Vereadores de Xangri-lá aprovam lei que obriga leitura da Bíblia nas escolas públicas

A assessoria jurídica da prefeitura de Xangri-lá está estudando a possibilidade de ingressar com um recurso para barrar a lei, baseado em parecer da própria Câmara que considera a proposta inconstitucional
Vereador Valdir Roxo, autor da Lei, explicou que seu projeto não tem relação alguma com religião

Vereador Valdir Roxo, autor da Lei, explicou que seu projeto não tem relação alguma com religião

Foto: Reprodução/Facebook

O presidente da Câmara de Vereadores de Xangri-lá, no litoral norte do Rio Grande do Sul, promulgou no dia 21 de agosto a lei 2.166, que torna obrigatória a leitura da Bíblia em todas as escolas públicas municipais.

De acordo com a lei, de autoria do próprio presidente da Câmara, Valdir Machado Silveira (PSC), a responsabilidade pela leitura será do professor ou professora que abrir o turno escolar da manhã ou da tarde para cada turma.

Constituição

A Constituição brasileira determina que o Estado é laico, ou seja, não pode adotar nenhuma religião em repartições ou órgãos públicos.

A lei, aprovada em 2019, diz que o trecho da Bíblia a ser lido em sala de aula será escolhido de forma aleatória, cabendo também aos docentes a definição se haverá ou não debate sobre o tema abordado. Segundo a justificativa do projeto, o objetivo da lei é “tornar o ambiente escolar mais saudável e altruísta”. O vereador é pastor evangélico na cidade e também atua como cantor gospel. Também é apoiador do presidente Jair Bolsonaro, para quem fez campanha eleitoral.

Unanimidade

O projeto de Silveira, mais conhecido como Valdir Roxo, foi aprovado por unanimidade na sessão de 12 de agosto de 2019. A assessoria jurídica da prefeitura de Xangri-lá está estudando a possibilidade de ingressar com um recurso para barrar a lei, baseado em parecer da própria Câmara de Vereadores que considerou a proposta inconstitucional. “Uma das possibilidades é apresentar um projeto para revogar a lei”, disse o assessor jurídico da prefeitura, Rafael Medeiros.

Erro administrativo

O prefeito da cidade, Cilon Rodrigues da Silveira (PDT), atribuiu a promulgação da lei a um erro administrativo. “Eu deveria ter vetado, mas não fiz isso no prazo e agora houve a promulgação. Em princípio é inconstitucional, mas estamos estudando o que fazer”, afirmou, cauteloso em relação à repercussão da medida junto à comunidade. A Lei Orgânica municipal diz que o prefeito tem 15 dias para sancionar ou vetar qualquer projeto. Se não fizer nem uma coisa nem outra, a Câmara pode promulgar em até 48 horas.

“Nada a ver com religião”

Valdir Roxo, que divide o tempo como vereador e cantor gospel, entre Eduardo e Jair Bolsonaro em 2017

Valdir Roxo, que divide seu tempo tempo como vereador e cantor gospel, entre Eduardo e Jair Bolsonaro, em abril de 2017

Foto: Reprodução/Facebook

Valdir Roxo explicou que seu projeto não tem relação alguma com religião. “Meu objetivo é levar paz às escolas, numa época cada vez mais violenta, só isso”, justificou. Questionado sobre a Bíblia ser a versão oficial do cristianismo, o parlamentar disse que a maioria das pessoas tem fé católica. “O Estado é laico, mas as pessoas são cristãs”, defendeu.

Questionado ainda sobre a obrigatoriedade da leitura, Valdir Roxo disse que sua intenção não é impor nada. “Não é cabresto. É que se deixar facultativo, ninguém faz, entende? A lei só vai trazer bem às escolas, mas tem gente que não quer isso, em geral são comunistas ou esquerdistas”, acusou.

Inconstitucionalidade

O vereador já havia apresentado o mesmo projeto em 2001, que nem foi a plenário devido à sua inconstitucionalidade. Roxo é autor também de uma resolução, de 2020, que obriga a leitura de trechos da Bíblia em todas as sessões da Câmara de Vereadores de Xangri-lá. “Desde que começamos a ler, a paz voltou à Câmara”, garantiu.

A Defensoria Pública de Capão da Canoa, que atende Xangri-lá, já anunciou que estuda ingressar com uma ação direta de inconstitucionalidade no STF contra a lei municipal.

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