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Foto: Jornal da Globo/ Reprodução
O 69º pedido de abertura de processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi protocolado nesta segunda-feira, 8, na Secretaria da Câmara dos Deputados.
O requerimento é assinado por um grupo de médicos e cientistas que acusa Bolsonaro por crimes de responsabilidade e improbidade administrativa na condução do país frente à pandemia de covid-19.
A prerrogativa de abertura de processo de impeachment é do presidente da Câmara dos Deputados. Esse é o primeiro pedido de impeachment protocolado na gestão do deputado Arthur Lira (PP-AL), eleito para a presidência da Casa com apoio de Bolsonaro. Os demais foram apresentados a Rodrigo Maia (Dem-RJ), que deixou o cargo no final de janeiro sem apreciar nenhum requerimento.
Os crimes de responsabilidade de atentar contra o direito fundamental à vida e à saúde pública e individual dos brasileiros elencados pelos médicos e cientistas que assinam o novo pedido de impeachment são tipificados no artigo 85, III da Constituição e artigo 7.9 da Lei 1079 de 1950. Já o crime de improbidade administrativa, que ocorre quando a autoridade pública age de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro que o cargo exige é previsto no artigo 85, V, da Constituição e artigo 9.7 da Lei 1079 de 1950.

José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde
Foto: Ministério da Saúde/ Arquivo
O documento é assinado por Daniel de Araújo Dourado, médico, advogado e pesquisador Associado do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da USP; Eloan dos Santos Pinheiro, ex-diretora da Far-Manguinhos (Fiocruz); Gonzalo Vecina Neto, médico, professor de saúde pública da USP e ex-presidente da Anvisa; o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão; Ethel Leonor Noia Maciel, pesquisadora de saúde coletiva, com ênfase em Epidemiologia; Reinaldo Ayer de Oliveira, médico e conselheiro do Cremesp; Ricardo Oliva, médico sanitarista; e Ubiratan de Paula Santos, pneumologista do InCor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
“Sem prejuízo de outros crimes de responsabilidade cometidos ao longo de seu mandato presidencial, (…) abusou dos poderes constitucionais e políticos inerentes a seu cargo para, em prejuízo da saúde da população brasileira, obter vantagens políticas para si em meio à pandemia de covid-19. Com isso, prejudicou de maneira patente a saúde dos brasileiros, minou relações federativas indispensáveis em uma emergência sanitária e achincalhou de modo indelével a dignidade e a honra do cargo de Presidente da República, por sua reiterada quebra de decoro”, afirmam.

Reinaldo Ayer de Oliveira, médico e conselheiro do Cremesp
Foto: Alesp/Divulgação
O pedido relaciona uma série de declarações públicas e ações de Bolsonaro desde março de 2020, início da disseminação do novo coronavírus pelo país, até o dia 20 de janeiro deste ano.
Aponta ainda as ações e omissões do presidente diante da crise sanitária. “Sob sua orientação, o Ministério da Saúde deixou de tomar as ações necessárias para salvar a população brasileira, dirigidas por consensos epidemiológicos e científicos, para atender aos interesses políticos pessoais”.
Para os autores, o presidente usou da autoridade, prestígio e visibilidade inerentes ao cargo “para disseminar desinformação, exortar o descumprimento de medidas sanitárias e disseminar a ilusão de ‘tratamentos precoces’, levando seu povo a arriscar sua saúde diante de um vírus letal”.
Além de ter negado a gravidade da pandemia de covid-19 e aderido a um negacionismo científico incompatível com a respeitável tradição sanitarista do Brasil, acusam, Bolsonaro “positivamente agiu para tornar menos eficaz as respostas do governo federal necessárias à preservação da vida e da saúde dos brasileiros”.
Frases como “Se você tomar vacina e virar jacaré, é um problema de você, pô.”; “Pelo Supremo Tribunal Federal, eu tinha que estar na praia, tomando uma cerveja”; “Não sou coveiro, tá?”; e “E daí?”, ditas pelo presidente durante coletivas e aparições para seguidores no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada durante esse período são enunciadas no documento. O requerimento destaca ainda declarações de Bolsonaro contrárias às medidas de isolamento social e as inúmeras afirmações dele minimizando a pandemia.

Gonzalo Vecina Neto, médico, professor de saúde pública da USP e ex-presidente da Anvisa
Foto: Divulgação
Para os médicos e cientistas signatários do pedido de impeachment, o presidente “usou seus poderes legais e sua força política para desacreditar medidas sanitárias de eficácia comprovada e desorientar a população cuja saúde deveria proteger”. O negacionismo de Bolsonaro, afirmam, tem custado vidas de brasileiros.
“O Sr. Jair Messias Bolsonaro insistiu em arrastar a credibilidade da Presidência da República (e, consequentemente, do Brasil) a um precipício negacionista que implicou (e vem implicando) perda de vidas e prejuízos incomensuráveis, da saúde à economia”, diz um trecho do documento.
Para os autores da ação, as ações do presidente seguem causando prejuízo imediato à saúde da população brasileira e à reputação sanitária e política do país, bem como aos interesses humanos e econômicos dos brasileiros. “Os esforços de outras instituições, notadamente o Congresso Nacional, o Poder Judiciário e os Executivos estaduais e municipais, têm sido incapazes de suprir a ausência de liderança política e epidemiológica que o governo federal deveria assumir, bem como de coibir os crimes de responsabilidade que reiteradamente foram praticados”, argumentam.