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“Onde fosse a mesa dele, ao seu redor muita inteligência, o amálgama entre todos eram as ideias e o riso, muito riso”
Foto: Marco Antonio Filho
Admirar pessoas – artistas ou não – é um laço fundamental no convívio humano. Se além disso a pessoa é bem-humorada e tem expressão própria, aí vai cativar viventes vida afora. O Felizardo era desses, e assim irá continuar na lembrança de todos que o conheceram.
O Felizardo e uma penca de amigos perenes tiveram a sorte da contemporaneidade, e o ambiente dos anos 70 e 80 no Bar do IAB na praça Dom Feliciano promoveu admirações mútuas. E nisso eu fui um dos sortudos: o Felizardo era um farol a mais naquele cenário repleto de gente genericamente brilhante: artistas, autores, pensadores, jornalistas. A mim, o Felizardo conquistou de imediato, pela faísca verbal, sempre acesa. Onde fosse a mesa dele, ao seu redor muita inteligência, o amálgama entre todos eram as ideias e o riso, muito riso. Eu não sabia, mas aquele fervilhar cultural no IAB ficaria como um privilégio em nossas vidinhas de então.
Me acostumei a me referir ao Felizardo como o cara dos acréscimos. Isso o descreveria bem: em rodas de papo, em debates culturais, em torneios de teimosias, onde cada um era capaz de trazer argumentos curiosíssimos ou interessantíssimos (naqueles tempos, naquelas turmas, todos nos nós achávamos assim, meio superlativos!)
O Felizardo era o que sempre acrescentava algo insabido – fosse ciência, arte ou cultura inútil. Até em meio a papo furado, o do Felizardo sempre considerei com furos minúsculos.
Ao citarem um fato ou lembrarem algum aspecto sobre um vago assunto, lá vinha ele, entusiasmado e arguto, e dizia algo enriquecedor, aproveitável ou no mínimo num ângulo em que a conversa não parecia que iria até ali. Isso sem nunca pretender ser taxativo, o cara da última palavra, alguém que pontifica sobre qualquer tema.
Felizardo apenas deixava jorrar sua bagagem extensiva de leituras, testemunhos, experiências, conhecimento. E por trás dessas generalidades, o fotógrafo Felizardo mostrava cliques reveladores da sua grandeza de espírito e singular talento .
A cada exposição sua, nossas retinas tinham de se alargar para os imensos horizontes que o Felizardo no trazia. De vastas cenas americanas a gigantescas pedras de algum rincão cá nosso, aqueles painéis embasbacavam o olho. Diante das fotos impressionantes, a admiração brotava da alquimia do seu intenso preto-branco-cinza. Como ele conseguia tal força, tamanho impacto, apenas com grãos e tons? Só o estudo do seu imenso e admirável acervo pode explicar.
No livro O Relógio de Ver, Felizardo mostra outra capacidade sua, a meu ver pouco aplaudida: escrever bem. É uma reunião de textos iluminados, quer dizer, aclarados pela sua maneira de ver desde grandes questões até minúcias mal percebidas. Delícia de livro, cujas páginas também são cliques da sua imaginação, a registrar e expor cenários e texturas pouco antevistas. E isso apenas trocando suas lentes por um teclado.
A última vez que vi o incansável Felizardo se levantar da cadeira foi no lançamento do livro O Pato Macho, do Cláudio Ferlauto. Era abril de 2016, num bistrô ao lado do Dmae. Na ocasião, Felizardo recusou amparo, se agarrou ao corrimão da escada e subiu dois exigentes lances até chegar onde haveria a sessão de autógrafo. Todos se emocionaram.
Tivemos a alegria de ver nosso queridíssimo Felizardo agora em abril, numa visita coletiva – o Edgar Vasques, o Cláudio Levitan e eu – à sua casa. A Bel, parceira de existência e projetos, fiel escudeira de uma vida, garantiu as três coisas que a noite precisava pro vibrante reencontro de antigos amigos: vinho, uns comes e a translação do que o Felizardo murmurava. Na sua limitação oral, o que mais falava pelo Felizardo era a centelha no seu olhar: vivo interesse, ânsia de se expressar, prazer de ouvir o que estava ouvindo. Um interlocutor precioso, atento, com a mesma lucidez com que veio ao mundo espantar sensibilidades. Seja com imagens, com palavras ou sua notável personalidade, conseguiu surpreender aos que tiveram acesso a ele e às suas obras.
A nossa desvantagem em lembrar do Felizardo daqui em diante, é que a nossa memória não é tão prodigiosa quanto a dele.
O incansável Felizardo afinal descansou.
FRAGA é colunista do Jornal Extra Classe.