Você não está doente

O que não podemos perder de vista é a ideia de que nem tudo que se aplica a populações se aplica com a mesma intensidade a indivíduos

Você não está doente

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A menos que você tenha a má sorte de ser portador de uma doença grave e que de fato ameace a sua vida, o mais provável é que você esteja se considerando doente sem necessidade. Isso porque a medicina tem exagerado – algumas vezes de forma inadvertida e bem-intencionada – em suas definições de doença, contribuindo para que as pessoas se sintam doentes, o que evidentemente não colabora muito para a saúde da população.

Uma das maneiras como a medicina transforma pessoas saudáveis em doentes da noite para o dia é representada pela mudança arbitrária dos valores considerados normais para diversos parâmetros biométricos e laboratoriais. Isso acontece, por exemplo, quando a medicina declara que uma pressão de 120/80 já não é suficientemente boa e deve ser considerada anormal, assustando muita gente e transformando imediatamente milhões de pessoas saudáveis e assintomáticas em doentes ansiosos e passíveis de tratamento. Da mesma maneira, pessoas com níveis glicêmicos de 110 – um nível considerado normal até há poucos anos – já são tratadas como se estivessem francamente doentes.

Existem justificativas baseadas em estatísticas pelas quais populações com pressão arterial 120/80 ou glicemia de 110 podem apresentar um risco discretamente maior de problemas de saúde no longo prazo em comparação com aquelas cuja pressão arterial é 110/70 ou cuja glicemia é menor que 110. Porém, em nível individual, esse risco “aumentado” talvez não seja suficientemente grande a ponto de justificar o pesado rótulo de “doente” e o uso diário de medicamentos pelo resto da vida.

A mesma lógica vale para tantas outras “pré-doenças” criadas de forma arbitrária pela medicina nas últimas décadas, o que inclui, além da pré-hipertensão e da pré-diabetes, a pré-osteoporose, a pré-obesidade e a pré-demência. A imensa maioria das pessoas rotuladas dessa forma – os famigerados “pré-doentes” – poderia levar uma vida normal, mas passa a partir desse momento a se considerar doente e, até mesmo, a tomar remédios diariamente.

Também não está verdadeiramente doente quem apresenta apenas “fatores de risco” para o desenvolvimento de doenças, mas não mostra qualquer sinal clínico delas. Este é o caso daquelas pessoas saudáveis em outros aspectos, mas que têm níveis um pouco elevados de colesterol ou triglicerídeos. A lógica é a mesma das pré-doenças: embora populações com colesterol mais alto possam apresentar níveis maiores de doenças cardiovasculares (o que não significa que exista sempre uma relação causal linear entre as duas variáveis), a imensa maioria das pessoas com colesterol elevado não apresentará problemas de saúde graves, o que significa que muitas dessas pessoas poderiam ser consideradas saudáveis.

O que não podemos perder de vista é a ideia de que nem tudo que se aplica a populações se aplica com a mesma intensidade a indivíduos. Uma variação em determinado parâmetro clínico pode ter alguma importância estatística ao se analisar uma população de milhares de pessoas, mas tal diferença pode perder relevância em nível individual.

Para piorar a situação, muitos profissionais deram um passo adiante na medicalização da vida diária e passaram a exigir níveis supranormais de diversas substâncias dosadas no sangue para considerar uma pessoa saudável. Embora a medicina séria considere inadequada essa conduta, é bastante comum recebermos no consultório pessoas que começaram a tomar diversas substâncias desnecessariamente mesmo apresentando exames laboratoriais normais, com a justificativa de que o normal não era suficiente e que, portanto, elas deveriam manter níveis acima do normal dessa ou daquela vitamina ou hormônio, mais uma vez criando a impressão de doença em pessoas absolutamente saudáveis.

É evidente que essa conduta reprovável não passa de uma maneira ardilosa de encher os consultórios e amealhar dinheiro de pessoas incautas e saudáveis. Afinal, gente saudável dá menos trabalho para os médicos e consome igualmente os seus serviços. O problema é que, no final das contas, essa conduta não ajuda ninguém a viver melhor e tira o lugar daquelas pessoas realmente doentes que não conseguem acesso aos serviços médicos, além de consumirem os escassos recursos dos sistemas de saúde.

Existe ainda a possibilidade – em especial no campo das doenças mentais – de que você esteja se sentindo doente quando na verdade está apenas resistindo à loucura de nossa sociedade tecnocrática atual com sua mentalidade neoliberal escravizante e desumanizadora. É preciso perceber que uma pessoa que resiste e sofre em resposta a este mundo adoecido pode estar muito mais saudável do que uma outra que se adapta cinicamente ao culto da produtividade atual.

No final das contas, o conceito de saúde é algo muito mais amplo do que a simples ausência de doenças ou a manutenção de níveis “ideais” deste ou daquele parâmetro bioquímico ou fisiológico. Além disso, sábios de diversas épocas – e nossa própria experiência pessoal – já nos alertaram de que, no final das contas, todos morreremos. É como se, de certa forma, já estivéssemos todos “pré-mortos”. E nem por isso agimos como mortos desde já. Em vez disso, tratamos de viver nossas vidas da melhor maneira possível e de realizar nossos sonhos. Talvez seja uma boa ideia usarmos essa mesma sabedoria para lidar com alguns dos exageros da medicina atual!

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

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