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“A Estratégia Saúde da Família oferecida pelo SUS é uma das maiores conquistas em termos de saúde pública e atenção primária, já tendo demonstrado inúmeros benefícios em termos de melhorias na saúde da população atendida”
Foto: Altemar Alcantara/ Agência Brasil/ Arquivo
A cena é corriqueira na sociedade atual: uma pessoa apresenta algum problema de saúde agudo ou um sintoma novo preocupante e, sem ter um médico de confiança a quem recorrer, acaba consultando em alguma emergência hospitalar ou com um “médico virtual” designado pelo próprio plano de saúde e que não tem nenhum conhecimento prévio sobre os problemas de saúde e as condições de vida daquela pessoa.
Também é comum que pessoas portadoras de doenças crônicas, como diabetes ou hipertensão, consultem com diversos profissionais diferentes sem criar um vínculo profundo e longevo com nenhum deles. O que essas pessoas talvez não saibam é que ter um médico generalista de confiança a quem recorrer nessas horas pode ser um dos recursos mais importantes para preservar sua saúde e viver mais.
Existem inúmeros estudos científicos demonstrando que ter um médico generalista de confiança com quem as pessoas constroem uma relação clínica duradoura traz diversos benefícios para a saúde, o que inclui menores taxas de mortalidade (ou seja, essas pessoas vivem mais!), redução da necessidade de consultas em emergências hospitalares, menos internações hospitalares, mais qualidade de vida e menores custos relacionados a gastos com saúde (ou seja, essas pessoas vivem melhor!).
Além disso, os próprios profissionais de saúde parecem se beneficiar com esses relacionamentos clínicos prolongados, o que se reflete em maior produtividade e maior satisfação com o trabalho.
É por isso que os países socialmente mais desenvolvidos e que apresentam os melhores sistemas de saúde e algumas das maiores expectativas de vida, como o Reino Unido, o Canadá e os países nórdicos, baseiam seus cuidados de saúde em médicos generalistas, os quais mantêm relações de longo prazo com as pessoas e servem como primeiro contato – e, muitas vezes, o único contato necessário – das pessoas com o sistema de saúde.
São eles os responsáveis por atender à grande maioria das demandas clínicas dos pacientes, encaminhando alguns poucos casos para exames complementares ou consultas com especialistas. Isso proporciona não apenas mais tranquilidade e saúde para as pessoas, mas também reduz o desperdício de recursos e o gasto total dos sistemas de saúde. E, convenhamos, gastar menos e ter mais saúde é tudo que se pode querer tanto em nível individual como de sociedade.
Aquelas pessoas que têm maior liberdade de escolha podem buscar um profissional cuja filosofia de trabalho esteja de acordo com seus próprios valores e preferências como pacientes. Já aquelas atendidas no sistema público de saúde devem criar laços de confiança com os profissionais da atenção primária, lembrando que a chamada Estratégia Saúde da Família oferecida pelo SUS é uma das maiores conquistas brasileiras em termos de saúde pública e atenção primária, já tendo demonstrado inúmeros benefícios em termos de melhorias na saúde da população atendida.
Apesar de todos esses benefícios, muitos países – com o Brasil, incluído – têm permitido o enfraquecimento de seus sistemas de saúde ao optarem pela precarização da atenção primária e pela fragmentação dos cuidados clínicos, o que encarece os cuidados e dificulta o acompanhamento de longo prazo (longitudinalidade).
Entre outros fatores, há certamente um interesse do mercado da saúde por trás dessa mentalidade: um paciente que tem seu cuidado de saúde fragmentado entre vários especialistas gasta muito mais e enriquece essa indústria da saúde de uma maneira que uma pessoa tratada por um médico de confiança jamais o faria.
Isso ocorre porque ainda existe quem considere adequado copiar o modelo de saúde estadunidense, certamente um dos mais caros e ineficientes do planeta. Considerando-se a fortuna gasta pelo governo estadunidense nessa área, era de se esperar que ao menos a população gozasse de uma saúde muito boa e vivesse mais que outros países socialmente comparáveis. Porém, não apenas a saúde média da população estadunidense é bem ruim, como também a expectativa de vida é bem menor do que em outros países igualmente desenvolvidos.
Voltando à cena que abre o texto, é claro que um médico de confiança teria mais condições de abordar adequadamente aquele sintoma novo por conhecer todo o histórico do paciente, podendo discernir com mais clareza se a situação exige algum tipo de intervenção ou se simplesmente é o caso de tranquilizar o paciente e evitar que ele se exponha a exames e tratamentos desnecessários.
O mesmo ocorre naqueles casos de doenças crônicas: diferentemente de um profissional que não conhece o paciente, um médico de confiança que acompanhe a pessoa ao longo do tempo conhece bem o seu caso e pode identificar mudanças clínicas sutis que indiquem alguma complicação que exija uma conduta mais urgente.
Em resumo, embora as peripécias tecnológicas do mundo moderno tenham criado o mito de que nossa saúde depende muito de medicamentos caríssimos, exames de última geração e a disponibilidade de uma miríade de especialistas que se limitam a cuidar de um órgão específico de nosso corpo, está cada vez mais evidente – e cientificamente comprovado – que o acesso a um cuidado sóbrio prestado por um médico generalista de confiança pode ser muito mais interessante tanto em nível individual como na sociedade como um todo. Ou seja: talvez uma das melhores coisas que você pode fazer por sua saúde seja arrumar logo um médico de confiança para chamar de seu.
André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bem, O risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.