíba; reduzir o tempo de deslocamento das pessoas nos trajetos diários; reduzir o custo da moradia e garantir acesso de todos à cidade; e fortalecer o planejamento urbano com base em dados e economia urbana.

Capivaras, macacos, araucárias e riachos

A audiência pública do Plano Diretor realizada pela prefeitura em 9 de agosto, no Auditório Araújo Vianna, foi suspensa por uma liminar da Justiça Federal. Quem participou do encontro apontou diversos problemas e irregularidades, com evidências de vícios formais e materiais. A começar pela iluminação do local, que de acordo com os relatos teria privilegiado o palco, onde estavam o prefeito Sebastião Melo (MDB), o secretário municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) Germano Bremm, e uma claque de servidores públicos lotados em funções gratificadas.

“A injusta partilha da luz no local, que deixava na sombra as organizações da sociedade civil, dificultava os encontros e leitura dos cartazes de protesto, tornando-se uma metáfora da própria falta de transparência na condução da revisão do PDDUA, uma vez que a cidadania teve acesso prévio a poucos documentos relacionados ao produto que ali se apresentaria”, apontaram  a urbanista Betânia Alfonsin e a socióloga Joana Winckler, pesquisadoras do Observatório das Metrópoles em um artigo publicado no Brasil de Fato.

Vaias ao prefeito e secretário foram abafadas pelos aplausos dos vários cargos em comissão escalados para a audiência, “em uma manobra que frustra o caráter popular de uma audiência pública, que deveria servir para a escuta da sociedade civil e da população de Porto Alegre”.

No centro do auditório, os servidores e representantes do mercado imobiliário “que se posicionaram estrategicamente para tentar dominar o espaço”. Segundo as pesquisadoras, ao invés de apresentar o teor da minuta de lei que pretendia enviar para a Câmara, a administração exibiu no telão uma apresentação de um powerpoint “com mapas produzidos pela equipe técnica e dados numéricos sobre a suposta participação popular”.

Nas imagens geradas por inteligência artificial, “pessoas brancas, louras, em uma cidade ordenada, sem buracos nas calçadas e nas ruas, bem iluminada, sem pessoas em situação de rua dormindo embaixo de marquises no inverno porto-alegrense, sem alagamentos e com áreas verdes que mais pareciam o Jardim do Éden, incluindo capivaras e macacos, em meio a uma floresta de araucárias e riachos límpidos que não sabemos onde estão. Na apresentação feita pelo governo Melo, a cidade parecia uma Disneylândia urbana, mas ficou difícil encontrar Porto Alegre, sua gente e suas periferias mal-tratadas, em meio a tanta falsificação da realidade”, ironizam as autoras.

Ao menos 130 pessoas se inscreveram para fazer uso da palavra, na parte da audiência reservada para a intervenção do público, com tempo de dois minutos para cada um dos representantes dos movimentos sociais.

Essas manifestações teceram críticas à minuta do Plano Diretor: “75% de falas rechaçando a proposta apresentada, para 25% de falas favoráveis, estas últimas protagonizadas por representantes do mercado imobiliário, em sua imensa maioria, que, organizados, exibiam no peito um adesivo com a palavra “Sim” e usavam seus dois minutos para enaltecer o plano sem nenhuma sugestão, destoando o próprio sentido de uma audiência pública, concebida para o debate e construção coletiva”, apontaram as autoras.

Comentários