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“Através deste projeto de lei, podemos desnudar um dos grandes mecanismos de transferência de renda dos mais pobres para os ricos, desmontando uma das maiores mentiras sedimentadas no imaginário popular: a de que os empresários pagam muito imposto neste país”
Foto: Roberto Parizotti
O movimento sindical possui como missão primordial elevar a condição material da classe trabalhadora. Por isso, não medimos esforços em nossas campanhas salariais para repor perdas inflacionárias e lograr ganhos reais. Acordamos na madrugada, organizamos assembleias nos locais de trabalho, distribuímos panfletos, realizamos paralisações e suportamos mesas de negociação com empregadores prepotentes, para não deixar que os salários sejam desvalorizados. Quando as empresas possuem Participação nos Lucros e Resultados (PLR), participamos de reuniões desgastantes e mobilizamos os trabalhadores para que finalmente obtenham algum ganho salarial, mesmo sabendo que a PLR instaura um sistema de metas que muitas vezes exaure os trabalhadores e trabalhadoras.
Em um país marcado pela concentração de renda e por uma desigualdade criminosa, tudo nos leva a acreditar que a conquista de melhorias salariais é a nossa única finalidade. No entanto, os nossos antepassados, que fundaram o movimento sindical e todos aqueles que renovaram o sindicalismo com a construção da CUT, nos ensinaram que a luta econômica devia sempre ser articulada com a luta política, e que os ganhos imediatos tinham que, aos poucos, edificar uma nova sociedade. O tempo passou e desaprendemos essa lição dos grandes lutadores e lutadoras de tempos atrás. O fato é que estamos cada vez mais focados em um economicismo, onde a luta das categorias são realizadas sem conexão com a luta mais geral da classe.
Estamos diante de uma gigantesca oportunidade de unir novamente os ganhos econômicos com a elevação da consciência. A mudança no imposto de renda, proposta pelo presidente do Brasil, após quatro décadas de insistência da nossa parte, é, com toda certeza, o elemento que faltava para voltarmos a conectar a luta econômica com a conscientização da classe.
O Projeto de Lei 1087/25 isenta a faixa de rendimento de até R$ 5 mil e eleva o desconto para quem ganha até R$ 7.350,00, a partir de 2026. Estima-se que mais de 26 milhões de trabalhadores e trabalhadoras serão beneficiados. Além disso, passa a cobrar imposto sobre a pequeníssima parcela da população que recebe supersalários, lucros e dividendos.
Através deste projeto de lei, podemos desnudar um dos grandes mecanismos de transferência de renda dos mais pobres para os ricos, desmontando uma das maiores mentiras sedimentadas no imaginário popular: a de que os empresários pagam muito imposto neste país.
A partir dos cálculos do Dieese conseguimos mostrar, com números concretos, o impacto direto dessa mudança no bolso do trabalhador. Um exemplo: quem recebe R$ 2,5 mil economizará R$ 612,00 ao ano; quem recebe R$ 3 mil terá uma economia de R$ 1.476,00; R$ 4 mil equivalem a um ganho líquido de R$ 3.744,00; já um trabalhador que recebe R$ 5 mil terá uma economia anual de R$ 6.060,00 – o que equivale a mais de um décimo quarto salário. Até mesmo quem ganha R$ 7.350,00, embora ainda pague imposto, terá uma economia de R$ 8.388,00 ao ano.
Essa luta sempre foi da classe trabalhadora e dos sindicatos e essa conquista não pode escapar das nossas mãos. Setores do Congresso Nacional estão querendo modificar o projeto para aliviar o lado dos ricos e, junto com isso, transformar uma luta que esteve presente ao longo da nossa história em vantagens eleitoreiras.
Muitas vezes o trabalhador possui dificuldade de perceber a importância de sua entidade sindical. As filas nos sindicatos para ressarcimento da taxa negocial é cada vez mais longa. Assumir de fato essa luta é uma forma concreta de mostrar para o trabalhador e trabalhadora que vale a pena investir em seu sindicato.
Esses valores representam ganhos equivalentes, ou até superiores, às conquistas salariais obtidas em campanhas coletivas. A diferença é que, aqui, temos um caráter pedagógico: ao mesmo tempo que garantimos um aumento real na renda líquida dos trabalhadores, revelamos o papel da tributação na reprodução da desigualdade social e mostramos como uma mudança na legislação pode beneficiar milhões de famílias. É uma oportunidade rara de transformar uma vitória econômica em um instrumento de conscientização política.
É uma luta pedagógica porque podemos explicitar os interesses escondidos por trás das representações dos deputados federais e senadores, além de mostrar os compromissos do nosso governo e da esquerda com uma sociedade mais justa e igualitária.
É nesse contexto que o Plebiscito Popular ganha força. Levar urnas e debates aos locais de trabalho transforma essa discussão em prática de mobilização. Ao votar, os trabalhadores e trabalhadoras compreendem que suas escolhas podem alterar profundamente sua vida material e o destino do país. Ao mesmo tempo, nós, dirigentes sindicais, nos reconectamos de maneira concreta e verdadeira com a base, discutindo uma pauta de interesse geral da classe trabalhadora.
Vivemos em um mundo marcado pela confusão ideológica. As redes sociais e a digitalização aprisionam a classe trabalhadora no labirinto dos algoritmos. As formas de organização do trabalho fundadas na individualização, a transformação da vida em uma correria constante e cansativa, e a tendência ao isolamento aumentam o nosso compromisso de reconstituir um projeto social que valorize o bem-estar econômico, a distribuição de renda e um mundo mais igualitário, justo e sustentável.
Amarildo Cenci é presidente da Central Única dos Trabalhadores Rio Grande do Sul (CUT-RS)