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Foto: Geovanni Cabral
Sábado, 9 de dezembro de 2023, foi o dia em que o Sr. Luis e a Sra. Lúcia me receberam em sua casa, em Porto Alegre. Eu retornava de um congresso em Lajeado. Estava na companhia do colega Geovanni Cabral, que também participava do congresso. Alguns dias antes, eu havia enviado uma mensagem a ela por e-mail, dizendo da viagem, do desejo em fazer uma visita e da manhã de sábado livre, antes de pegar o voo em Porto Alegre, à tarde, com destino a Marabá, no Pará, onde vivo e trabalho. Na sexta, 8, recebi a resposta: “Carlos, venha nos visitar”.
Até ali, eu conhecia o escritor Luis Fernando Verissimo, tinha seus livros, uma entrevista que ele me concedeu por e-mail, uma tese de doutorado sobre um conjunto de seus contos e suas crônicas concluída em 2019, e um livro derivado da tese que, na ocasião, estava no prelo: O difícil disfarce da dor – humor e memória do terror em Luis Fernando Verissimo (Editora Unimontes, 2024).
Naquele sábado eu passaria a conhecer o Luis, pessoa, pai, avô, esposo, ser humano extraordinário, de uma generosidade imensa. Também conheci a Lúcia, afetuosa e gentil, toda disposta a me apresentar a ilustre casa com seu esplendoroso jardim, dezenas de quadros, fotografias antigas e adornos distribuídos pelas paredes, nichos e aparadores, além das salas de leitura e trabalho do Érico Verissimo e do Luis Fernando Verissimo. O último cômodo visitado foi a sala de estar onde, sentado em sua poltrona, assistindo à TV, braços cruzados e pensativo, Luis me aguardava. As diversas entrevistas assistidas, somadas às centenas de imagens disponíveis online e nas orelhas dos livros, pareceram ter estreitado a distância física entre mim e aquela figura enigmática, de quem, a qualquer momento, poderia partir uma sentença decisiva na minha vida, a exemplo das muitas eternizadas nos livros e entrevistas.
Lúcia mediou a conversa, uma vez que Luis estava com fala limitada em razão do AVC. Contei-lhe sobre a tese, o livro e a felicidade de conhecê-lo pessoalmente. Também contei um pouco sobre o Pará, a universidade onde trabalho, minha trajetória na graduação, no mestrado e no doutorado. Na sala, além de nós três, estavam Geovanni e a motorista de aplicativo que nos levou de Lajeado até Porto Alegre. Aliás, quando lhe dei o endereço e ela leu o nome do bairro, disse, com certa ironia: “região de gente rica de POA!”. Mas não apenas rica, ela quis dizer, creio. Preta, de origem nordestina, preparou-se para os olhares indiferentes, ela nos contou depois. Afinal, o combinado era ela nos aguardar durante a visita e, posteriormente, deixar-nos em algum restaurante. Ficou emocionada, embora ainda desconfiada, quando lhe disse os nomes dos anfitriões. Desarmou-se diante do abraço carinhoso que recebeu (recebemos) de Lúcia, ainda na calçada em frente à casa, e diante do convite para entrar e fazer o mesmo percurso.
Um riso generalizado tomou conta da sala quando Lúcia perguntou a Kadine de qual cidade do Rio Grande do Sul ela vinha: “Bagé!”. Que manhã agradável e memorável. Geovanni, pernambucano, historiador e estudioso da literatura de cordel, parecia encantado com as peças de artesanato e xilogravura que decoram boa parte do interior da casa. Lúcia contou sobre uma viagem que ela e ele fizeram ao Pará, do seu encanto por Belém e pelo mercado do Ver-o-Peso, mostrou com orgulho algumas peças de artesanato e se lembrou do gosto inconfundível da culinária paraense.
Durante toda a conversa, Verissimo falava muito por meio de seu olhar, com movimentos afirmativos de mãos e cabeça, e algumas poucas palavras ditas com esforço e generosidade. À porta da casa, ao final da visita, já próximo do horário do almoço, Lúcia recomendou um restaurante muito frequentado por eles. Churrasco gaúcho, cerveja e um brinde ao 9 de dezembro de 2023.
Conhecer pessoalmente o Luis Fernando Verissimo foi uma experiência sem igual. Várias instâncias reunidas em uma só pessoa diante de mim. Lucidez, responsabilidade ética, generosidade, empatia, simplicidade, crítica a qualquer gesto ou visão antidemocrática e muito humor, no sentido mais progressista do termo. Tudo isso presente na obra, no gênio e na pessoa. Coerência Veríssima!
Não foi apenas a realização de uma pesquisa, a escrita de uma tese e sua versão em um livro sobre contos e crônicas deste excepcional escritor brasileiro. Foi, tem sido e vai continuar a ser uma relação de afeto. Sempre que perguntado sobre o que acha do tempo, Verissimo responde: “Sou contra”. De igual modo, seu legado literário e humorístico é, também, contra o tempo, e sempre será “do contra”, no sentido proposto por Antonio Candido no famoso ensaio O tempo do contra.
Abaetetuba (PA), 16 de agosto de 2025
Carlos Augusto Carneiro Costa é professor de Literatura na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e autor do livro O difícil disfarce da dor – humor e memória do terror em Luis Fernando Verissimo (Editora Unimontes)