Desglobalização, o árduo caminho de volta ao regionalismo

ENTREVISTA | PAULO VISENTINI
Desglobalização, o árduo caminho de volta ao regionalismo

“Trump é ousado, mas não é louco. É um estrategista, um sujeito arrogante, que se acha o máximo e está acostumado a blefar no mundo dos negócios”

Foto: Igor Sperotto

As tarifas de importação anunciadas recentemente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de até 125% para a China e de 10% para o Brasil, rompem com a feroz defesa norte-americana de que o livre comércio seria o modelo econômico ideal – especialmente para suas empresas despejarem seus produtos mundo afora. A maior economia do mundo foi, a partir dos anos 1990, o principal arquiteto da globalização por meio da redução de fronteiras comerciais e do fluxo irrestrito de capitais, bens e ideias. Passadas pelo menos três décadas, em que a globalização se tornou um mantra do liberalismo, e quase uma religião, os Estados Unidos colocaram uma data, ainda que simbólica, para o início de um processo de desglobalização. Abril de 2025 seria reflexo e desfecho de um lento processo iniciado há 17 anos? Nesta entrevista, o professor e coordenador do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (Nerit/Ufrgs), Paulo Visentini, analisa o tarifaço de Trump e a sua relação com a crise de 2008, bem como decifra os interesses por trás da guerra da Rússia e joga luz sobre a movimentação cada vez mais frenética das peças no tabuleiro da geopolítica internacional.

Extra Classe – O que nos reserva o futuro com as barreiras protecionistas impostas pelos Estados Unidos neste ano?
Paulo Visentini – Não se pode olhar as medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos de forma tão simplista. Vamos dizer assim: o Trump é ousado, mas ele não é louco. Ele sabe quando recuar para fazer negócio. É curioso, porque as pessoas têm a imagem dele de um louco, mas ele é um estrategista. Ele é um sujeito bastante arrogante, se acha o máximo, mas está acostumado a fazer isso no mundo dos negócios. E isso acaba, às vezes, funcionando. Ele bota uma sanção lá em cima, gera aquela gritaria, bate-boca, e, no fim, ele reduz para menos da metade essa sanção, mas ganha alguma coisa. Dentro dos Estados Unidos, existem áreas muito diferentes. No entorno de Nova York, no Oeste e na Califórnia, estão, digamos assim, os bastiões do Partido Democrata, que aposta na globalização e no liberalismo. Mas de onde vêm os votos em Trump? Vem do centrão, do meio dos Estados Unidos. O meio dos Estados Unidos é a zona que perdeu indústrias, que tem muita gente desempregada. E o Trump é um outsider da política, a lógica da cabeça dele é de um empresário.

EC – Quem ganha e quem perde com esse movimento, que alguns classificam como desglobalização ou o novo regionalismo?
Visentini – O que vemos hoje é muito mais amplo do que as medidas protecionistas. Quando houve a crise de 2008, tudo ficou muito difícil. A crise do subprime, vamos dizer assim, a crise imobiliária americana, que espraiou para a Europa também, atingiu o mundo inteiro. Desde ali as coisas ficaram difíceis. E o país que foi melhor foi a China. A China tem um sistema de intervenção estatal, obviamente, então coordena melhor a economia. E nos Estados Unidos, desde então, a dívida norte-americana só aumentava. Quando assumiu, Trump começou uma tentativa de reverter esse déficit americano, que é estratosférico. Não só o déficit de comércio é estratosférico, mas a dívida americana é imensa, ela vai sendo jogada no mercado financeiro. E há uma percepção de que a Ásia, particularmente a China, vai se tornando cada vez mais poderosa. A reação que vem do Trump é um pouco perturbada, digamos assim, porque veio a covid, que deixou os países dois anos praticamente parados. Quando sai da covid, o (John) Biden ganha a eleição e muda de política e se envolve numa tensão ali na Ucrânia junto com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar intergovernamental, criada em 1949, com o objetivo de garantir a segurança e defesa mútua dos seus membros). A ideia era levar a Rússia a revidar, a atacar. Então, Biden se centrou muito nesse ponto.

