Colunistas
Por respostas efetivas à violência de gênero
É no nível local que se pode articular medidas protetivas em rede, como visitas policiais,…

Foto: Ricardo Stuckert / PR
Há mais um componente no alvoroço provocado pela controvérsia da fala de Janja em Pequim, sobre a necessidade de controles do TikTok. As reações à intriga disseminada pelas comadres da GloboNews são vistas, por alguns setores do machismo dissimulado, apenas como discurso identitário.
O argumento é manjado: o discurso identitário, em defesa de uma mulher, anula a abordagem que importa, que é falar da estratégia política da direita para atacar Lula.
É óbvio que atacaram Janja com o objetivo de fragilizar o governo e Lula. E assim desviar a atenção para o anúncio da comitiva em Pequim, de que os chineses irão
investir US$ 27 bilhões no Brasil.
Dizem até que a defesa da fala de Janja, sob o ponto de vista feminino, esconde outra grande questão de fundo, que é a tentativa de sabotar a regulação das big techs.
Por favor, menos. Primeiro, porque o ataque é de fato político, mesmo que seus argumentos sejam claramente machistas. E segundo que a agressão a Janja não existiria se a intriga envolvesse um homem.
Janja perguntou, diante de Xi Jinping, se era possível conversar sobre a regulação de conteúdos no TikTok, que é chinês. Falou depois de uma fala de Lula. E acrescentou que crianças e mulheres sofrem os maiores danos, incluindo a exploração financeira das redes em geral.
Se um homem da delegação tivesse feito a intervenção, seria mais um macho tentando interagir com outro homem. Mas foi Janja. E foi, segundo as mesmas comadres da GloboNews, fora dos protocolos da diplomacia.
A pergunta sobre o TikTok rendeu manchetes porque envolve Janja. E também porque, segundo os intrigantes, Janja deveria ser uma mulher calada. Porque não foi eleita, não é ministra, não tem cargo. É só a mulher de Lula.
É um argumento que contagia parte das esquerdas, entre homens e mulheres, porque a GloboNews também orienta, e muito, as conversas fora das rodas da direita.
O que surge com força também nesse caso é o alerta dos que se preocupam com as grandes pautas da luta de classes e do ativismo antifascista. É na linha de vamos parar com o discurso identitário de defesa de mulheres, gays, negros, indígenas, porque o caso da
Janja está num contexto mais amplo.
Esse tipo de foco não se dá dentro dos espaços da direita. É a esquerda que, a seu modo, acaba por reforçar pontos de vista de parte do fascismo. O caso de Janja é que o bolsonarismo chamaria de mimimi, a partir da conclusão machista de que Lula não controla a própria mulher.
Fazer o quê? Admitir, como aparece em várias abordagens sobre as relações dentro das esquerdas, que o machismo não é propriedade absoluta do reacionarismo político da direita. Vem de longe e se renova, agora com a conversa de que o identitarismo atrapalha tudo.
É um reacionarismo de costumes, que a atitude de Janja ajuda a ressuscitar, involuntariamente, dentro das esquerdas, porque ela teve a ousadia de desafiar até normas da diplomacia.
Mesmo que se saiba que uma das farsas mundiais hoje é a expressa pela diplomacia das relações multilaterais, uma diplomacia disfuncional, que nada resolve e ainda engana. Janja afrontou regras dos homens e assombrou também a mulheres, começando pela confraria da GloboNews.
Foi o machismo de alguém da equipe de Lula que vazou a fala de Janja no jantar em Pequim e foi o machismo do jornalismo da grande imprensa que disseminou uma falsa crise. Como se Janja tivesse o poder de fazer uma pergunta que esculhambasse com tudo o que Lula conseguiu na viagem.
O ataque ao que seria identitarismo se junta aos ataques do fascismo e aciona uma pergunta: são as lutas identitárias que estão falando demais, ou seriam as lutas de classe (para usar um jargão) que há muito tempo estão falando de menos e sendo menos efetivas?
Tentem responder sem colocar a culpa na classe média, nos brancos e nos bacanas identitaristas, que estariam desviando o foco das grandes lutas e ajudando a eleger os Trumps, os Bolsonaros e os Mileis. As esquerdas não podem ter legendários.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.