O indivíduo em busca de tempo e lugar

Sozinho na cidade e sem entidades de classe ou um Estado que zelem por ele, o indivíduo vê na família ou na religião suas últimas células de resistência frente a precarização da qualidade de vida

O corpo, o tempo e o espaço

Arte: Extra Classe (livremente inspirada na HQ Watchmen - Alan Moore e Dave Gibbons) / Com uso de IA

No documentário Muniz Sodré – O espaço da África no Brasil, o escritor, teórico de mídia e pensador da cultura negra afirma que o último grande empreendimento da cultura ocidental visando à expansão espacial de fronteiras e territórios de dominação se deu com a ascensão e a queda da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Sodré, o espaço passou a ser visto como em uma “categoria nazista” e, após o colapso da tentativa de controle e colonização de territórios europeus e africanos por parte do Reich, a modernidade conduzida pelo Ocidente retomou a relação com o tempo como seu principal eixo articulador de sentidos.

Consequentemente, ao contrário de culturas não-hegemônicas em termos industriais, a subjetividade ocidental é marcada cada vez mais por um tempo acelerado, o tempo do progresso e das máquinas, do carro e do avião, da produtividade sem fim, em uma relação catalisadora de desafios e ansiedades cuja perfeita tradução foi o advento da internet, que não só comprimiu o espaço pelo tempo como modificou o comportamento de todos nós. Além disso, esse tempo liberto da relação espacial acelerou o processo de desterritorialização do espaço que permitiu também uma nova organização das forças produtivas, seja exportando a indústria para países periféricos, onde poderão explorar as matérias-primas, pagar menos impostos e salários mais baixos aos trabalhadores, seja também esquartejando a produção em fabriquetas espalhadas em diferentes lugares do globo.

Conforme as classes operárias europeia e estadunidense viram minguarem oportunidades de trabalho e qualidade de vida, os países do Sul global inseriram-se à força em uma globalização neocolonialista que explora seus bens naturais e não compartilha os lucros advindos do trabalho. Ainda nos anos 1970, com a crise do petróleo e a reorganização do capital, as classes médias europeias e estadunidenses também se inseriram no mercado de serviços e foram o primeiro laboratório das políticas neoliberais que minaram de dentro as benesses do Estado de Bem-Estar social propiciado em parte pelo Plano Marshall, em parte por uma tentativa de vida democrática e pela integração continental que pretendia cimentar a experiência pregressa da guerra e do nazifascismo.

Dos anos 1970 em diante, o capital deslocou o investimento antes destinado à produção para a financeirização, acarretando, nas décadas seguintes, o baixo crescimento, o endividamento crônico e a concentração de renda nas mãos da especulação neoliberal. Esse contexto de aceleração, depredação econômica e desterritorialização intensificaram a perda de raízes e vínculos com o ambiente de origem, além da corrosão dos laços comunitários. Sozinho na cidade e sem entidades de classe ou um Estado que zelem por ele, o indivíduo vê na família ou na religião suas últimas células de resistência frente a precarização da qualidade de vida.

Neste cenário de terra arrasada, fim das conquistas democráticas pós-Segunda Guerra e adoecimento generalizado em razão do avanço do neoliberalismo e seus processos de exploração e subjetivação, os bens de consumo passaram a perder importância simbólica como objetos de fetiche, uma vez que, graças à produção em série, com pouco ou muito esforço, diferentes camadas de pessoas foram incluídas na categoria de consumidores e, mesmo à custa de endividamento, conseguiram acesso a celulares, vestuário e calçados de marcas prestigiadas, apesar de continuarem sem acesso à mercadoria mais valorizada pelo sistema: o tempo.

De acordo com a crítica marxista, o que assinala a classe trabalhadora é não ter propriedade dos meios de produção e, para poder ter acesso aos bens que propiciam a vida, o trabalhador deve trocar seu tempo e sua força de trabalho pelo salário. Em um mundo onde a renda diminui e sua concentração aumenta, o trabalhador renuncia à vida para poder produzir para o sistema, ao passo que, por outro lado, as pessoas que ocupam o topo da pirâmide das classes sociais podem esnobar as demais por terem todo o tempo nas mãos, seja viajando, indo na academia, curtindo largos momentos de ócio, propiciados pelo dinheiro que ajuda a alocar as horas de vida de trabalhadores precarizados para as tarefas domésticas, terceirizando a criação e a alimentação dos filhos, terceirizando a organização da própria vida para que o patrão ou a patroa possam gozar do objeto de maior fetiche do século XXI: o tempo.

Nos dias 8 e 9 de junho de 2025 na Itália ocorreu o referendum sobre o trabalho e a cidadania e, para a surpresa de muitos que passaram esses dias postando fotos nas redes sociais de largas filas para votar, pouco mais de 30% dos italianos participaram da votação. Apesar de propiciarem de vínculos e a difusão de lutas e ideias, essas redes mais representam uma visão parcial do mundo que nos circunda. As sucessivas derrotas que o projeto de democracia liberal tem sofrido também refletem um contexto no qual os vínculos com o espaço se deterioraram. Mobilizados pela internet, quais são os movimentos que de fato adquirem corpo nas ruas?

Se quisermos levar a uma dimensão concreta nossas lutas, projetos e ideias, devemos retomar o contato com o outro, a importância da circulação do espaço, a conquista do território para que juntos possamos também conquistar o tempo que nos é retirado.

P.S.: Este artigo foi finalizado em 13 de junho, aniversário de Fernando Pessoa, dia de Santo Antônio e de Exu Bará.

Arthur Beltrão Telló é escritor,  doutor em Teoria da Literatura, professor da PUCRS e dirigente sindical. Confira outros artigos do autor.

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