EC – O senhor falou que a Rússia teve que revidar. Mas não foi a Rússia que começou a guerra?
Visentini – É preciso pensar além do que dizem os noticiários, colocando tudo sempre em dois lados – certo e errado –, sem entender o que realmente ocorre. A guerra começou, na verdade, lá em 2014, quando houve um golpe de Estado em Kiev, que derrubou um governo que se equilibrava entre se aproximar da União Europeia ou da Rússia. Como a União Europeia não dava muitas vantagens ao país, o governo à época acabou optando pela Rússia. Esse governo foi derrubado, aí começou aquela guerra do Donbass, a anexação da Crimeia, e ficou um conflito ali. Estou lançando agora um livro exatamente sobre isso. Paralelamente, a Otan foi se expandindo até a fronteira com a Rússia, rompendo tratados internacionais, sob a justificativa de apoio à Ucrânia, que, sozinha, não teria força para essa guerra e nem estaria nela se não fosse instigada para tanto. A guerra, porém, teve um efeito de surpresa. Esperava-se que a Rússia fosse ganhar rápido, mas a Ucrânia resistiu. E tanto o Biden como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson decidiram bancar a Ucrânia, para resistir e não fazer tratado nenhum. Isso até que Trump venceu e não está interessado em que os Estados Unidos gastem muito dinheiro com as guerras. Ele quer que os países europeus paguem. Ou seja, agora os Estados Unidos não pagarão pela defesa da Europa. A Europa tem que pagar pela defesa. O que Trump quer é a Groenlândia e o Canadá.

“Trump é ousado, mas não é louco. É um estrategista, um sujeito arrogante, que se acha o máximo e estáacostumado a blefar no mundo dos negócios”

EC – Foram subestimadas, então, Rússia e Ucrânia?
Visentini – Sim. O objetivo era uma guerra rápida, com o poder bélico da Otan na fronteira com a Rússia, onde não poderia estar. De lá, se poderia lançar um primeiro ataque à Rússia. Se você lançar um ataque a partir da Ucrânia, são menos de dez minutos para atingir as armas russas, deixando-os sem capacidade de resposta. O que, inclusive, é tema do livro que estou lançando, Putin, a Otan e a Guerra da Ucrânia (2025, Editora Leitura XXI). O objetivo era colocar a Otan quase dentro do território russo, cancelando, juntamente com os EUA, tratados assinados há muito tempo, com limitação do uso de armas nucleares.

EC – Com qual objetivo?
Visentini – O objetivo seria lançar o primeiro ataque, sem dar tempo para os russos responderem. Foi havendo uma escalada contrária ao previsto, pois Putin preparou a retomada da Crimeia e atacou antes. O presidente Putin avisou que ele não toleraria isso, que parasse isso, até que chegou um ponto que, quando já estava tudo preparado para retomar a Crimeia, etc., Putin atacou antes. Ou seja, a Ucrânia sozinha não tem força para essa guerra. O objetivo maior era que a aliança militar da Otan entrasse quase dentro do território russo. Assim, junto com os Estados Unidos, estão cancelando tratados que foram assinados com limitações para armas nucleares. O objetivo estaria centrado em poder lançar o primeiro ataque que não dê tempo para os russos responderem. Também fracassou a adesão a sanções e bloqueios econômicos mundiais contra a Rússia. Só fizeram sanções à Europa e aos Estados Unidos na presidência do Biden. A China e a Índia, inclusive, aproveitaram para ganhar mercado na Rússia, que, por sua vez, está vendendo petróleo com desconto para a Índia. A Índia refina esse petróleo e vende para a Europa como gasolina e não petróleo russo. Para ter a amizade desses países, a Rússia deu a eles algumas vantagens, como a participação na exploração do Ártico. Quando assume a presidência, Trump tenta reverter essa ação, pois o problema maior, para ele, é o crescimento na China.

EC – Essa é outra mudança de cenário atual, Estados Unidos como aliados da Rússia?
Visentini – O que leva os Estados Unidos a se aliarem à Rússia é tentar se blindar um pouco contra a crescente proximidade do país com a China, durante a guerra, assim como da expansão do Brics (sigla do grupo inicialmente integrado por ambos, mais Brasil e Índia, e que depois agregou a África do Sul). Essa foi outra consequência da guerra: um número grande de países começou a se unir ao Brics, que tinha cinco membros e agora agrupa dez.

Desglobalização, o árduo caminho de volta ao regionalismo

“Com todo esse movimento em direção ao BRICS e a busca por alternativas ao dólar, os Estados Unidos levaram um susto muito grande”

