Política
De Caracas a Teerã – a lógica de Trump
Especialistas divergem: para um, Trump segue uma lógica para atingir a China; para outro, o…

Críticos já falam de instabilidade mundial e alertam que Trump criou um mundo paralelo para esconder seu verdadeiro perfil
Foto: Shealah Craighead/ Casa Branca
No primeiro discurso ao Congresso dos Estados Unidos no seu novo mandato, Donald Trump oficializou uma guerra comercial global e manteve suas ameaças de expansão territorial. Para Trump, a Groenlândia será dos EUA “de um jeito ou de outro” e já foi iniciada a retomada do controle sobre o Canal do Panamá. Críticos falam de instabilidade mundial e governo que cria mundo paralelo para esconder seu real perfil.
Em um primeiro momento, o presidente norte-americano anunciou tarifas severas contra Canadá, México e China. O Brasil também está em sua mira e foi, ao lado da Índia, igualmente ameaçado de tarifação retaliatória.
Trump impôs tarifas de 25% sobre importações do Canadá e do México e aumentou para 20% as taxas sobre produtos chineses, alegando que Pequim falhou em conter o fluxo de fentanil para os EUA. O Fentanil é um opioide sintético extremamente potente, usado principalmente para tratar dores intensas, como as causadas por câncer ou cirurgias.
Nos últimos anos, a substância tem sido um grande problema de saúde pública nos EUA. Lá, versões ilegais de Fentanil são frequentemente misturadas a outras drogas e aumentam o risco de overdose nos usuários.
Para Trump, quem não quiser sofrer com as taxas que vai aplicar como forma de retaliação aos mais variados países é simples: “o que eles (empresários) precisam fazer é construir suas fábricas nos EUA, e aí não terão tarifas”, disse o presidente.
A resposta não tardou. A China taxou produtos agrícolas americanos, o Canadá adotou tarifas recíprocas e o México promete anunciar medidas contra os EUA no próximo domingo.
Fora isto, a província de Ontário no Canadá já cancelou todos os seus contratos com a Starlink do bilionário Elon Musk e proibiu outras empresas norte-americanas de participarem de contratos locais até que as tarifas impostas por Trump sejam revogadas.
A política tarifária de Trump pode afetar US$ 1,4 trilhão em importações, impactando indiretamente o Brasil. Segundo economistas, as medidas protecionistas devem gerar inflação nos EUA e queda no PIB global.
O Brasil será diretamente atingido a partir de 12 de março, quando tarifas sobre exportações nacionais entrarão em vigor. Especialistas alertam para um possível cenário de estagflação. Essa é uma situação econômica rara e desafiadora, com a economia já enfrentando baixo crescimento ou recessão, alta inflação e alto desemprego ao mesmo tempo.
Em um dos momentos mais controversos do discurso, Trump declarou que os EUA ficarão com a Groenlândia “de um jeito ou de outro”. O presidente voltou a sugerir a anexação do território, alegando razões estratégicas. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, repudiou a fala, classificando-a como “um insulto à soberania da Dinamarca”.
Trump também afirmou que os EUA retomarão o controle do Canal do Panamá. Ele destacou a compra de portos estratégicos por empresas americanas. O governo do Panamá reafirmou sua soberania sobre o canal e negou interferência chinesa em sua administração.
O mercado reagiu negativamente ao discurso, com bolsas em queda e o dólar perdendo valor frente a outras moedas. Líderes internacionais condenaram a postura agressiva de Trump.
O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, acusou Trump de querer desestabilizar sua economia para facilitar uma anexação. “O que ele quer é ver um colapso total da economia canadense, porque isso tornaria mais fácil nos anexar”, afirmou.
No Brasil, o governo mantém cautela e aguarda negociações com Washington. A escalada da guerra comercial pode prejudicar exportadores brasileiros, especialmente nos setores de madeira e móveis, que podem ser alvos de novas tarifas americanas.
Durante o discurso de Trump, o congressista democrata Al Green foi expulso do plenário. Ele interrompeu Trump ao gritar que o presidente “não tem mandato” para as ações que pretende adotar nos EUA e no mundo.
Veterano na defesa dos direitos civis e representante do 9º distrito de Houston desde 2005, Green já havia defendido o impeachment de Trump no primeiro mandato. Ele continua sendo uma voz ativa contra suas políticas. Sua expulsão gerou reações entre os democratas que também protestaram de outras formas.
Durante a fala de Trump pode se ver parlamentares vestindo rosa contra o impacto da inflação sobre as mulheres, gravatas com as cores da bandeira ucraniana e cartazes denunciando “roubo” de Elon Musk e cortes nos investimentos em saúde no país.
O veterano senador democrata, Bernie Sanders, após o discurso denunciou que entende que a estratégia de Trump é a de criar um “universo paralelo” repleto de mentiras para desviar o foco dos problemas reais da população dos Estados Unidos.
Entre uma série de mentiras, o senador lembra a insistência da afirmação de Trump de que foi roubado nas eleições de 2020, que a invasão do Capitólio foi pacífica e que milhões de imigrantes ilegais votam nos EUA.
O objetivo, segundo Sanders, é ocultar a crescente desigualdade econômica, a precarização do sistema de saúde e a crise habitacional. O senador ainda destacou que, enquanto a classe trabalhadora americana sofre para pagar contas básicas, a administração Trump governa para bilionários como Musk, Bezos e Zuckerberg. Sanders defendeu ampliar o acesso à saúde, taxar os mais ricos e combater a influência dos ultrarricos na política.
No Brasil, uma das principais críticas veio de João Amoedo, fundador do partido Novo que foi expulso por não apoiar a reeleição de Bolsonaro.
Amoêdo, engenheiro, empresário e ex-diretor do Banco Itaú, destacou o impacto global negativo das políticas de Trump. Para ele, em apenas cinco semanas, o presidente de extrema-direita instaurou uma guerra comercial e uma corrida armamentista que resultam em menor produtividade e maior inflação mundial.
Segundo o empresário, no mercado financeiro, empresas de tecnologia perdem valor enquanto o setor de armamentos cresceu. Em especial na Europa, que anunciou bilhões em investimentos militares.
Para Amoêdo, Trump abandona o princípio de apoiar vítimas de guerra e impõe a “lei do mais forte”. Isso, entende, incentiva líderes autoritários a atacar nações mais fracas.
O ex-diretor do Itaú conclui ao afirmar que a devoção cega a Trump sobrepõe-se à razão e à moral, ignora os perigos de um isolacionismo autoritário e lembra tempos obscuros na história da humanidade.
A Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou, nesta quarta-feira, 5, a tentativa do presidente Donald Trump de impedir o pagamento de US$ 2 bilhões a organizações de ajuda internacional por serviços prestados ao governo.
A decisão representa um revés para Trump, que, desde seu retorno à Casa Branca em 20 de janeiro, tem adotado medidas para restringir iniciativas humanitárias financiadas pelos EUA. Entre suas ações, está o desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), responsável pela implementação de projetos globais de assistência.