28 de Junho: dia de orgulho e luta

Quando algumas pessoas da nossa comunidade são atacadas, nos enfraquecemos como grupo. A luta das pessoas trans precisa ser uma luta de todas as pessoas LGBTI+
28 de Junho: dia de orgulho e luta

“Como comunidade, temos que garantir os poucos direitos que conquistamos com muita luta. E os desafios são vários: somente no ano de 2024, foram protocolados quase 300 projetos contra os LGBTs nas casas legislativas de todo o Brasil. O foco, na maioria deles, são as pessoas trans”

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Mais um 28 de junho: dia de fazer memória às pessoas que, em 1969, disseram basta aos absurdos que ocorriam cotidianamente no Stonewall, em Nova York. Cansaram de ser hostilizadas e desrespeitadas apenas por quererem existir dentro daquele espaço. Dentre tantos bares que haviam naquela região, queriam apenas ter um espaço seguro, apenas um. Mas nem isso era possível, até que houve a revolta.

Acredito, então, que seja importante não esquecermos o que queriam aquelas pessoas que iniciaram o movimento que hoje chamamos de LGBTIAPN+: o direito à existência antes de qualquer outra coisa. Lembro isso, porque é a partir do direito de existir que se originam todos os outros direitos: casar, ter filhos, amar, ter acesso a emprego, saúde, educação, lazer… se não formos reconhecidos como pessoas, nenhum outro direito nos será possível.

E, hoje, mais do que em outros momentos, entendo a importância de lutarmos como comunidade para garantir os poucos direitos que conquistamos com muita luta. E os desafios são vários: somente no ano de 2024, foram protocolados quase 300 projetos contra os LGBTs nas casas legislativas de todo o Brasil. O foco, na maioria deles, são as pessoas trans. Contudo, precisamos estar sempre vigilantes, pois, quando algumas pessoas da nossa comunidade são atacadas, nos enfraquecemos como grupo. A luta das pessoas trans precisa ser uma luta de todas as pessoas LGBTI+.

Não bastassem os projetos apresentados, temos, também, 77 que já estão em vigor. A grande maioria versa sobre a proibição de linguagem inclusiva nas escolas (quase 50%), desconsiderando que a Língua Portuguesa sofreu e sofre modificações ao longo do tempo, já que ela é um código que serve para as pessoas se comunicarem e está em constante transformação. Ora, se a língua não passasse por modificações, ainda estaríamos nos referindo às pessoas como “vossa mercê” e não “você”.

Outro projeto que merece nossa atenção é a utilização de banheiros por pessoas trans. Ou melhor, a não utilização. Desejam impedir que essas pessoas utilizem o banheiro, de acordo com o gênero que elas assim se designam, mas também desconsideram a violência que elas passariam (e passam), caso utilizem o banheiro segundo o gênero que lhes foi designado ao nascer. Ao que me parece, entendem que pessoas trans não devem utilizar nenhum banheiro, impedindo-as de fazerem suas necessidades fisiológicas, ou querem instalar um novo regime de apartheid, havendo banheiros para pessoas cisgêneras e banheiros para pessoas transgêneras, assim como já houve para pessoas brancas e para pessoas negras.

Nas escolas, também temos vários desafios a serem enfrentados. Pesquisa realizada em 2024 sobre o ambiente escolar para estudantes LGBTI+ apresenta vários retrocessos em relação à pesquisa anterior, realizada em 2016. Se, em 2016, 60% das pessoas LGBTI+ se sentiam inseguras na escola por causa de sua orientação sexual e 43% por causa de sua identidade/expressão de gênero, agora, em 2024, esse número subiu para 86%. Ou seja, houve um aumento significativo das pessoas LGBTI+ que alegaram sentir insegurança nas instituições de ensino em razão de alguma característica sua, sendo que, entre jovens trans/travestis, a proporção aumentou para 93%. Já em relação às violências verbais sofridas, se, em 2016, 73% das pessoas que responderam à pesquisa foram agredidas verbalmente por causa de sua orientação sexual e 68% por causa de sua identidade/expressão de gênero, agora, em 2025, 90% das pessoas LGBTI+ entrevistadas afirmaram ter sido vítimas de algum tipo de agressão verbal.

Esses dados remetem a um apelo da Deputada Federal Érika Hilton: “não podemos baixar a cabeça! É luta, é luta, é luta!”. Apesar deste dia nos remeter ao ano de 1969, vemos que, por mais que o tempo tenha passado, precisamos continuar vigilantes, lutando pelas nossas existência e pelo fim dos retrocessos.

Mas hoje também é dia de nos orgulharmos por tudo o que já avançamos e conquistamos, sempre olhando para o futuro. Temos uma bancada, no Congresso Nacional, constituída por duas mulheres trans e pessoas LGBTI+ que continuamente fazem o enfrentamento e lutam pelos nossos direitos. Além dessas pessoas, temos várias pessoas LGBTI+, incluindo um grupo significativo de mulheres trans que foram eleitas nas Câmaras de Vereadores, o que demonstra que novas lideranças estão sendo formadas dentro da nossa comunidade. Temos pessoas gays, lésbicas e trans nas universidades como estudantes, mas também como educadoras, inclusive produzindo outros conhecimentos, que não nos tratam como pessoas anormais ou doentes. Isso, dentre outras coisas, é motivo de orgulho.

Por isso, hoje, celebremos! Celebremos nossas lutas, celebremos nosso orgulho e nossas existências. Celebremos os avanços e lutemos para não haver mais retrocessos. Celebremos e nos orgulhemos, pois, por muito tempo, fomos ensinados a sentir vergonha dos nossos corpos, nossos gêneros e nossas sexualidades! Celebremos e digamos: ninguém mais vai voltar para nenhum armário, eles serão todEs queimadEs!

Celebrar é um ato de resistência!

Rudson Adriano Rossato da Luz é professor, historiador, mestre e doutorando em Educação pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

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