Foto: Igor Sperotto

EC – O Brics tem uma relevância tão grande, mesmo sendo apenas um grupo de países sem acordos comerciais ou integração econômica, como um bloco?
Visentini – Quem desconsidera a importância do Brics tem um nível de conhecimento muito raso. Primeiramente, porque o Brics é um clube formado atualmente por dez países que não têm o lugar político global que corresponda ao seu peso econômico crescente. Ou seja, potências velhas estão mandando no mundo e declinando, ao mesmo tempo. E onde está o espaço das potências ascendentes…? É o Brics que os reúne, mas sem o objetivo de unir e padronizar países. O grupo não tem uma pauta comum que vai obrigar todos a serem iguais. Por isso que os países gostam de estar no grupo. Os países querem ter o seu próprio caminho. No Brics, você tem todo tipo de país, com diferentes regimes, por exemplo. E a esses países concedem recursos para investimentos de forma muito oposta ao modelo do Fundo Monetário Internacional (FMI). Quando um país vai buscar dinheiro no FMI, que, para conceder juro menor, exige uma série de coisas e passa a monitorar a sua economia. O Fundo determina onde pode gastar mais que X%, onde você tem de fazer cortes, etc. Quando é o dinheiro do Brics, vai a esses países que o formam, sem condicionalidades. Essa é outra questão, o grupo confronta o uso do dólar para dominar as outras economias. Um grande exemplo é o ingresso de um grande parceiro dos Estados Unidos no grupo, a Arábia Saudita. O país disse que não ia fazer sanções à Rússia. Inclusive se unindo com a Rússia, mexeu no preço do petróleo e deixou o Biden de boca aberta. Ele não sabia como reagir. Apenas pediram que esse ingresso ao Brics ficasse por aí. Algo como alguém que foi aprovado no vestibular, mas não entregou a documentação ainda. Tanta foi a pressão norte-americana que eles deixaram assim, passou, mas não se matriculou. O Brics se tornou extremamente atrativo e já dobrou o número de países-membros. Se uniram ao bloco como membros permanentes o Irã, a Arábia Saudita, o Egito, a Etiópia e os Emirados Árabes Unidos, e há cerca de 15 que são membros associados. São tantos países querendo entrar no Brics que foi criada uma categoria para esse segundo grupo. Com todo esse movimento em direção ao Brics, os Estados Unidos levaram um susto muito grande. O Brics anunciou, ainda, que se o dólar fosse utilizado como pressão sobre os outros países, já estudava criar uma forma de comércio sem usar a moeda norte-americana. Se esse movimento de busca por alternativas ao dólar se difundisse, acabaria com os Estados Unidos. Trump já disse que se o Brics quer criar uma moeda, que não precisa ser uma moeda real, seria simplesmente uma paridade com o dólar. Porém, se a alternativa do Brics fosse trocar mercadorias entre si usando, não uma moeda, mas uma metodologia contábil, Trump alertou que os Estados Unidos não aceitariam e contestariam a validade do sistema.

EC – A independência do Brics representa uma ameaça à já questionada hegemonia dos Estados Unidos na geopolítica? Por quê?
Visentini – Agora, tens razão ao questionar o quanto o Brics é uma ameaça ao poder norte-americano por ser um clube no qual ninguém manda em ninguém e as decisões têm que ser tomadas por consenso. Ainda assim, os países que integram o grupo buscam conquistar e ter voz na ordem internacional. E o que Trump faz? Muda toda rota global ao deixar de ser o maior defensor do livre comércio e passa a defender temas, até então amplamente rejeitados, como o protecionismo e barreiras comerciais. E vemos aqui um ponto de inversão histórica. É a China que passa a defender o livre comércio. Bem antes dessa inflexão de papéis, porém, o governo chinês vinha fazendo investimentos para melhorar a infraestrutura em alguns países mais pobres do continente africano. De forma estratégica, melhorou a logística em seu próprio benefício: melhorou as condições de transporte das matérias-primas que busca em diferentes países, e os investimentos foram pagos com a produção local e outras mercadorias. E, nessa ação, os países africanos ganharam alternativas econômicas que não tinham antes. Em muitas nações africanas, a globalização não trouxe ganhos. Ao contrário, mostrou o seu pior lado: aprofundou as desigualdades.

EC – E onde está a Organização Mundial do Comércio (OMC), que, de tão silenciosa, parece ter sido extinta?
Visentini – Com as recentes ações do Trump, houve um recuo muito grande da OMC, que hoje não pode fazer quase nada, porque seu maior sócio a desautoriza e começa, ainda, a avançar sobre o espaço geoeconômico. Trump quer não apenas os recursos do Canadá, mas também da Groenlândia. E com todas essas questões postas, a OMC ficou subitamente esvaziada. Trump quer excluir a China desse novo espaço geoeconômico e que os países comecem a virar as costas para ela, o que parece uma estratégica política muito difícil e arriscada. Afastá-la da América Latina é uma das metas e está entre os motivos pelos quais ele quer controlar o Canal do Panamá. Essa questão envolve também o Brasil, que, em parceria com a China, deve criar um corredor bioceânico ligando por terra os oceanos Atlântico e Pacífico (Brasil e China avaliam a viabilidade de implantar um corredor ferroviário passando por Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre e, depois, cruzando, ainda, Argentina e Paraguai e Chile). Em vez de uma hegemonia americana, nós já teríamos um mundo com vários polos econômicos e de poder, os Estados Unidos, a China, a Rússia, a Índia, a Europa. O que Trump fez foi reconhecer que o mundo já é multipolar.

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