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Por respostas efetivas à violência de gênero
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Fotomontagem: Jornal da USP – Foto: storyset/Freepik
Com a proximidade do final de ano, as pessoas já pensam em praia, mar e, claro, em pegar muito sol. É também nessa época do ano que começam as campanhas de prevenção do câncer de pele, um tipo de evento estraga-prazeres que acaba tirando um pouco da alegria dos veranistas. Porém, nem mesmo isso impede que as pessoas se divirtam após se lambuzarem de filtro solar e passarem horas torrando ao sol, o que, como veremos, talvez não seja a maneira mais sensata de curtir as férias.
Os filtros solares surgiram há quase um século e hoje representam uma indústria bilionária que fatura alto vendendo a promessa de uma exposição segura ao sol. O problema é que, apesar de as pessoas usarem filtro solar como nunca, as taxas de câncer de pele não param de crescer, o que representa um paradoxo e tanto. Isso não significa que os filtros solares tenham algum papel causal no aumento dos casos de câncer de pele, mas eles podem estar envolvidos de maneira indireta.
Em primeiro lugar, os filtros solares são compostos por inúmeras substâncias cuja segurança tem sido cada vez mais questionada. Embora seja difícil comprovar em estudos epidemiológicos que as substâncias contidas nos filtros solares sejam prejudiciais, não parece auspicioso lambuzar-se com loções contendo coisas esquisitas como parabenos, oxibenzona e homosalato, deixando que esse coquetel de gosto duvidoso derreta sobre a pele enquanto torramos ao sol. Aliás, já foi demonstrado que tais substâncias são absorvidas e podem alcançar níveis circulantes perigosos no sangue. No caso da oxibenzona, além dos possíveis efeitos colaterais na pele, existe o risco de efeitos prejudiciais sistêmicos, como a desregulação hormonal.
Em segundo lugar, já foi demonstrado em estudos clínicos que as pessoas que utilizam filtros solares se expõem mais tempo ao sol do que as pessoas que não usam tais substâncias, o que poderia aumentar seu risco de câncer de pele se a proteção não for adequada. Isso é especialmente preocupante se considerarmos que a reaplicação ideal do filtro solar (a cada duas horas ou sempre que a pele estiver molhada ou suada) é impraticável em um ambiente de praia onde a pele está sempre recoberta por água, sal, areia e suor. Assim, é bem provável que muita gente se exponha indevidamente ao sol acreditando em uma proteção que não existe.
Para piorar a situação, é possível que muitas marcas de filtros solares não protejam tanto quanto sugere o seu marketing e o fator de proteção solar (FPS) estampado na embalagem. Uma investigação australiana recente mostrou que o FPS real dos filtros solares era muito menor do que o descrito no rótulo, com 80% dos produtos testados não oferecendo a proteção estampada na embalagem. Isso também significa que muitas pessoas acreditavam estar protegidas da radiação ultravioleta quando na verdade não estavam. Tal descoberta levou as autoridades australianas – um dos países com maior incidência de câncer de pele – a retirarem de circulação várias marcas de filtros solares.
Como se esses problemas não fossem suficientes, a simples afirmação de que os filtros solares protegem as pessoas contra o câncer de pele parece ser questionável se considerarmos que os estudos sobre o assunto têm chegado a conclusões conflitantes. Diversas revisões sistemáticas recentes sobre o uso de filtros solares para reduzir a incidência de câncer de pele (uma delas da renomada Cochrane) não demonstraram benefício. Em outras palavras: após praticamente um século de uso dos filtros solares, ainda não temos nem mesmo a certeza de sua eficácia na vida real.
É evidente que a radiação ultravioleta do sol está associada a manifestações cutâneas que incluem o câncer de pele, especialmente o tipo basocelular que é o menos perigoso. Mas isso não significa que o uso de filtros solares irá evitar esse dano nem que eles sejam a melhor forma de evitar a exposição excessiva à radiação solar. Também é preciso lembrar que o sol aproveitado com bom senso é altamente benéfico para a saúde, sendo um grande aliado no combate a problemas tão variados como depressão, osteoporose, insônia, doenças autoimunes e vários tipos de câncer.
Assim, nas últimas décadas, o pânico criado em relação ao sol talvez tenha servido apenas para alimentar a indústria de filtros solares e das famigeradas cápsulas de vitamina D. Talvez tivesse sido uma escolha mais sábia se em vez dessa heliofobia insalubre tivéssemos alimentado uma relação mais saudável e respeitosa com o astro-rei. Afinal, sem ele não haveria nem mesmo vida na Terra, já que o sol é muito mais do que apenas um catalisador de cânceres de pele, como temos sido levados a crer.
Quem está preocupado com o verão que está chegando e deseja aproveitar a temporada de praia talvez fique surpreso em saber que a melhor receita parece ser mesmo o velho bom senso: ir à praia cedo e voltar para casa pelas 10 horas da manhã, retornando à praia no final da tarde. Além disso, caminhar pela manhã e à tardinha à beira-mar sob um sol suave, eventualmente com a proteção natural de roupas de manga longa, um belo chapéu e um óculos de sol parece ser outra ótima pedida. Quem optar pelo uso do filtro solar, deveria escolher um produto que seja confiável e que não contenha substâncias potencialmente prejudiciais. E, claro, evitar sempre que possível o ritual nefasto de besuntar-se com filtro solar para torrar na praia ao sol do meio-dia acreditando estar protegido. Afinal de contas, um ritual nefasto continua sendo bastante prejudicial, mesmo que todo o mundo o siga à risca!
André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bem, O risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.